DJ americano viaja o mundo tocando, vira apresentador de TV e dá consultoria para Britney e Fergie
Para alguns, é um alívio pensar que a onda electroclash do começo dessa década/século já passou, deixando como vestígio a possibilidade da eletrônica ser acessível, fácil de digerir e aberta a letras bobinhas, engraçadas e hedonistas. Para muitos, foi um dos tempos mais divertidos na música. Entre os que concordam com a segunda idéia está o americano Larry Tee, opinião suspeita justamente por se tratar do "criador" deste termo, uma subcultura que explodiu há já longos cinco anos (sim, o tempo passa!). Larry voltou mais uma vez ao Brasil para uma série de DJ sets no clube Glória e no Dama de Ferro, Rio.
"O que pouca gente percebe é que nesse meio é assim mesmo", explica Larry em meio a duas xícaras de mochaccino no lobby de um hotel na Cerqueira César, perto do clube Glória. "Faz pouco tempo que a Kompakt era o máximo do moderno. Depois veio m_nus, Playhouse. Agora tem aquele pessoal de Londres, tipo Border Community... Sempre tem algo que substitui o que está em evidência". Ele nunca quis ser um empresário no estilo DJ Hell. "O que é a Gigolo hoje? Vendeu-se, não tem nada de bom".
O DJ americano, filho de canadenses e crescido em Atlanta, é daqueles que quando fala adota o tom didático, um professor da cena que a idade e o acumulo de experiências lhe outorga o direito de monopolizar a conversa ou definir a opinião final numa roda. "Vamos de táxi, há tempos me disseram que essa avenida (Brigadeiro Luiz Antônio) é perigosa", insiste, fazendo com que eu e sua amiga dinamarquesa parássemos de convencê-lo a ir até o Glória a pé.
Ele aproveita mais uma visita ao Brasil para rodar um filminho experimental, onde essa amiga nórdica interpreta uma "snow flakes" (as garotas branquelas americanas fãs de hip hop que adotam o estilo 'mano'; equivalente dos EUA aos chavs britânicos) que acaba caindo no Brasil e se apaixona por um carioca gostosão, a ser interpretado por um algum gostosão da zona sul carioca. Essa mesma personagem fará parte de um programa de TV que Larry apresentará na Red Bull Channel, um novo canal de música a ser lançado na TV a cabo americana.
ELECTROCLASH SIM! Larry tocou ano passado no falecido ampgalaxy "lugar adorável" e no começo de 2004 numa das festas de moda animadíssima, coisa inexistente hoje em dia: o encerramento da Semana de Moda Casa dos Criadores Inverno 2004 , na área de eventos do Shopping Frei Caneca. Teve bebida de graça, Pareto e depois a cantora Andrea Marquee no vocal enquanto Larry soltava mashups de Nirvana com Outkast, coisa ainda nova na época. "São Paulo na América Latina é um centro mesmo. Buenos Aires é linda mas não tem a energia pra noite que vocês tem". Puxa-saquismos de artista a parte, SP pode ser o máximo, mas o número de "populares" na Avenida Paulista em pleno sábado a noite "impressionou" o DJ.
Não adianta negar, Ladytron. Vocês vieram do electroclash!

Ainda sobre a América Latina, aqui teria sido um lugar perfeito para o electroclash se propagar. "Em que outro lugar do mundo as pessoas poderiam receber tão bem música que fala de beleza, de sexualidade, de diversão e de festas?!?!". Sim, de fato, Ladytron, Peaches, Avenue D., Tok Tok e Miss Kittin foram febres por aqui. Mas porque alguns artistas dessa época negam esse link como vira-lata foge de banho? "É normal eles quererem mudar, sentir que evoluíram e ir para frente. Mas veio tudo daquilo, principalmente o Ladytron, é só ouvir". Foi em 2001, no Electroclash Festival, que o quarteto inglês recebeu as primeiras atenções do público e da crítica. Scissor Sisters e Fischerspooner também foram destaque nessa turma.
Pensei em perguntar se ele tinha vivido o estilo "sniffing in the VIP area", mas nem precisei pois ele já emendou o assunto electroclash com algo indissociável: drogas. "Não uso nada há 10 anos!", diz, eufórico. Mesmo? "Sim, me sinto tão feliz agora". O tom evangélico que Larry usa é compreensível: na sua última jogação ele foi para o hospital passando mal de um coquetel de special K com crystal meth. "Mas eu quero mais é que as pessoas se droguem e se divirtam, o clima fica ótimo numa festa. Por favor, se drogue!". Suas experiências psicotrópicas aconteceram principalmente na época em que trabalhava com o prometer Michael Alig, o "party monster".
Larry obviamente já chegou naquele estágio de "clubber velho". Não é qualquer festa que dá pra ir, que desperta o ânimo. Mega clubes como os nova-iorquinos Avalon e Crowbar, jamais. "Adoro o Element, onde faço minha festa Bank". Mas pera lá, só porque é o lugar da sua festa? "Não! A última vez que estive em Ibiza fui naquela coisa monstruosa do DC10 e fui tão feliz. Teve Loco Dice e Steve Bug, que eu adoro", desconversa.
MINIMALASH?Loco Dice é uma nova inspiração para Larry. Se há apenas seis meses ele detestava o minimal e a idéia de som click, agora ele se diz surpreso com a maneira que o gênero pode ser energético. "Tudo mudou depois que fui para Berlim. Ouvir Claro Intelecto e Villalobos no Panorama Bar até duas da tarde com pista cheia de gente bonita e animada, faz você entender o significado real disso tudo". Obviamente o minimal aparece discreto nos sets de Larry, "uma hora ou outra, para acalmar sem perder o ritmo".

Mas o forte ainda é electro e uma ocupação atual dele como produtor é dar um tipo de "consultoria" para astros pop e personas da noite nova-iorquina: Fergie, Britney Spears, Princess Superstar (foto) e Amanda Lepore. "Eu coloco umas batidas, mostro umas influências e elas apontam o que gostam, o que gostariam de ter na música delas". Ele se mostrou orgulhoso por ter ajudado Fergie numa música chamada "Damn, I Look Good!". "Isso vem muito da idéia do electroclash, uma garota se arrumar para sair e sentir que está simplesmente pronta pra tudo", explica, dando aquela estalada de dedo característica das bis de Nova York.
Larry então subiu para se arrumar e meia hora depois desceu com um lenço no pescoço inspirado em atores pornôs gay. "I look gook, huh?" foi a pergunta óbvia. A propósito, Larry adorou o Glória "gostei do layout, ajuda muito o Feng Shui por ser arejado" -, lugar onde ele toca de novo no clube, na sexta e no domingo.