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Jornalismo hard é isso aí
01.07.08 11:50
Ele já passou meses no meio dos Hell's Angels, causou louco de ácido em Las Vegas, entrevistou Muhammad Ali cara-a-cara no seu quarto de hotel, escancarou os bastidores de mais de uma eleição presidencial americana, apavorou o "white trash" que frequenta corridas de cavalo e cobriu competições de barco no Golfo do México turbinado de químicos. Era também um grande entusiasta de armas de fogo.

O jornalista e escritor americano Hunter S. Thompson é um desses personagens que parece ter sido inventado por alguma mente literária muito criativa.

Nesse caso, a mente pode ser dele mesmo. Afinal, entre os preceitos do estilo de jornalismo que ele criou, o gonzo, está a indefinição de onde acaba fato e começa ficção (a frase de William Faulkner de que "a melhor ficção é muito mais verdadeira do que qualquer tipo de jornalismo" é um lema gonzo). O Raoul Duke que vai cobrir uma corrida de carro em Medo e Delírio em Las Vegas (praticamente sem mencionar a corrida), com uma constelação de psicotrópicos e estimulantes na bagagem, existiu, foi inventado ou é um alter ego de Hunter?

PERTURBAÇÃO DA NORMALIDADE
Outro fundamento gonzo é o total e absoluto envolvimento do jornalista com a situação e as pessoas que está cobrindo. A subjetividade é obrigatória, necessária. Para deixar a aventura toda mais engraçada e arriscada, doses generosas de substâncias perturbadoras da normalidade entram na equação.

Segundo Hunter, o jornalista praticante desse estilo, que demole todo o procedimento tradicional de reportagem, precisa do "talento de um mestre do jornalismo, o olho de um artista/fotógrafo e o culhão enorme de um ator." E, em se tratando de Hunter, acrescente aí também uma acidez de corroer titânio, um senso de humor muito sofisticado e uma habilidade sobrenatural para ler o ser humano.

GONZO, O FILME
Um documentário sobre a vida de Hunter estréia este mês nos cinemas americanos. Chamado Gonzo: : The Life and Work of Dr. Hunter S. Thompson, é dirigido por Alex Gibney. O filme passou no festival Sundance no começo do ano e já vem recebendo boas críticas, incluindo aplausos da Rolling Stone americana, revista para a qual Hunter foi colaborador de 1971 até sua morte, em 2005. Entrevistas incluem o contemporâneo Tom Wolfe, o publisher da RS Jann S. Wenner o ilustrador Ralph Steadman (cujo traço neurótico era o acompanhamento ideal para a escrita de Hunter; veja um exemplo no cartaz do filme aí em cima).

O filme é narrado por Johnny Depp, fã religioso e amigo de Hunter até o fim. Foi Depp quem pagou o velório e cremação de Hunter.

Trailer de Gonzo



HUNTER EM PORTUGUÊS
Alguns livros de Hunter S. Thompson em português, todos lançados nos últimos anos pela Conrad: Hell's Angels, Medo e Delírio em Las Vegas (que inspirou um filme com Johnny Depp fazendo papel de Hunter) e A Grande Caçada aos Tubarões (traduzido por este que vos escreve. Imagine minha felicidade de fã quando recebi o email avisando que Hunter em pessoa tinha aprovado meu currículo; ele fazia isso com todos que os candidatos a tradutores de suas obras).

A partir da década de 80, Hunter foi ficando cada vez mais desgostoso e amargo com os rumos da política e da sociedade americana. Nos seus últimos anos, ainda escrevia (incluindo uma coluna de esportes para o site da ESPN), mas vivia isolado em seu bunker rural no Colorado, recebendo poucos e bons amigos. Sempre acompanhado de seu bom uísque, sua inseparável pistola e os acompanhamentos químicos de costume, Hunter se entediava com a velhice. Um dia perdeu a paciência e resolveu acelerar o processo. Puxou o gatilho e meteu uma bala na própria cabeça.

FRASES

"América... apenas uma nação de 200 milhões de vendedores de carros usados com todo dinheiro necessário para comprar armas e nenhuma restrição quanto a matar alguém no mundo que nos deixa desconfortável."

"Tenho uma teoria de que a verdade nunca é dita no horário comercial."

"Se você vai ser doidão, melhor ganhar pra isso, caso contrário será preso."

"Numa socidade fechada onde todos são culpados, o único crime é ser pego. Num mundo de ladrões, o único pecado final é a estupidez."

"A indústria musical é uma trincheira monetária cruel e rasa, um longo corredor plástico onde ladrões e cafetões correm soltos e bons homens morrem como cães. Tem um lado ruim também."

Camilo Rocha
Camilo Rocha (camilo @ rraurl.com)
Putz! Putz!
comentários
Leandro Filippi
Leandro Filippi (02.07.08)
0AprovadoQueima
que boa notícia. o documentário já foi pra fila aqui tbm.
Tilty
Tilty (02.07.08)
0AprovadoQueima
Camilo, vc esqueceu de mencionar "Rum-diário de um jornalista bêbado", tbm traduzido ao português.
Márcio Motor
Márcio Motor (02.07.08)
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Eu simplesmente A M O, de pancada, de com força, de espasmo humanóide!

F.O.D.A!
Igor Lopes
Igor Lopes (02.07.08)
0AprovadoQueima
sou fã! já tô baixando o doc! :)
adorei a última citação........

:)
proximos