Raves inglesas em evidência outra vez
A mídia inglesa diz que elas voltaram; mas quem é da cena diz que elas nunca foram embora
10.11.06 20:35
Desde o ano passado os relatos na mídia de festas ao ar livre rolando por toda a Inglaterra não param de aumentar. Algumas raves chegaram a reunir mais de 5 mil pessoas, como ocorreu em Cornwall no início deste ano. A maior parte das festas, porém, tem públicos modestos, variando entre 50 e 500 pessoas. Nada comparado aos tempos "áureos", quando raves chegavam a ter 30 mil pessoas dançando por uma semana (como o festival de Castlemorton, em 1992). Tudo indica que apareceu uma nova geração que curte esse tipo de festa, trazendo novos elementos, porém mantendo a essência dos primórdios. Por conta disso, as raves estão novamente chamando a atenção e, obviamente, arrepiando os cabelos dos conservadores de plantão.
Um pouquinho de história
Em 1994, foi publicado o Criminal Justice and Public Order Act, lei que dava à polícia plenos poderes para acabar com "qualquer reunião com mais de 100 pessoas, ao ar livre, onde música caracterizada por batidas repetitivas estivesse sendo tocada". Isso fez com que grande parte da cena eletrônica tratasse de se encaixar nos conformes na lei, migrando para clubes, enquanto outra parcela refugiou-se no underground. Mas, na verdade, o que muita gente continuou fazendo foi freqüentar os dois tipos de evento. No geral, as raves no campo acabaram sofrendo mais e só as menores ou mais discretas conseguiram ser realizadas.
As chamadas "squat parties", festas organizadas em locais urbanos invadidos - casas abandonadas, antigas salas de cinema etc. -, passaram a ser o refúgio dos ravers de disposição mais subversiva. Foi onde alguns estilos musicais como acid techno e, em menor grau, o psytrance puderam se desenvolver à vontade. O problema é que, de alguns anos para cá, estas festas urbanas passaram a ser alvo de violentas gangues juvenis cuja idéia de diversão é zoar e assaltar ravers distraídos. Até casos de estupro foram registrados. Por conta disso, squat parties passaram a contar com um novo elemento: equipes de segurança.
"Elas nunca foram embora!"
Por doze anos essa cena underground se manteve viva e longe dos olhares da mídia e das autoridades (e também das publicações mainstream). Agora não mais. A mídia inglesa caiu em cima do fenômeno, "descobrindo" a volta das raves. Para pessoas envolvidas com esse lado da cena, como Chris Hill, do sound system No Borders e que está no Brasil para fazer o Teknival de Salvador, não deixa de ser divertido ver esse súbito interesse em algo que, segundo ele, sempre esteve aí. "Dois amigos meus, envolvidos com festas underground, foram convidados para falar sobre isso num programa da BBC. Perguntaram sobre a volta das raves e a primeira coisa que eles disseram foi 'elas nunca foram embora!'"
Um ponto em que todos concordam porém é que existe uma geração nova nesse tipo de festa, algo que estava faltando alguns anos atrás. Chris, que participa dessa cena faz mais de 10 anos, conta que "na virada do milênio foi muito esquisito, ficamos esperando a nova geração chegar... e ela nunca veio! Houve uma quebra!"
Olhando para o público atual, pode-se ver que eles agora chegaram. Além daqueles que já freqüentavam as squats, boa parte dos ravers de hoje, conforme aponta Sarah Champion em artigo para o jornal The Guardian de 26 de agosto, é carne nova: "eles têm entre 14 e 25 anos, num mix eclético de garotos de classe média com dreadlocks, cursando a sexta-série, com estudantes universitários loucos por festa, alguns jovens com vinte e poucos anos que trabalham em escritórios, e adolescentes de boné e tênis".
