SKOL BEATS - Resumão da sexta
Primeiro dia do festival tem boas atrações mas foi fraco de público.
08.05.07 00:30
Um grupo de quatro caras está em apuros na porta do estacionamento do Skol Beats. Tem ingressos sobrando porque alguns amigos não apareceram. Eles discutem, exaltados, o que fazer. Passa um cambista e eles gritam para o cara: "Quer comprar ingresso aí brother?"
O cambista ri: "Comprar? Ninguém quer comprar não. Nós tamos vendendo!"
"Ta vendendo por quanto?"
"Dez real".
Lá dentro, temos muito espaço, muito, a perder de vista. No Live Stage um quilômetro de balcão de bar aguarda aqueles que querem molhar a garganta, prontamente atendidos por mais de dez pessoas. O único local onde realmente tem alguma ação no festival é a tenda DJ Mag, entupida de público Ah, o público. A tal "selecionada" que o ingresso mais caro deveria dar foi para pior. Muitos sentiram falta do colorido das edições anteriores, cujo público era composto de diferentes tribos e classes. A maioria da audiência agora parece um cruzamento dos descamisados da The Week com a galera da efedrina que frequenta o eixo Sirena-Pacha.
Uma pena já que a estrutura está exemplarmente montada, com tudo muito certinho e organizado. A impressão final é de que a sexta-feira do Skol Beats foi desnecessária. Não tinha atrações fortes (pouco verba liberada pela AmBev?), teve pouco público, resultando num começo de evento onde a imagem do festival foi prejudicada. Se tivesse rolado só o sábado, acrescido de algumas coisas boas que tocaram na sexta, ficaria tudo mais, errr, redondo.
MANOBRAS NA URBAN BEATS por Mari Rossi
Na tenda Urban Beats os destaques da noite foram Q-Bert e Afrika Bambaata.
Q-Bert deu uma aula na escolha de seu repertório, bem roots com funk e hip hop underground, nada convencional. E claro, na discotecagem impecável. Demosntrou uma infinidade de scratches e manobras nos toca-discos. Outro que se conseguiu se destacar foi Afrika Bambaata, que apesar de uma série de problemas no som, fez uma seleção de hits dançantes de estilos que foram do unk ao drum'n'bass ao reggaeton.
Dos nacionais, os destaques foram CIA e Zegon, o primeiro pela excelente seleção de hip hop nacional e o segundo pela sequência de clássicos old school. O publico poderia ter se soltado mais, quase ninguém dançava, preferiam ficar olhando que manobras os DJs faziam enquanto mixavam.
DJ MAG ENTOPE por João Anzolin
Se o público da noite de sexta foi abaixo do esperado e demorou para chegar no festival, a tenda DJ Mag foi o local escolhido pela maioria dele para ficar. Tinha também o lineup mais coerente, em termos de estilo musical. À medida que o set do DJ Gabo foi ganhando corpo a tenda foi enchendo e, quando D Ramirez começou sua apresentação, a tenda já estava completamente cheia, e com inexplicáveis poças por todos os lados (alguém explica?). D Ramirez tocou bastante minimal e electro-house. De regatas, franjão e animadíssimo, o britânico dançava alegre fazendo um set sem bombação, que só se viu com seu remix para "Lost" (Roger Sanchez), já no final. Paulinho Boghosian entrou na seqüência, tocando basicamente house progressivo por duas horas. "Lucky Heather" (Nic Fanciulli em remix de Dubfire), foi o ápice do set.
Quando David Guetta subiu ao palco, se viu uma histeria geral: o francês mal deu tempo pra Boghosian se despedir, pegou um microfone e num inglês carregado de sotaque garantiu que todos iriam "have fun tonight". A intenção de Guetta era das melhores, mas a verdade é que o set foi mal construído. Após abrir com seu novo trabalho "Love is Gone", emendou remixes de Red Hot Chilli Peppers e Prodigy, para então arriscar as batidíssimas "Love Don't Let Me Go" (The Egg, em remix do próprio Guetta) e "Exceeder" (Mason). A seqüência hit atrás de hit sem espaço para uma folga não pegou bem, ficou muito cansativa e lembrou aqueles programas de rádio pós-almoço.
