O preconceito avança desimpedido na cena
O espírito de tolerância parece estar sumindo da música eletrônica no Brasil
18.05.07 18:10
Teve um tempo em que eu podia dizer, com orgulho, que uma das coisas positivas da música eletrônica era que aqui o preconceito era baixo e a tolerância alta. Diferentes tendências, credos, cores e classes conviviam sob o mesmo groove, nivelados pelo amor à música.
Como isso soa ingênuo atualmente. Hoje em dia, eu certamente não tenho a menor convicção em afirmar isso sobre a cena brasileira. Simplesmente seria uma falsidade. E recentes constatações reforçam isso. Em 2007, boa parte das pessoas na cena eletrônica se limita a reproduzir os mesmos preconceitos de seus bisavós.
Comecemos pela homofobia. Me assustou a quantidade de comentários anti-gays no rraurl.com ultimamente. Um xingou o Trentemoller de gay, como se orientação sexual fosse ofensa. Outro disse que o Freak Chic era cheio de "bichas nojentas". E outro ainda se indignou com a notícia de um rapper gay. Uma amiga de Salvador depois me contou que os playboys psyzeiros de lá, onde o electro-house também pegou, tem problemas em usar a palavra "house" porque "é som de viado".
Depois vem o preconceito de classe. Umas moças entrevistadas no Skol Beats estavam dando graças a Deus pela "selecionada" que o ingresso de R$ 120 estava promovendo, "assim não tem gente esquisita" (leia-se, pobre, mano etc). Para outra mocinha "selecionada" ainda assim não estava bom. Ela não tinha aprovado a presença de gêneros como funk e hip hop no festival porque "estava atraindo muita gente suburbana" (gozado, boys ogros folgados e mal-educados não pareciam incomodar, talvez porque pertencessem à classe social "certa"). Mas ela não precisa se preocupar não: os clubbers da periferia sumiram do festival e das raves, o que para mim é um verdadeiro retrocesso.
À reboque do preconceito de classe, ou lhe servindo de disfarce, vem o preconceito musical. Não estou falando de gosto, isso todo mundo tem que ter o seu; estou falando de ignorância mesmo. O quebra-quebra que aconteceu da Virada Cultural (quando a polícia entrou em confronto com fãs dos Racionais) serviu para tirar da caverna surrados chavões no Forum do rraurl.com do tipo "só bandido gosta de hip hop", "ali só tinha bandido" e ainda um bordão tão antiquado que nem meu pai (que tem quase 70 anos) teria a insensatez de lançar mais hoje em dia: "hip hop não é música".
É realmente uma pena que tenhamos chegado a isso. Afinal de contas, a história da música eletrônica (da MÚSICA, de qualquer tipo, diga-se de passagem) só foi possível devido a uma série de cruzamentos de diferentes tipos e vidas.
No começo, eram os pretos suburbanos de Detroit e as bichas pretas de Chicago que se inspiraram em esquisitos branquelos europeus (techno e house). Estes americanos, por sua vez, serviram de inspiração para inglesinhos feiosos da classe trabalhadora que compraram pacotes turísticos baratos pra Ibiza e tomaram drogas ao som de um argentino exilado político. Na sequência, espalharam a novidade para a molecada britânica de todo tipo de procedência, de hooligans a filhos de Lorde (acid house). Pouco depois, isso chegou nuns moleques alemães, filhos de funcionários públicos da ex-Alemanha Oriental que trocaram figurinhas com velhos hippies de Goa (trance). Etc etc etc...
É por isso que eu digo: não ao tédio homogêneo, sim à riqueza da mistura.