Grime, a nova música das ruas e dos becos de Londres
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Grime, a nova música das ruas e dos becos de Londres
Mais uma sacada barata para vender discos ou apenas uma forma de agrupar artistas que fazem um som único?
09.03.05 04:45
Para entender o que é chamado de grime, é preciso saber um pouco sobre miscigenação cultural e social na Inglaterra. Fruto da mistura de africanos com imigrantes árabes, orientais e caribenhos em meio à periferia anglo-saxã, a cultura urbana inglesa hoje alimenta um jeito
cru, tosqueira e genuíno de fazer música que existe por si, além do nome.

Antes de ser grime, esse som assume várias formas, seja através das rimas defeituosas e assimétricas ou das faixas instrumentais sombrias, por exemplo. É uma forma de expressão que foi gerada a partir da pressão de estar à margem, de se viver em uma sociedade estressada que cultua monarcas e celebridades.

Para criar seu próprio espaço, o grime vive através das rádios piratas (um fenômeno efervescente na atual cena londrina), meio que faz o papel de espalhar as novas produções de jovens artistas que sequer tem uma gravadora. Essa forma de divulgação é que dá autonomia à modalidade.

É uma expressão musical que descende da cultura dos soundsystems, nativa da Jamaica, aprimorada pela periferia negra norte-americana e que reside, por exemplo, no bairro de Camden, em Londres. Aqui, não há mais distinção entre colonizadores e colonizados, é uma massa que cresceu no mesmo caldeirão. Grupos, gangues ou equipes, qualquer que seja o nome do coletivo, disputam o mesmo espaço através de batalhas que envolvem música alta e um jorro de palavras quase indecifráveis.

Ao abraçar elementos diversos que variam entre dubstep, hip hop, ragga, dancehall, UK garage, jungle, breakbeat e IDM, o grime é um estilo mutante que recombina seus ascendentes em uma espécie de híbrido safado, malicioso, que tem atitude e sabe sobreviver nas ruas "totalmente cobertas de sujeira" (expressão que traduz a palavra "grime"). Esta forma de rap britânico, fortemente calcado na cultura do drum'n'bass, canaliza uma energia hedonista típica do desejo de festejar. Assim, o grime é uma espécie de epicentro musical, algo que realmente está acontecendo nos dias de hoje.

Depois de passar quatro anos ganhando corpo, se auto-alimentando, este
som reflete muito bem o desespero que é viver em uma sociedade decadente, cujos ditos bons valores já foram deturpados há muito por uma hierarquia falida que não permite maior mobilidade. Assim, o fato das estações de rádio - algumas piratas, outras totalmente independentes (respectivamente, como a Fresh e a Rinse FM) - e das festas em guetos terem papel crucial na disseminação deste vírus é sintomático.

O grime é uma música feita da forma mais barata possível. Enquanto MCs que mal deixaram a adolescência batalham por horas através do telefone, um tentando superar o outro ao dar aquela tirada insuperável, os produtores usam computadores e o que mais estiver à mão (como discos velhos) parar criarem batidas quebradas, sujas, além de bases repetitivas que hipnotizam o ouvinte por sua malemolência eletrônica, por sua descarga de estática e por seus samples bagaceiros. Não há superlativos por aqui, apenas a reunião de elementos que sempre conviveram lado a lado e que finalmente conseguem achar uma forma sólida de expressão.


Infecção de artistas

O crescimento do grime, essa espécie de drum'n'bass punk, tem a ver com a homogeneização e queda dos antigos bastiões da dance music inglesa. Na ausência de um gênero dominante e de uma cultura de clube
que predomine em relação às outras, o foco de atenção do público e dos artistas passou para gêneros como o rock, o hip hop e o ragga-jungle - o que abriu espaço para novos artistas, muito mais heterogêneos.

Hoje os principais nomes associados ao grime abrangem desde MCs como Dizzee Rascall e Wiley (da Roll Deep Crew), Kano, Riko, Terror Danjah, Wayne Lonesome e D Double E até os produtores e DJs Plasticman, Kode9 (foto), Digital Mystikz, Slaughter Mob, Terror Squad e Soundmurderer (muitos nomes que até atacam com certo terrorismo musical).

Os versos misturam o mantra de rimas do ragga e o imaginário cotidiano do hip hop. As associações também são feitas entre o ritmo grave e tenso do dubstep e as batidas inconstantes do garage, sempre distorcidas, quase neuróticas, mas que demonstram senso de humor e tosqueira que quase sempre está presente; faz com que a música seja levada menos a sério, que seja julgada menos pretensiosa. Os elementos podem parecer vulgares, repetitivos, fáceis, infantis, e até provocar alguma repulsa. É um tipo de diversão que pode não seduzir no primeiro contato, mas que transpira desprendimento quando se deixa ser envolvido.