Sai Guetta, entra Sander Van Doorn. Enquanto por todo o festival o público já definhava, na DJ Mag seguia lotada. O holandês surpreendeu na disposição e desenvoltura. Versátil, mesclou muito eletrohouse com algum trance, cadenciando com várias músicas cheias de percussão, quase num tribal mesmo. "Grasshopper", hit de autoria própria, foi o momento "mãos para cima". Manteve a pista cheia até o final do set, mesmo tocando bpms mais elevados que as dos demais DJs.
BONS NOMES NO LIVE STAGE... por Jade Augusto Gola e Marcus Vinícius Brasil
A muvuca que se formou para ver Nathan Fake e seu live PA no palco do Skol não preencheu todo o espaço do Live Stage, mas correspondia talvez ao número de fãs de um produtor competente mas abstrato e etéreo. Ele foi bastante acid, tremido e com vocais de trance alemão, lembrando até um Opus III. Nathan, sósia de Apparat, só foi fazer o que sabe melhor no final: distorções com o grave pipocando na orelha o som no começo estava baixo -, prog house com arranhadas de acid, culminando com o hit "The Sky Was Pink".
O Addictive TV, na seqüência, realizou quase o mesmo show nos dois dias de evento: belas intervenções audiovisuais, mas longe de deixar o público olhando pros telões, é som para dançar. Techno com breakbeats, Sex Pistols com Lady Sovereign, Elvis, New Order, Michael Caine, Jude Law e claro, Cidade de Deus. Bom, mas menos imprevisível do que o Ecletic Method, que foca mais no hip hop e pop R&B.
Quem viu a platéia morna durante o animado set do Addictive TV, podia jurar que o tech-house/minimal de Gui Boratto ia esfriar ainda mais a coisa. O que se viu, porém, foi o público respondendo bem melhor ao live do brasileiro. Som fino, kick redondão e até uma canja na guitarra pra completar.
...MAS GENTE DE MENOS por Jade Augusto Gola e Marcus Vinícius Brasil
No aspecto "show" da sexta, duas situações antagônicas. Primeiro, os ingleses do Sugardaddy, anêmico demais para um Skol Beats apesar do groove, misto de house, acid jazz, disco e vocais meio Scissor Sisters. "Vocês nunca ouviram falar, mas é assim mesmo nosso som", reclamava o vocalista, num perceptível constrangimento com o esvaziamento da pista e a indiferença do público que restou. Mico. A coisa mudou depois com o 2020 Soundsystem. Com DJs (vinil e o software Ableton Live), teclados, baixo e bateria, o grupo oriundo do selo 20:20 Vision fez um dos melhores shows do festival: BPM baixo, progressivo e house, que distorcia quatro músicas num mix só, incrementadas pelo bass line ao quadrado. O encerramento foi épico: eles quintuplicaram o fator épico de "The Chase", de Giorgio Moroder. Com o teclado deram ares de Alexander Robotnick e Jacques Lu Cont ao clássico da disco. Inesquecível.
Os sulistas do Life is a Loop foram a última atração do lineup original na sexta-feira. O trio, que mistura um set de electrohouse a bateria ao vivo, já estava esticando a apresentação quando o letreiro que anunciava Donnacha Costello como próxima atração apagou. No final teve até Rogério Flausino, do Jota Quest, cantando "Pro Dia Nascer Feliz" do Cazuza. Podíamos ter ficado sem essa.
A Renato Ratier coube a tarefa de encerrar o palco, que foi feita com aquela versão do Pascal F.E.O.S para "The Celebration o the Lizard", do Doors, "Just close your eyes, forget the world!". Electro-house, discopunk e techno em BPMs suaves, bem para quem está acostumado com o som do Freak Chic, a noite que comanda no D-Edge às sextas-feiras.