São os "filhos" da primeira geração raver, uma moçada que herdou o gosto pela música e pelo espírito da cena eletrônica, mas que se cansou de baladas regadas a música comercial de má qualidade, violência causada pelo álcool, seguranças ignorantes e preços abusivos. Eles se encheram de tudo isso, e resolveram se mexer pra organizar as próprias festas. Fazendo coro às gerações anteriores, proclamam-se "anti-corporation" e "anti-fashion" (contra as corporações e a moda).
Tecnologia, muitos BPMs e um novo sorriso na cara
Além do público, as novidades tecnológicas também se renovaram: soundsystems portáteis, DJs tocando com MP3 players e localização das festas por GPS dão a cara das festas de hoje. Além disso, os organizadores evitam qualquer tipo de publicidade, sendo muito comum a divulgação das festas através de mensagens de texto no celular. Outra novidade: além do ecstasy e da maconha, fiéis companheiros de rave, o gás hilariante (à base de óxido nitroso, também utilizado como analgésico pelos dentistas) está presente na maioria das festas. Vendido em balões que custam entre 2 e 3 libras esterlinas (cerca de R$ 13), ou trazidos em latas de chantilly improvisadas, seus efeitos risos e leve perda da coordenação motora são menos intensos quando comparados aos do ecstasy, e ainda não há registros de efeitos colaterais.
E a música? Quanto mais alta, pesada e rápida, melhor! Pois é, indo contra a tendência dos clubes europeus e americanos de diminuírem os BPMs, principalmente ao som de minimal e electro-house (conforme apurou Camilo Rocha no "Bate-estaca" de 23/06/06), os novos ravers querem é drum'n'bass, breakcore, hard techno, acid techno e psytrance. É o som que vem rolando nas squats já há algum tempo, e qualquer música mais "fraca" do que essa soa chill-out demais.
A repressão continua
As autoridades inglesas continuam sem a menor vontade de participar da brincadeira. A polícia vem tentando de todas as maneiras descobrir a localização das raves (que obviamente estão rolando em bosques escondidos no interior britânico) para literalmente acabar com a festa. Em alguns casos eles têm conseguido se antecipar e desmontar o soundsystem, e mandar os ravers pra casa.
No entanto, já temos notícia de episódios onde as coisas saíram do civilizado e os oficiais pegaram pesado, com uso da violência. Foi o que aconteceu, por exemplo, dia 26 de agosto passado, durante uma rave em Essex. Conforme relata um artigo do jornal The Independent de 29 de agosto, "duzentos policiais de cinco distritos usaram gás lacrimogêneo, cachorros e cassetetes para dispersar os aproximadamente mil ravers. Durante a confusão, um carro da polícia foi incendiado e nove policiais se feriram (...) pelo menos dois ravers se machucaram. Trinta pessoas foram presas e soltas sob o pagamento de fiança". E esse não é um caso isolado, só naquele sábado outro confronto violento ocorreu durante uma festa em Gloucestershire. Com o Criminal Act ainda em vigor, a perseguição vai continuar rolando.
O problema é que num território super-populoso como o Reino Unido é quase impossível achar um lugar onde se possa fazer barulho sem incomodar alguém. A solução? "O País de Gales", diz Chris Hill, "lá tem muitos lugares remotos, onde nem vale a pena para a polícia deslocar um efetivo. Lá é o novo destino das raves."
Vejam um pouco da cobertura que a mídia inglesa está fazendo:
- Artigo de Sarah Champion para o The Observer, 27 de Agosto de 2006
http://arts.guardian.co.uk/features/story/0,,1859099,00.html
- Artigo do The Independent, de 29 de Agosto de 2006
http://enjoyment.independent.co.uk/music/news/article1222377.ece
- Artigo de BBC News online, de 29 de Agosto de 2006
http://news.bbc.co.uk/1/hi/england/5294644.stm
Texto integral do Criminal Justice and Public Order Act. 1994:
http://www.opsi.gov.uk/acts/acts1994/Ukpga_19940033_en_6.htm#mdiv63
Site inglês anti-globalização bem bacana. Tem trechos dedicados à cena eletrônica underground
www.urban75.org
Arrebentou geral!