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Dois anos de Cromañón - Buenos Aires
05.01.07 16:30
Dois anos de Cromañón - Buenos Aires
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Los Pibes Solo Querian a el Rock...
Dois anos do incêndio na casa de shows que ferrou com Buenos Aires
04.01.07 20:25
Real em alta, peso em baixa (0,76 pra 1) faz Buenos Aires ser um roteiro perfeito para o fim de ano. Nos caso deste repórter que vos fala, o destino teria sido cruelmente irônico se alguns amigos meus que vieram para cá tivessem se hospedado no bairro Once, centro da cidade, no reveillón de dois anos atrás. Nessa época morreram 194 e ficaram feridos 714 pessoas em um incêndio na República de Cromañón, entao uma das cinco maiores casas de shows da cidade. Dois anos depois da segunda maior tragédia não-natural da Argentina, Cromañón está mais viva do que nunca na quantidade de protestos, marchas e pedidos de justiça pelas ruas portenhas.

Na noite de 30 para 31 de dezembro de 2004 tocava para um público de quase 3 mil pessoas a banda Callejeros (algo como "maloqueiros", "garotos de rua", sem o sentido pejorativo) quando um fogo se principiou numa tela preta que cobria o teto, a "media sombra", causando uma chuva de plástico queimado e emitindo uma densa fumaça negra carregada de ácido cianídrico, dióxido e monóxido de carbono. A maioria morreu asfixiada e por queimadura nas vias aéreas, mas houveram incinerados e pisoteados, muitos deles que voltavam para o interior da casa tentando resgatar outras pessoas. A lotação permitida era de 1300 pessoas e quatro das seis portas principais estavam fechadas - algumas com cadeado -, para impedir que o público saísse sem pagar. Olha a velha historia da comanda por todo o canto do planeta.

A causa do fogo na tela foi uma "bengala", fogo de artíficio utilizado como sinalizador e muito usada também nos jogos de futebol. Morteiros, bengalas e rojões fazem parte da cultura roqueira dos argentinos, e os responsáveis por acender a pirotecnia na pista do Cromañón até hoje náo foram descobertos. O prédio do local, uma construção velha porém rebuscada com influências clássicas era gigante, e sua lateral continha linhas de janelas, todas cerradas por causa do layout da casa. Os dados tornam tudo mais trágico: não havia sistema de ventilação exterior para shows de rock; no espaço da saída de ar do teto haviam dois campinhos de futebol (!); dez dos quinze extintores estavam despressurizados e o certificado dos bombeiros para a casa estava vencido há dois anos. Entre os 194 mortos, algumas crianças, inclusive bebes, filhos dos funcionários, que na época de festas iam ao trabalho dos seus pais.

PUNIÇÕES
Osmar Chabán, dono do lugar, foi culpado imediatamente. Famoso promoter e proprietário de casas desde os anos 80, ele era uma das personas mais influentes do rock local, no meio há mais de 20 anos. Entre milhões de pesos em multas e condenações múltiplas, habeas corpus logrados por caros advogados e a descoberta de empresas fantasmas por trás de seus empreendimentos. Chabán pulou de prisão para prisão, de casa de amigos para familiares, sempre fugindo da incansável marcha das famílias de vítimas, protestando onde quer que Chabán estivesse.

Outro responsabilizado foi o prefeito da época, Anìbal Ibarra, que por suas ligações com Chában e por ter recebido quase 40 alertas oficiais que muitas casas (inclusive Cromañón) estavam em péssimas condições, acabou sendo destituído do cargo em votação na legislatura municipal de Buenos Aires. Nas passeatas dos dois anos da tragédia, eles são os os algozes máximos e sobra até para o presidente Nestor Kirchner, por vezes acusado de fazer corpo mole no caso.

A banda acusou Chabán e o governo municipal, mas também foi responsabilizada por "promover o uso da pirotecnia e o desprezo pela integridade fìsica dos fas". Por mais que se defendam, testemunhas afirmam que a banda teria facilitado a entrada de bengalas. Condenados, o agente deles chegou a ser preso e a banda teve seus bens embargados, continuando sob investigação até hoje. Ainda se busca os responsáveis por acender a bengala. Dizem que são três, que eram crianças, que foi um assistente do palco, alguém no público... não se sabe e é provável que nunca se vá saber.

