O sábado teve mais cara de Skol Beats tradicional: mais público, mais pista e um ou outro set memorável.
No palco, a partir do set do Simian Mobile Disco, o Skol Beats ganhou cara de Skol Beats "do começo", com aquele palco enorme (reparou nas montagens fotográficas imitando Tóquio? ), um belíssimo dia de sol (que ficou insuportável por perto das nove da manhã) e longe do cimentão quente do horroroso Sambódromo (desta vez o festival foi no extenso terreno atrás do Campo de Marte), com fácil acesso aos bares e lanchonetes para quem queria descansar curtindo música.
Sobre alguns aspectos a manhã de sábado foi o que salvou o festival de um fiasco completo. Se a sexta-feira foi marcada por pistas geladas e apresentações musicais de nenhum destaque - mesmo ótimos nomes como 20:20 Soundsystem e Nathan Fake acabaram prejudicados pela falta de público, honrosa exceção feita aos sets de QBert e Bambaataa - o sábado teve brilho com o set de Laurent Garnier com Marky, o encerramento do Murphy, a energia de Renato Cohen, a sonoridade progressiva de Guy Gerber e o frescor do Simian Mobile Disco.
Longe de ser uma unanimidade, o sábado também foi marcado por reclamações. Por exemplo, os excessos bêbados de alguns frequentadores, com meninas sendo alvo de puxões de cabelo e passadas de mão, prova que a "seleção" supostamente imposta pelos altos preços da bilheteria não necessariamente reflete em educação e bom senso do público. Fatos isolados, mas não esquecidos, também teve banheiro sujo e problemas nos estacionamentos pela manhã. Claro, teve gente que achou a decô feia, ou que teve pouca mulher bonita, que não gostou de ter que beber chopp Skol (e só chopp Skol) durante toda a noite ou que o soundsystem não pegou bem em todas as áreas. Por aqui, porém, a gente achou que o evento ganhou muito com a mudança de local, com a redução da quantidade de público e com a aposta em nomes menos bombados do cenário internacional.
The End por Danilo Poveza
A tenda The End, mesmo nome do clube inglês, teve a mesma pontualidade que a nação do Big Ben. Às seis da tarde Junior C abriu os trabalhos com a energia de quem estréia num Skol Beats. Dançou muito com o público de cerca de 40 pessoas que comemorou o set sem erros. Era a mãe de Junior quem ajudou a levantar a faixa "We Love Junior C" no meio da platéia. Rodrigo Ferrari e Marcelinho CIC completaram a trinca de DJs nacionais que cuidou da tenda até às nove da noite.
Rodrigo mais progressivo, com a camiseta da Pacha, e Marcelinho ajudado pelo laptop que garantiu um set vibrante multiplicado pela potente luz da tenda. A dupla do M.A.N.D.Y começou pontualmente e até a metade do tempo não jogou hits na pista. Os dois conversavam bastante e cada um cuidava do som por quinze minutos, em revezamento. Mais para o final vieram produções de Booka Shade e Carl Craig, na medida certa para não esquentar demais e deixar que Renato Cohen fizesse este trabalho. "Gimme some bass" era o que disse ao microfone, Philipp, do M.A.N.D.Y, ao passar o som para Renato, que foi de "Abelhas" a Pontapé" com a energia lá em cima. Não era pesado, foi simplesmente muito dançante.
Ao final do set a tenda estava repleta de gente, mas com espaço para andar. Laurent Garnier entrou aguardado e mudou bastante o clima. Parece que faltou alguma conexão com a grande parte da tenda. Começou de maneira bem hermética e arrancou a primeira reação só quando tocou "You Make me Feel(Mighty Real)", de Sylvester, para pouco depois emendar sua "The Man With the Red Face". Preso à própria fórmula "uma música de cada gênero" ainda mandou "Age of Love", no remix de Jam & Spoon, "Song 2", do Blur, e "Blue Monday", do New Order. E adiantou o drum'n'bass que tocaria mais tarde na tenda Marky & Friends, claro. Houve quem gostasse, que afinal o ecletismo característico e a excelente técnica estavam ali em cada virada, mas algum vanguardismo também poderia vir de tão esmerado artista e isso não rolou.
