Mitológico, Lee Perry encanta fãs no Via Funchal
Lee Perry enfeitiçou a todos
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Mitológico, Lee Perry encanta fãs no Via Funchal
Do alto de seus 71 anos, o homem que já revolucionou a música agora só quer curtir com seus fãs
19.04.07 21:55
Confesso que a primeira sensação ao entrar no Via Funchal foi um misto de desgosto e indignação. O lugar só está com um terço da capacidade. Em pouco tempo estará no palco um dos caras mais fundamentais não só do dub e do reggae mas um professor que inventou técnicas e sonoridades que depois todo mundo adotou, do punk ao hip hop, do rock à música eletrônica (especialmente a música eletrônica).

Lee Perry é um DEUS, não aceite outra versão. E nós, brasileiros, somos um povo herege porque não lotamos essa casa até o ladrão para prestigiá-lo.

Acontece que a coisa não é tão simples assim: primeiro os ingressos custam entre R$ 80 e R$ 140 (OK, era supostamente um festival, o Abril Pro Rock, mas alguém foi lá para ver Los Alamos?). Depois, o evento, que rolou numa terça à noite, foi pessimamente divulgado. Um amigo meu, fã de dub, me conta que ficou sabendo por acaso, ao achar um flyer no chão, amassado.

Mas, enfim, os poucos e bons que se reuniram para o show não estavam nem aí. Como ficou evidente depois, ninguém estava ali por acaso e o ambiente estava carregado de expectativa e reverência (sem falar na famosa fumaça verde). A banda sobe no palco e tudo mais é esquecido: ninguém mais ali está na Vila Olímpia, já embarcamos para Kingston, Jah-maica!

Na segunda música é a vez do homem surgir detrás da cortina. Baixinho, com um chapéu pontudo de mago que parece ter sido comprado na 25 de Março, um microfone todo decorado, com voltas de fio grudadas (direto da Discoteca do Chacrinha), e mais outros adereços exóticos, esta figura pousa entre nós como um emissário de outra dimensão, de um universo insano mas certamente mais de bem com a vida que o nosso.

Arrepio geral! Não existe um na platéia que não tenha sua atenção imediatamente sugada por Lee Perry, que logo troca o chapéu de mago por um boné cravejado de trecos. Ele canta clássicos como "War Ina Babylon" (gravada originalmente por Max Romeo) e "One Drop" (de Bob Marley), grita palavras de MC para atiçar o público, envereda por uma cover inusitada ("Demons", de Fatboy Slim e Macy Gray), diz muito que "Ah lôv yo, ah lôv evrywôn" e repete a palavra "peace" toda hora.

Enquanto isso, a platéia se joga feliz em todos os passos que costumam acompanhar uma levada reggae (do lento balanço chapado aos pulinhos que saltitam de acordo com a linha do baixo), bem amparada pelo instrumental musculoso e preciso de sua banda, White Belly Rats

Este show, no fim das contas, não é de "dub" e sim uma redondíssima apresentação de reggae (afinal de contas, o homem produziu, além de zilhões de dubs instrumentais, outros zilhões de canções para gente como Bob Marley e Junior Murvin). Não é revolucionário, nem pretende ser. Mr. Perry já comandou uma revolução sônica 30 anos atrás.

Do alto de seus 71 anos, ele quer agora apenas cantar boas músicas e passar noites divertidas com seus milhares de fãs espalhados pelo globo. Enquanto isso, as seqüelas e consequências de suas inovações seguem ecoando pelo mapa musical moderno.

Camilo Rocha
Camilo Rocha
Putz! Putz!