Surgeon - basictonalvocabulary
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ficha técnica
Nota: 8 / 5
Ano: 1997
Selo: Tresor
Estilos: techno, ebm
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Surgeon - basictonalvocabulary
Aproveitando mais uma vinda ao Brasil, desenterramos seu maior clássico
08.02.07 13:15
Os desavisados, que pegam o bonde no último ponto e querem ir na janelinha, devem lembrar que esse negócio de techno tem história e ela é, como toda história, cíclica, tende a se repetir.

Pode-se dizer que a onda de repúdio ao minimal é, salvo as proporções (esse negócio de música eletrônica cresceu um tanto), algo bem parecido ao que rolava com o Detroit techno alguns anos atrás.

Era talvez até mais pontual dado ao fato que o estilo então era a música vinda de um lugar só - era como se o minimal, vejam só, se chamasse "Berlin techno". Se você não era de Berlin, você não fazia Berlin techno, ganhava muitas frações a menos que os DJs de lá e definitivamente não podia andar na janelinha do bonde do Berlin techno. Você, DJ inglês suburbano, era um cocô.

Os DJs de Detroit faziam fortuna e monopolizavam as grandes festas de techno da Europa no apogeu do estilo. Época que o menino Surgeon lançou uma trinca bombástica de álbuns: este basictonalvocabulary (em 97), Balance (de 98) e o Force+Form (em 99) - este o álbum que ajudou a definir o techno percussivo que 9 em 10 produtores iriam fazer nos os anos seguintes.

basictonal (para resumir) é o álbum mais desengonçado dos três, mas o que ainda me intriga até hoje.

A falta de formosura em cada track (e no álbum como todo) pode ser justificada pelo fato de menino Surgeon falar a todos os cantos (discurso que mantém até hoje, até onde sei) que o Detroit techno é algo supervalorizado. Muito bem, mas como explicar o clima jeffmillsiano que habita as ambiências de todas as faixas do disco?

É uma dicotomia falsa, provar a regra pela exceção quando uma não desqualifica imediatamente a outra.

Mesmo assim, basictonal tem Mills que não podia ser feito por Mills, um olhar para a frente, uma bagunça com certa atenção a textura do som e a qualidade do mix final que não se via muito em Detroit e que bem pode ter sido o seu fim, uma vez que o mundo do techno foi invadido por adolescentes europeus mimados com super-estúdios e uma destreza inacreditável em suas equalizações.

O álbum tem uma consistência difícil de se achar por aí: é um trabalho em que a única constante é a vontade de fazer techno dançante com barulhos que formam um unidade entre si. Não existe break nem tampouco apelo de pista, mas também não existe viagem, muito menos improvisação.

Depois do sucesso de Force+Form, que colocou o elemento percussivo no mapa e lançou Surgeon numa série de EPs pelo selo Counterbalance (esses que foram até hoje o maior crossover da sua carreira - quem não dançou "La Real"?), o som do menino foi realmente se distanciando das influências de Detroit e foi beber na veia punk da cena de Birmingham, criando uma espécie de híbrido techno-EBM popularizado pela dupla com seu chapa Regis, os British Murder Boys.

O mérito de Surgeon, como de todo bom artista, é de se repetir até o ponto de cansar e, sem aviso, pular para outra fase. Nada tem o virtuosismo analógico de "9 Hours Into the Future" ou a 303 acachapante de "Scourn", o casamento entre o tranqüilo e noiado de "First".

Agora que a passagem do bonde Surgeon pelo Brasil está confirmada, é de se sentar e ouvir basictonal com ouvidos frescos. E, quem sabe, garantir uma janelinha.

Spiceee
Spiceee
Spiceee é DJ, produtor, programador e dono de uma invejável coleção de discos.