Anderson Noise e Miss Kittin conduziram a The End para um final mais barulhento. Cada um a seu modo (ela cantou e reclamou de falha no som) tocou na tenda o que esperava uma multidão de gente. Ela foi encerrando com "1982" com o sol já batendo na lona branca e tornando o calor mais forte até quase nove horas da matina.
Todos os VJs fizeram excelente trabalho, mas os telões pareciam desproporcionalmente pequenos para o tamanho da tenda, a incrível potência do som e o tamanho do logotipo do patrocinador pregado no fundo do palco.
Marky & Friends por Mari Rossi
A tenda Marky & Friends segue como uma das favoritas do púlico no festival. Claro que não tão cheia quanto nas outras edições, mas devemos levar em conta que o público geral foi menor do que nos últimos anos.
Teve gente que chegou cedo para ver Patife, que tocou as oito da noite com aquele sorrisão de sempre, bem avonts, falando no microfone com o público o tempo todo.
Quem reinou absoluto foi o dono da tenda, Marky, que abriu seu set com a música "Open Your Eyes" em versão DB, produzida por ele e Bungle. A estrela maior da tenda procurou diversificar bastante durante suas duas horas de apresentação.
Outro que levou elogios mil do público foi D-Bridge pelo set maduro, sem abuso de hits. Os veteranos Fabio & Grooverider pegaram um público já cansado, que guardava suas energias para o final apoteótico.
Então, pontualmente, às sete horas da manhã, Marky e Laurent Garnier entraram em ação. Quem ainda não tinha visto Laurent tocar drum'n'bass se surpreendeu pela desenvoltura e conhecimento do próprio. Sem contar mixagens, que iam ficando cada vez melhor. No final as pessoas não paravam de pedir mais uma, e assim foi indo até a organização mandar desligar o som, direcionando parte do público para o Live Stage.
Live Stage por Jade Gola
O primeiro live da noite foi Propulse, que cumpriu bem a fama de nome promissor na cena nacional. Fabiano Zorzan é um belo espécime da curiosa simbiose entre os díspares progressivo e electro-house: as melodias encaixadas sem atrito e de maneira "uplifiting" com o synth sujo. Com o grave animalesco (os seguranças tapavam o ouvindo no alambrado), os momentos com resquícios trance deu ao Skol ares de rave animada, se não fosse pelo público ainda chegando. O rapaz definitivamente está em ótima fase.
Depois do warm-up de breakbeat de Carl Loben, entraram no palco os desconhecidos Cuban Brothers. Quem deixou o proselitismo eletrônico de lado se divertiu com os ingleses-cubanos que misturavam soul, hip hop, "Baltimore music" e hits dos 70 com intervenções bem ensaiadas de breakdance. O vocalista fazia tudo ser sexista, coçando o saco o tempo todo, elogiando o calor de SP, falando das garotas, ensinando em spanglish o povo a mexer a cintura e até um momento bunda de fora com tapa-sexo. Versão pop e performática de Nego Moçambique, fizeram até releitura de "Sunglasses at Night" "I wear my crazy trousers at night, so I can hide my erection" -, e encerraram com Lionel Ritchie, "All Night Long". O melhor de tudo, musicalmente, foi bem executado, sem oportunismo. Uma grata surpresa.
O Bonde do Rolê entrou encapuzado no Live Stage depois. Não se intimidou com a grandiosidade do palco e em muitos momentos os vocalistas Pedro e Marina cruzaram o enorme fosso e cantaram junto à grade que os separava do público. Berraram "Vitiligo", "James Bond", entre outros hits. O público, ainda frio, parecia mais espantado com a performance do trio do que realmente entrando no clima. Cantaram músicas novas no final, menos agressivas e mais melodiosas, falando até de amor, nos moldes de Sampa Crew e funk carioca comercial, tipo Leozinho. Engraçado, se você não levar a sério. "Eu me diverti muito. Zoei com todo mundo no palco, com repórter, com o público. O problema é que tocamos cedo demais. Àquela hora nem tinha como esperar muita animação", contou Pedro, um dos MCs da dupla.