A tragédia resultou no fechamento imediato de todas as casas e clubes da província de Buenos Aires, que só puderam reabrir depois de muitas semanas com a situação documental e estrutural verificada e/ou regularizada. Hoje em dia qualquer clube em Buenos Aires tem sinalizações obrigatórias, layout valorizando a evacuação, mapas explicativos e mais extintores de incendio.

ROCK BAIRRAL
A pirotecnia faz parte do rock argentino. Uma matéria aqui na TV "retrospectando" os dois anos de Cromañón mostrou jovens declarando que iam lutar contra o patrulhamento dos fogos após a tragédia, por ser "parte de uma cultura". O comportamento dos roqueiros aqui é parecido com de torcidas organizadas de futebol: os fãs torcem por suas bandas, por seu sucesso, levam bandeiras, fogos, gritam, bradam, é o "rock bairral", que move paixões e cria identificações imediata os jovens do subúrbio. A Callejeros saiu da periferia de Villa Celina cantando a pobreza, as proibicoes e as dificuldades, a juventude perdida e acabaram sendo os bodes expiatórios de uma comportamento local, provavelmente longe de acabar.

Lembrar dos perigos dos fogos de artifìcio com Cromañón é freqüente
Lembrar dos perigos dos fogos de artifìcio com Cromañón é freqüente
Foi só em julho do recém-falecido 2006 que eles voltaram aos palcos, convidados de um concerto da banda Jóvenes Pordioseros. Alguns acreditam que a banda não pode ser impedida de tocar, pois não foi seu rock que causou a tragédia; outros, principalmente familiares das vítimas, dizem que é insensibilidade e uma maneira de lucrar com a tragédia alheia, pois obviamente muita gente vai querer ouvir o que a banda de Cromañón toca agora. Desde 2004 qualquer tentativa de retorno a um palco era patrulhado pela associação de família das vítimas e pela óbvia má vontade dos managers, que náo querem em seu concerto a banda do incêndio.

Mas eles lançaram faz pouco tempo o álbum Señales e parecem mais dispostos do que nunca a retomar as atividades. É comum os integrantes serem chamados de assassinos ou até mesmo agredidos, e isso faz o tango triste de Cromañón ser mais irônico ainda: o vocalista da banda perdeu sua noiva e o guitarrista perdeu quatro parentes na tragédia.

SANTUÁRIO
Dois anos depois, as cinzas de Cromañón sao perfeitas para entender um pouco a sociedade argentina. Ao lado de onde era o clube foi construído um santuário, com cadeiras, altares, postêres e homenagens, onde se pode rezar, deixar pertences, cartas, objetos pessoais e pequenas homenagens. O espaço funciona como um mausoléu permanente para a lamentação sobre o ocorrido - há gente chorando o tempo todo e ver as homenagens é de uma intensidade psicológica mórbidamente envolvedora. Há missas aos domingos no local, que funciona das oito da manhã até as dez da noite e, por mais que isso pareça esquisito ou insensível, já virou ponto turístico "lado B" da cidade.

No prédio em si, pinturas, artes e pixações assustam pelo teor indignado e pela beleza sinistra. Varais com os tênis All-Star e Topper dos falecidos, símbolos oficiais da tragédia, estão do outro lado parecendo uma linda e sinistra instalação de Bienal de Artes.

No dia em que Cromañón completou dois anos uma mega passeata foi organizada na Plaza de Mayo e reuniu associações, a esquerda, familiares, politicos e curiosos com o que se passava, pois um bloco de murga (carnaval e música de festa dos argentinos), dançava em homenagem as vítimas. A maneira como os argentinos calentam a dor e promovem a união em torno deste tema é intensa e encontra paralelo na tradicional militância das mães da Plaza de Mayo. "Prohibido Olvidar" (proibido esquecer) é um dos lemas de todas passeatas sobre Cromañón. E é certo que nao se esqueçam pois a Argentina, ao contrário do Brasil, se relacionar com a tragédia e a tristeza muito mais intensamente do que nós, além de preservar muito mais o seu passado (para não dizer o velho chavão "Brasileiro não tem memória").

E se já não bastasse a corrupção e a indignação por trás do assunto, ainda tem a ironia. A cem metros do lugar onde ficava Cromañón tem uma vistosa propaganda dos Fuegos Artificiales Júpiter, "campeão em Hannover e Montreal". Sao elementos, fatos, dados, historias, sentimentos, coisinhas demais que faz Cromañón ser um tango tragiquissimo. Ufa...

Jade Augusto Gola
Buenos Aires

Marcus Vinícius Brasil e Renata Macedo
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