Outros produtores multifacetados que estão a consolidar boa reputação, como Kid 606, DJ /Rupture, SK-1 e Diplo, também lidam com os mesmos elementos descritos acima, mas com outras abordagens, algumas mais
melódicas, outras completamente fraturadas, mas todas dançantes. Vale a pena dar algum crédito e ouvido a esses nomes.


Pequena polêmica

Em 2004, a gravadora Rephlex (que tem Richard D. James - Aphex Twin - como sócio) lançou duas coletâneas com o título "Grime", assumindo para si a autoria e o pioneirismo em lançar o estilo - o que soou muita pretensão. Mesmo que a cultura do grime seja calcada fortemente em seus MCs, as compilações apresentavam músicas basicamente instrumentais, característica que causou estranhamento e protestos de quem achou a atitude oportunista.

Mais recentemente, para reafirmar ainda mais o nome, foi lançada a primeira coletânea do estilo por gravadora de algum porte. "Run the Road", pela 679 Records, chega até a colocar o legítimo rap inglês branco e baladeiro do The Streets em meio a outros expoentes; é um CD que agrupa algumas das canções que mais grudaram na cabeça dos ingleses como "Destruction VIP", com Jammer, Wiley, D Double E, Kano e Goodz e "Cock Back", de Terror Danjah.

Há elocubrações que mostram que o que hoje é chamado de grime já foi identificado no passado como dark dubstep, gabba-garage, 8bar, sublow, eski, eastbeat e até grimm - o que não passa, muitas vezes, de uma grande piada. Para muitos, nunca deixou de ser 2-step e UK garage.

Enquanto há segmentos específicos dos meios de comunicação que apóiam e fazem reverberar tanto artistas quanto o rótulo, há outros que não aceitam a categorização "grime" para determinados artistas em detrimento de outros. Se de um lado temos jornalistas como Simon Reynolds (autor do livro "Generation Ecstasy : Into the World of Techno and Rave Culture", referência no assunto) e uma rede de blogs (veja links abaixo), do outro temos listas de discussão e artigos em publicações independentes como a "Art Rocker". Entre os que sustentam a idéia de que há algo acontecendo e outros que questionam a unidade e a categorização deste "hip hop inglês", algo que o grime pode vir a significar em termos de importância, há artistas que muitas vezes são ignorados por um lado ou outro.

De qualquer forma, práticas de divulgação como a de distribuir mixtapes (termo que, hoje dissociado das fitas cassete, é uma espécie de CD demo que pode misturar composições próprias e de outros artistas) ajuda com que jovens MCs e produtores como Sway Dasafo e Doc Brown se façam conhecidos - fator potencializado pelo poder de distribuição gratuita da internet, na própria rede ou por programas p2p (como Soulseek, eMule).

O esquema independente de produção no grime faz com que 500 cópias vendidas de um dubplate (espécie de versão teste e tocável de um single, gravada em acetato) signifiquem um sucesso. Arranjar uma distribuidora já é algo que vai além do atual estágio de tosqueira do estilo, que mantém fortes as raízes no estilo faça-você-mesmo.

O grime é algo que está à mão, efervescendo neste instante. Aproveite.


Links recomendados

Blog do jornalista Simon Reynolds
http://blissout.blogspot.com/

Blog dedicado exclusivamente ao grime
http://chantellefiddy.blogspot.com/

Seção de Grime no site da Rephlex (com download)
http://www.rephlex.com/main_index.html

Lançamentos da Shockout, subselo da Tigerbeat6
http://www.tigerbeat6.com/index.php?id=3&view=shock

Tigerbeat6, o selo do Kid 606 (sempre com sets pra baixar)
http://www.tigerbeat6.com

Kid Kamaleon
http://www.kidkameleon.com

Kode 9
http://www.kode9.com

Plasticman
http://www.terrorhythm.co.uk

Rinse FM
http://www.rinsefm.com

BBC 1xtra (rádio de 'música urbana')
http://www.bbc.co.uk/1xtra/garage

Blaze Live (rádio pirata)
http://www.blaze-live.com


Augusto Olivani
Jornalista do UOL

Marcus Vinícius Brasil e Renata Macedo
Marcus Vinícius Brasil e Renata Macedo (marcvs2 @ rraurl.com)