Outra boa supresa foi o Mixhell, que enfim mostrou valor. New rave se você quiser pois todas as influências foram tocadas: MSTRKRFT, LCD Soundsystem, Klaxons... Mas o apuro de mixagem do casal Iggor Cavalera e Laima Leyton melhorou ao menos para o sábado - e as poucas atropeladas foram até que bem rápidas. O som pode ser bastante nóia em alguns momentos, exageradamente focado no bumbo rápido, fanfarrão demais, acima de qualquer outra base ou loop. Ainda bem que acabou com Iggor fazendo o que sabe de melhor, na bateria. Mas demorou até Laima baixar um pouco o som do loop para que a potência da baqueta de Iggor aparecesse. Quase aliviou um pouco a frustração de não ter tido um MSTRKRFT.
Depois do DJ set da dupla Shapeshifters, momento mais pop de tudo que rolou de progressivo e house até então, veio o inesperado DJ set da dupla Crystal Method esperava-se um live! -, e o palco começou a encher. A dupla, formada por Scott Kirkland e Ken Jordan, entrou cerca de meia-hora atrasada e alternou os toca-discos até depois das 4h30. Enquanto Ken tocava muito big beat e coisas novas, como um ótimo remix para "Gravity's Rainbow", do Klaxons e músicas do próprio Crystal, Scott ficava na beira do palco levantando os braços, jogando água na platéia e fazendo outras fanfarronices. Quando chegou sua vez, Kirkland mandou hits que agradaram mais o pessoal dos anos 90. "Smack My Bitch Up", "Busy Child", "Born Too Slow" e "Killing in the Name", tocadas de cabo a rabo, foram os momentos mais explosivos do set.
E quem esperava um live mais techno de Guy Gerber, assim como suas produções o são, viu que a história é outra: progressivo e minimal (difícil entender qual era qual, então novamente outra simbiose calcada no prog), com inserções e explosões de efeitos (passarinhos e até vidro quebrando). O aprumo tecnológico de Guy correspondia à sua técnica impecável. A sonoridade ultra-introspectiva quase passou por um som ambient para o Simian Mobile Disco entrar. Quem gosta das coisas do selo Border Community, adorou.
Quando isso aconteceu, lavou-se a alma. Mesmo que nada nesse Skol tenha sido uma unanimidade (nem o SMD, no final, os graves e o excesso de TBs incomodaram um pouco), foi a melhor apresentação do festival. As mixagens mais imprevisíveis saíram dos dois James ingleses: electro com riffs roqueiros, basicamente, seus hits ("It's the Beat", "Hustler"), techno, "Windowlicker" do Aphex Twin num momento épico com o sol nascendo, dance punk, Klaxons, kuduro (o booty bass angolano). Foram criações de momento, daquelas que fazem DJs serem músicos por fundirem batidas diferentes numa mesma estética, que criam identidade. Todo mundo dançou e eles saíram ovacionados.
A técnica dos caras vem de anos como músicos de rock e produtores musicais, um sinal dos tempos em que já não é mais apenas DJs com anos de carreira que podem ser considerados excelentes nos toca-discos. Prova de como pode sair coisa boa quando rock e eletrônica se fundem. E como eles anunciaram no começo, uma apresentação 100% live PA está por vir. Promoters e festivais se animem, por favor.
Mau Mau fez muito bem o que já está acostumado: ninar as manhãs de domingo com bom tech-house, bem Detroit, sempre bem recebido. Foi o caso nesse domingo, com direito a "High" do 20:20 Soundsystem. Mas o cetro do techno do festival fica para Murphy, que entrou aplaudido e com uma oração ao techno, versão da mesma acapella clássica da house music tradicional (inspiração que não é ao acaso). E como Murphy graças a Deus sabe que techno não é uma coisa só (peso, técnica, loop ou BPM) ele viajou bem por todas essas sutilezas do gênero, mixando de "Samba Magic" do Basement Jaxx a "Chase", do Moroder, de Killers com hard até Yazoo com "Don't Go". Mais para o final, dois hards extremos entraram de surpresa e com coerência no set, permitindo até o incansável hit "Blue Monday". Mixando de costas, com scratchs, cuts e backspins, Murphy deixou o palco do Skol ovacionado e com o sol quase a pino e céu azul de forte, esquentando a despedida do Skol Beats mais esquisito da história.