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"Triste xenofobia que acabou numa macumba para turistas." - Oswald de Andrade
03.03.06 04:45
Lá pelos idos de noventa-e-fluor - data altamente subjetiva, pois a impressão que se tem é que as raves começaram na primeira open-air de cada um e, de repente, todo mundo freqüentou e adorava o Hell's - a sensação de que se participava de um lance especial era latente. A convivência harmoniosa das singularidades nunca ficou tão escancarada e a inocência-com-cara-de-mau, esquisitices passageiras, teses cosmicamente corretas e umas fofuras sem fim mostraram seu papel, compondo uma firme estética comportamental - própria, rica e interessante. Finalmente a libertação da ordem de entretenimento jovem era real (dançar até o meio dia no clube, ou de dia no sítio!), e o tal "underground", vez ou outra, aparecia à tona para dar suas respiradas, fosse com eventos corporativos, mega-raves e algum marketing, quebrando alguns preconceitos e apostando na heterogenia com os sopros de globalização da época.

Criou-se, dentre os protagonistas dessa historinha, uma típica aversão à cultura jovem até então disponível. Homofobia, sexismo e qualquer pessoa "do mal" não tinha mais lugar, e a auto-proteção do grupo se misturou à necessidade de se ouvir "aquele som" em todos os eventos que se freqüentasse – entenda por "evento" amigos-secretos, compras no shopping e batizados.

Mas se quisesse vir pro parquinho tinha de saber brincar. E ser convidado.

Quem enxerga o mundo com os olhos de vanguarda (não confunda vanguarda com preguiça de fazer direito) sabe que não dá pra multiplicar o processo criativo quantitativamente. Expressão cultural inovadora - e de qualidade - simplesmente não combina com produção industrial: é preciso o toque individual, o respeito pelo esforço e resultado alheio e a postura sutilmente contraventora, mas nunca contra-producente. Não há dúvida que o que quer que exista hoje sob a alcunha de "cena" foi forjada sob essas bases culturais e comportamentais – uma façanha da qual todo mundo que participou de um jeito ou de outro se orgulha, seja tendo carregado gerador nas costas no meio do mato, seja bancando do próprio bolso noites em clubes mofados, seja lidando com represálias sociais, políticas ou que o valha.

No entanto, como tudo que é reproduzido, certa hora se perde o vínculo com aquilo que tornava o assunto especial e, em algum momento, alguém achou que isso seria uma fórmula de fácil reprodução e assimilação. Estavam certos, mas tão errados como quem acha que jogar tinta em uma tela de 30m2 reproduz um Pollock.

Exageros à parte – e sem colocar a questão no cliché dos "bons tempos" - vale a reflexão de aceitarmos que as coisas vão mudando de mãos. Antigas "figuras da noite" ganharam as passarelas, microfones, agências de DJs, cabines de som e caixas registradoras dos clubes – e em muitos casos também alguns quilos, filhos e um relógio biológico decente. Do Lado B pro A em 10 anos – e seria leviano fazer juízo de valor disso – deixando, como em todo movimento cultural do passado, um certo legado para outros cuidarem, principalmente quando o assunto é colocar as mãos na massa, fazer volume na pista e bater cartão em festas. E a cultura da música eletrônica, às vésperas da maturidade e com um rico acervo, já permitiria que isso acontecesse sem atropelos.

Quem poderia fazer a diferença nesse mar de conceitos subjetivos, e um tanto abstratos, talvez tenha chegado já como medo de dançar descalço na rave pelo perigo de cortar o pé em caco de vidro; que é legal se pendurar nas estruturas do palco; que pegar filas enormes e ser mal tratado é normal; que é válido se preocupar com a chapinha da namorada; e que chupetas e bichos de pelúcia são....bem..."engraçados".

É quase trágico, mas enquanto as cabeças pensantes e que fariam toda a diferença gastam cada vez mais tempo criando dificuldades entre si mesmas, tal qual a família italiana no almoço de domingo que consegue discutir concordando sobre o assunto, e enquanto outros lamentam do presente e remexem no passado, um caminhão de bobagens passa ao largo, enlatando uma cultura que foi criada debaixo de tanta inspiração e os desavisados se focam em se lambuzar com a bobageira como marmelada fresca. Não se trata aqui de trazer mais uma teoria à tona (nesse caso, de conspiração) mas sim de reavaliar se tudo o que foi ricamente moldado lá atrás não está sendo dado de bandeja a interesseiros e profissionais das presepadas.

De que adiantou tanta aversão quase xenofóbica se a macumba dos turistas é servida diariamente com pompa e circunstância, falsas conquistas e top DJs imaginários? Aliás, quantos desses existem de verdade?

São tantos debates, tantas teses e teoremas que parece que se esquecem de alguns princípios fundamentais – de inspiração, criação e acima de tudo se divertir com a dança e a música. Isso, feito com dedicação legítima, e um pouco de paciência, é sustentável e não serão os fanfarrões de plantão que terão a força de mudar o ciclo virtuoso.

Mais provável, aliás, que aprendam algo de bom.

*Bruno Camargo aka Carbon23 é advogado, DJ e quase-pai. Desde os 2 anos de idade fala pelos cotovelos e nunca ligou pro Bicho-Papão, mas hoje tem medo do Frito-Passa-Mal.

Bruno Camargo - Carbon23
Bruno Camargo - Carbon23
90kg de pura estupidez. 75% é água.