Devo - Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! / Freedom of Choice
Synth-rock, crítica social sarcástica e nerds com atitude
27.03.07 23:15
Eu sou fã de carteirinha do Devo. Motivos: o visual de nerd perverso, a crítica ácida ao conformismo consumista da sociedade americana ("devo" vem de "de-evolution", em inglês, o contrário de evolução), as referências à cultura pop trash, o jeito mecânico de cantar e tocar, o fato de ter sido das primeiras bandas punk/new wave a dar ênfase ao sintetizador, a lembrança de ouvir "Time Out For Fun" em festinhas do colégio (quando a new wave estava no auge da popularidade brazuca).
Mas, acima de tudo, eu admiro o talento criativo para composições certeiras de synth-rock e new wave dançante que alegram e instigam qualquer ser humano. Por isso, o anúncio de que eles se reuniram para uma série de shows (incluindo uma apresentação no Sonar) foi motivo bastante para puxar seu nome para os Tesouros.
O Devo foi formado por universitários de artes plásticas de Ohio, no começo dos anos 70. Depois de anos tocando num circuito restrito, eles começaram a chamar a atenção pela sua combinação de performance vigorosa, crítica social e irônica e visual bizarro. Apesar de terem surgido bem antes, foi realmente no punk e na new wave que o som e a atitude do Devo acabaram se encaixando.
O som do Devo ecoou por toda paisagem musical posterior: de Kurt Cobain a Man or Astroman?, do pessoal do Rapture a Simian Mobile Disco, são inúmeros os exemplos de gente inspirada pelo quinteto irreverente.
De sua extensa discografia, existem dois álbuns realmente fundamentais: a estréia Q: Are We Not Men? A: We Are Devo! (78) e o terceiro Freedom of Choice.
Q: ARE WE NOT MEN? A: WE ARE DEVO! Produzido por Brian Eno, pega a banda numa fase mais crua, vigorosa e na ânsia de despejar anos de boas idéias em demo no primeiro álbum. A conexão com Brian Eno veio através de David Bowie que virou fã da banda logo que a conheceu, assim como Iggy Pop. Era para Bowie ter produzido este álbum só que ele acabou não conseguindo devido a outros compromissos.
Um motivo só bastaria para você ter esse disco: a versão do grupo para "Satisfaction", dos Stones, que está entre as melhores covers realizadas no sistema solar. O calor rocker do original é substituído por espasmos rítmicos e uma levada desengonçada. Coisa de gênio.
Outra gigante é "Gut Feeling" que começa com uma guitarra bem ressonante, ganha um synth cremoso e cresce e cresce até explodir num um ápice energético e irritado. "Jocko Homo" é um sensacional e desequilibrado "robot rock" que nunca poderia ter sido composto por gente normal. Já "Mongoloid" tem um clima bem alterado graças ao sintetizador ondulante e o vocal anasalado. Esta faixa foi o primeiro single da banda (aqui regravado), cujo baixo reaparece em "Love Story", de Layo & Bushwacka!
Depois se ficaria sabendo que o processo de gravação desse disco não foi nada tranqüilo, com Eno e a banda divergindo sobre muitas coisas. Eno declararia mais tarde que a banda era "anal" (de "anal-retentive" que, em inglês, é usado para alguém obcecado demais com coisas sem importância). Mas o que esperar de um bando de nerds desajustados?
FREEDOM OF CHOICE A banda aparece aqui com produção e sonoridade bem mais limpa e arrumada. Os sintetizadores tem muito mais presença, ajudando a definir a sonoridade que a maioria das pessoas identifica como do Devo. A verve irônica, a energia da execução e a atitude punk continuam intactas.
É aqui também que a dupla Mark Mothersbaugh (vocalista principal e mentor intelectual) e Jerry Casale (tecladista) se supera como compositores pop de mão cheia. Junto com Oh No It's Devo, de 1982 (e o álbum mais conhecido no Brasil, contendo os hits "Time Out For Fun" e "That's Good"), este é o seu álbum mais bem-sucedido em termos de vendagem.
Isso se deve muito a "Whip It", hit que chegou nas 20 mais da parada americana em 1980. Com sua inventiva linha de baixo, seu batidão estalado e sua letra tirando sarro dos chavões de auto-ajuda, é um rock groovado de primeira.
Mas, com o grupo afiadíssimo nos arranjos enxutos, pencas de refrões que colam na cabeça e coesão instrumental, chega a ser uma injustiça que outras faixas daqui não tenham também sido estouros comerciais. Um bom exemplo é a música de abertura, "Girl U Want", um roquezinho de festa cheio de breques que caberia perfeitamente num daqueles filmes de estrepulias "high school" dos anos 80 com Matthew Broderick ou Rob Lowe.
A faixa-título é mais um primoroso exemplo de sarcasmo Devoniano, um rock seco e marchante que fala sobre "a liberdade de escolha na terra dos livres". Já "Cold War" cai para um lado bem mais sintetizado, com seu teclado tremido. Depois, "That's Pep", tem um clima de suspense e soa como Rolling Stones cantado por autômatos bêbados. Resumindo: um álbum para ouvir de cabo a rabo muitas vezes sem perigo de enjoar.