Dubstep: o som do lado escuro da lua
Skream, essencial para o dubstep
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Dubstep: o som do lado escuro da lua
Ano passado, gênero se consolidou com quatro álbuns importantes
21.03.07 21:45
2006 foi o ano da cristalização do dubstep. Em meio às pencas de singles de 12" lançados, quatro álbuns de quatro dos principais pilares do gênero foram lançados – Memories of the Future, do Kode9; Burial, auto-manifesto de estréia do anônimo produtor londrino Burial; Copyright Laws, do gênio pós-dub MRK1 (Markone); e Skream!, do prodígio de 20 anos Skream (Oliver Jones) –, dando contornos mais visíveis para algo que até então era uma forte mas obscura subcultura dance britânica.

Além disso, DJs de outras linhas como Modeselektor, Ricardo Villalobos e Richie Hawtin já andaram enfiando faixas de dubstep nos seus sets. E, nesse sexta-feira (23/3), Kode9 se apresentará no Brasil pela segunda vez, na festa Hipersônica do festival FILE.

FILHO DO 2-STEP
O dubstep surgiu no começo dos anos 00. É um som instrumental que mistura as ambiências e o ritmo digital do dub anglo-jamaicano dos anos 80 com o som urbano quebradiço do 2-step. Traz levadas irregulares, lentas e é permeado por gordas vibrações, emanando um clima que pode ser tão claustrofóbico quanto stoned. Aqui, como nos seus gêneros ancestrais, o "bass" é de chacoalhar a estrutura óssea. Dubstep, como seus ancestrais dub e drum'n'bass é música de "sound system" de máximo impacto físico e mental.

Em 2001, a agência Ammunition uniu uma coisa à outra e fez brilhar a lâmpada underground, rotulando o som como dubstep. Coube à revista XLR8R, bíblia das tendências urbanas do underground planetário, estampar o rótulo em sua capa e começar a dar os entornos de uma cena real.

A Ammunition é ainda hoje um forte centro de promoção de baladas e selos de dubstep.
Entre estes se destacam o Hyperdub (que lançou os álbuns de Kode 9 e Burial em 2006), Planet Mu (ativo desde os anos 90, de propriedade de Mike Paradinas, também conhecido como Muziq; foi o PM que bancou a estréia de MRK1) e Tempa (que lançou a estréia de Skream) como aglutinadores dos maiores nomes da cena. Tanto que o Tempa foi o responsável por reunir os nomes emergentes na primeira coletânea de dubstep, a Dubstep All-Stars Vol.1, mixada pelo DJ Hatcha, trazendo nomes importantes como Loefah, Horsepower Productions e El-B, mixados pelo DJ e/ou em produções conjuntas, mostrando uma forma mais acelerada e crua do dubstep.

ANTI-POP
Essencialmente anti-pop, o dubstep descortina o lado mais tétrico do dub eletrônico (canções com títulos como "alma torturada" dão o tom), mas pode convergir com maior intensidade e com resultados até mais acessíveis com o dub jamaicano mais tradicional, com balanço, ritmo e vocais. É o caso de Skream, que, em sua estréia, Skream!, revolve o 2-step em meio a balanços mais cadenciados ("Blue Eyez") e até chama a MC jamaicana Warrior Queen para fazer um toast em "Check It"; e é o caso de MRK1 que, em sua estréia, , convoca o pregador jamaicano Sizzla para louvar a erva em "I Got Too".

Mas o que predomina no estilo são a depressão e os tons nublados, com elementos que podem ir de cítaras indianas ou sirenes policiais. No Brasil, tanta escuridão não impediu o produtor paulistano Bruno Belluomini de inaugurar a primeira excursão silvícola rumo à lua, com o elogiado EP Gent São Paulo lançado pelo selo belga Unity Trax, dubplates próprios ("Simba", "Undead", "Enemies", "Bangkok", masterizados e cortados no estúdio londrino Carvery Cuts) esporadicamente veiculados em seu podcast Tranquera.org e os grimes "Voh Keimar!" e "Taka Fogo", com o MC paulistano Jimmy Luv nos vocais. Para Bruno, "2006 foi o limite, o hype foi grande demais. [Em 2007], o Tempa deve continuar com lançamentos e o Planet Mu pode apresentar novos títulos bem interessantes."

Saído da mesma cena, o grime é a única ponte viável com o pop que se pode imaginar para essa música dos guetos britânicos. Ele está para o dubstep como o dancehall estava para o dub décadas atrás: é a voz periférica sobre batidas futuristas.

Numa época em que as periferias mundiais estão se globalizando, 2007 promete ser um ano frutífero para o dubstep. E nem estamos falando apenas do aguardado lançamento do Digital Mystikz – estamos falando até de Deize Tigrona que em 2006 rimou no lado B do 7 polegadas "Dem a bomb we", do produtor Ladybug.

Rafael Guedes
Rafael Guedes
No pop no style - strictly roots
comentários
Zeca
Zeca(30.08.08)
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Muito bom o texto, parabens!
Beleza a abordagem!
Reforço a importância do Bruno Belluomini dentro dessa cena... O cara me apresentou o som através de: seu 1ºEP virtual pela Digital Enemy, pelas outras produções próprias que começaram a pipocar pela rede e especialmente pelo Tranquera: rádio ao vivo, podcast, blog!

Espero que a cena prossiga assim do jeito que está, sem baixaria ou popularismo desenfreado que acabaram por tirar o "encanto" inicial de várias outras. Mas, ao mesmo tempo, espero mesmo que se torne uma cena "de verdade" no Brasil, com eventos constantes; espaço pra produtores; e projetos especiais... Afinal dub, ritmos quebrados e climáticos, ao meu (e de muitos outros) ver tem muito a ver com nosso legado rítmico, "quente" e mestiço!

Sobre a cena lá fora, me surpreende como apresenta extrema variedade e busca de identidade (que sinto na maioria dos produtores).
Que assim siga seu rumo e se fortaleça! Parabéns pela matéria!
Gaía
Gaía(22.03.07)
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"Mas o que predomina no estilo são a depressão e os tons nublados, com elementos que podem ir de cítaras indianas ou sirenes policiais. No Brasil, tanta escuridão não impediu o produtor paulistano Bruno Belluomini de inaugurar a primeira excursão silvícola rumo à lua, com o elogiado EP Gent São Paulo lançado pelo selo belga Unity Trax, dubplates próprios ("Simba", "Undead", "Enemies", "Bangkok", masterizados e cortados no estúdio londrino Carvery Cuts) esporadicamente veiculados em seu podcast Tranquera.org e os grimes "Voh Keimar!" e "Taka Fogo", com o MC paulistano Jimmy Luv nos vocais. Para Bruno, "2006 foi o limite, o hype foi grande demais. [Em 2007], o Tempa deve continuar com lançamentos e o Planet Mu pode apresentar novos títulos bem interessantes.""
Camilo
Camilo(22.03.07)
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Vcs precisam ler a matéria até o final!!! No anti-penúltimo parágrafo está ali o nome de Bruno Beluomini com todas as letras.
Cidao
Cidao(22.03.07)
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É meu, esqueceram de falar do Brunão mesmo, o cara que dá mó sangue para "cena", faz das tripas coração para divulgar e mandar o som para ao molecada... É como se quisessem falar de produção de DnB nacional sem mencionar o XRS...

Espero que o "movimento" cresça mesmo e não ser torne Hype e "Eletrocthrash" para o "descolados da Vila Madalena" de plantão...


 
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