Spirit Catcher - Night Vision
Dupla belga brilha encarnando espírito dos grooves dos anos 70 e 80
09.04.07 23:30
No meio da tediosa Bélgica, uma dupla invoca produtores e músicos de outras épocas, capturando seu espírito (sacou?) e reinterpretando sua arte para as pistas de hoje. Não, não estou falando do 2ManyDJs e sim de Jean Vanesse e Thomas Sohet, que há quase dez anos vem lançando música com o nome de Spirit Catcher. Aliás, descobrir as belezas que estes dois tem a oferecer é uma experiência bem mais recompensadora do que ouvir os sets hiteiros dos seus compatriotas famosos.
O grupo já assinou faixas e remixes para tantos selos que daria pra ficar o dia inteiro aqui citando mas alguns poucos exemplos servem para mostrar o quanto eles são relevantes: Crosstown Rebels, F Communications, Kanzelramt, Moodmusic e, claro, o que lança este disco, 20:20 Vision.
As referências predominantes dos Spirit Catcher são disco, boogie, electro-funk e ítalo-disco da virada dos 70 para os 80: Chic, Zapp, Shalamar, Kashif, Cameo, Paul Hardcastle, Kleeer e Prince, retrabalhados em climas que vão do introspectivo ao animado, do chique ao chacoalhante, inseridos em estruturas house, prog e tech. A maioria cai muito bem em sets mais groovados, de BPMs mais tranqüilos, e o disco tem musicalidade o bastante para ser também uma boa opção para audições caseiras.
Assim como os sons que os inspiram, o SC faz um elegante equilíbrio entre timbres orgânicos e eletrônicos. A reverência ao old school já fica clara na faixa de abertura, "Motown Spring", uma tranqüila brisa de funk sintético, ótima música para ouvir logo depois de acordar num sábado de sol.
"Rollercoaster" é disco-boogie com teclados que vieram numa máquina do tempo de 1981. "Sweet Deal" é um dos números mais inspirados, com seus arpeggios insistentes e camadas de teclado planando para criar aquele clima de arrepio na pista, alma lavada, no final de um set especial.
"Search Is Over" é um funk-house analógico com vocais sussurrados. "Voodoo Knight" é o momento mais sombrio e mais "techno" do disco, com um synth sujo desenhando um groove intenso, para as horas de pico. Já a espacial "Hidden Memories" faz um bem bolado de System 7, Pink Floyd e Giorgio Moroder.
É claro que manter o ouvinte interessado por onze faixas, com muitos timbres similares, é uma tarefa delicada e, às vezes, a música tem seus momentos repetitivos. Mas, a fluência das faixas é irretocável e a impressão final é de que, abençoada pelo espírito dos grandes grooves do passado, a dupla cometeu um álbum primoroso.