Do pós-rock ao grime, coletânea de textos do crítico inglês oferece a gama ideal para compreender seu trabalho. PROMO: concorra a uma cópia do livro
Um crítico de música nada mais é que alguém socialmente legitimado a opiniar. Estruturalmente, é como um repórter: sua carreira e estilo são moldados pelo background cultural, por experiências vividas e pela estética escolhida. Para um crítico, é importante o contexto e a época inseridas, além da música que marca sua trajetória.
Simon Reynolds tem menos de 40 anos e é, até agora, o último grande crítico inglês. Oriundo de tempos sem internet onde tablóides estabeleciam o certo e errado, Simon cunhou seu nome ao tratar de uma gama versátil de estilos, cenários e artistas: de Smiths ao pós-punk, do hip hop ao início da cultura rave e o grime, estilo cuja visibilidade deve muito ao inglês. Saiu recentemente por aqui
Beijar o Céu , coletânea de matérias, entrevistas e trechos de seus dois livros,
The Sex Revolts: Gender, Rebellion and Rock'n'Roll e
Rip It Up and Start Again: Post Punk 1978-1984. Lançado exclusivamente para o mercado brasileiro, tem (ótimo) prefácio para os brasileiros, narrando o jornalismo musical britânico das últimas duas décadas. A tradução é do editor-chefe do rraurl.com, Camilo Rocha.
VIAJANDÃO?É justamente a versatilidade que faz a coletânea ser interessante. Goste você ou não de trejeitos exagerados de um crítico,
Beijar o Céu não traz só análises extensas, mas também análises mais objetivas, como "Pearl Jam versus Nirvana", comparação entre os principais artistas do grunge noventista: "O Pearl Jam é para o Nirvana o que o Clash era para os Sex Pistols. Como no caso do Clash, a visão de rock do Pearl Jam é humanista, calorosa, inclusiva e, por isso, profundamente tradicional". Simon utiliza na matéria de 1993 fatos da vida pessoal das duas bandas e as contextualiza com clareza, já que na época o grunge era adolescente demais para ter uma análise profundamente viajandona e acadêmica, como Simon faz no capítulo "Fria como o Gelo", sobre Siouxsie.

Simon, autodidata sem formação acadêmica, consegue ir da remissão a filósofos como Gilles Deleuze e Milan Kundera, à simples filosofia de botequim. "Ela (Siouxsie) celebra a idéia do eu como uma polifonia caótica benigna de desejos rebeldes e vozes barulhentas. O fascismo teme a multidão, mas em 'She's a Carnival' Siouxsie se imagina fazendo parte de uma multidão festiva, no espírito de Dionísio". É o tipo de descrição rebuscadamente exagerada que, ao lado de opiniões extremas, fazem alguns leitores pensar: "Quem esse cara pensa que é?!?!". Aí você vê a foto da criatura com um óculos de aro preto e ar de intelectual (foto) e pronto, o cara já vira seu crítico-antagonista predileto, até mesmo um inimigo.
SAIA DE CIMA DO MURO!Ele não busca uma opinião "meio-termista", nem impassível. Ame ou odeie, entre ou saia. É exatamente a mesma relação entre artista e ouvinte. E se todas as citações de Félix Guattari ou contextualizações marxistas soam pedantes, é importante entender o contexto em que Simon fez sua carreira: o pós-punk e os desdobramentos do "art rock", iniciados no fim dos anos 70, e que teve um forte expoente nos anos 80 nos Smiths, banda fortemente influenciada pelas artes e pela literatura. Foi justamente Simon que cunhou o ambíguo termo pós-rock, que seria a versão lado-B do já alternativo indie-rock. Ufa!
Melancólico sim, e daí?

Ponto altíssimo do livro, a entrevista com Morissey em seu auge é daqueles textos que você devora com a mesma intensidade de uma larica. Simon se descreve frente a frente com um ídolo sem cair no descritivo clássico "o repórter chegou no hotel e Morrissey vestia preto". Melhor dizer que "ele sempre viveu e respirou melancolia, sempre endeusou em segredo o abismo entre si mesmo e a pessoa amada, a diferença que torna possível amar mas ilusório possuir, mero engano". É justamente na intensa análise psicológica dos artistas que se percebe a importância dos Smiths para Simon. Quase quinze anos depois, ele tenta fazer a mesma terapia com o Radiohead, mas esbarra na imprevisível simplicidade de Thom Yorke, artista menos divino do que parece.
DESLUMBREMas graças a Deus surgiu a eletrônica que fez Simon não passar o resto da sua vida analisando bandas e guitarras. É delicioso ver seu deslumbre com a cena raver, com a relação entre a música e os ouvintes em alfa pelas drogas. As comparações com a eletrônica instrumental e climática com a psicodélica do rock dos anos 60/70 são tão detalhadamente obscuras que soariam hereges se não fizessem total sentido. Surge também a paixão pelo beat negro americano, que veio junto com uma crítica visceral: "uma característica do pop negro moderno é sua vontade de ser não-negro, de roubar de tudo e de todos(...) Ele prega aspirações de como subir na vida, o hedonismo e protocolos sexuais convencionais, e os transforma numa caricatura utópica". Bingo!
Beijar o Céu traz então uma gama de temas que compreende grande parte da música pop das últimas duas décadas e meia, perfeito para você concordar ou não com suas críticas e, principalmente, para você saber de muito mais coisas de temas como Joy Division, Missy Elliot/Timbaland, Public Enemy e grime. Porque a melhor crítica é aquela que informa ao mesmo tempo que expressa uma opinião pessoal coerente. Não se "entende" ou "desentende" um disco ou um artista. Críticas são pessoais e podem fazer sentido ou não, depende de cada um. Simon trabalha nessa linha tênue com maestria, por mais que seu ar nerd por vezes incomode.
PROMOÇÃO » promo@rraurl.comMorrissey era vocalista de que banda?
Os cinco primeiros e-mails que chegarem à redação com a resposta correta + nome completo + RG ganham uma cópia de
Beijar o Céu, a ser retirada no QG do rraurl.com, em Pinheiros, São Paulo. Um oferecimento rraurl.com e Conrad Editora