Timbaland - Shock Value
Mega-produtor escorrega feio no seu primeiro álbum-solo, cheio de celebridades e vazio de idéias
18.04.07 14:55
O diretor Robert Altman, que tem uma boa reputação entre os cinéfilos, certa vez lançou um filme lotado de participações célebres. Tinha Sophia Loren, Marcelo Mastronianni, Kim Basinger, Tim Robbins, Bjork, Cher e várias modelos como Tatiana Patitz, Naomi Campbell, Linda Evangelista e Claudia Schiffer. Não adiantou: Prêt-à-Porter era uma bomba e é hoje considerado um dos pontos baixos da carreira de Altman.
Caso muito parecido é o do primeiro álbum-solo de Timbaland. O mega-produtor de hip hop/R&B/pop vinha montado numa seqüência matadora de hits para Nelly Furtado, Missy Elliott e Justin Timberlake e era tido um gênio na arte de unir o comercial com o inovador. Aí ele aparece com um álbum lotado de colaboradores ilustres (Elton John, 50 Cent, Fall Out Boy, Justin, Nelly, She Wants Revenge etc.) que é em grande parte muito sem graça, às vezes brega, às vezes forçado e quase sempre vazio, incoerente e sem direção.
Timbaland precisa entender que o dinheiro pode comprar muita coisa mas não compra boas idéias nem inspiração. Outra coisa que o dinheiro não compra é tempo e algo me diz que o sr. Timbaland (que, se pagarem bem, produz até a musiquinha do caminhão de gás; a lista de projetos para 2007 é assombrosa), está diluindo idéias e fazendo seu serviço nas coxas.
Uma coisa que chama a atenção é a falta de hits naturais! É claro que, com a gravadora forçando goela abaixo e os milhões de fãs que compram um lançamento como esse no piloto automático, algumas músicas vão emplacar. Mas, sinceramente, não mereciam. Será o caso de "Release", com Justin Timberlake, que é animada e flui bem mas parece uma versão de segunda mão do álbum de Timberlake; e "Give It To Me", onde o astro Justin volta com Nelly Furtado numa faixa que chega toda insinuante mas perde o gás no refrão-sacarose.
Quando encontra os velhos parceiros Timbaland alcança os melhores momentos do seu projeto megalomaníaco: com levada sensual, "Boardmeeting" tem Magoo e synths interessantes; já "Bounce" traz Missy Elliott (mais Dr. Dre) em uma densa paisagem de tensão e chapação.
No mais, o álbum se divide entre: faixas genéricas e inofensivas, como "Scream", "Come & Get Me" e "Way I Are", todas com refrões bobinhos e esquecíveis, e as escandalosamente ruins e ofensivas: a levadinha melosa de "2 Man Show", com Elton ao piano, a choradeira juvenil nauseante do Fall Out Boy em "One & Only", o constrangedor momento pseudo-Bollywood de "Bombay" e o fundo do poço: a breguésima "Apologize" (sim, ele realmente nos deve desculpas por essa), que lembra uma daquelas baladinhas trash 80s do Foreigner ou Peter Cetera. Nem vou entrar no mérito das parcerias com The Hives e She Wants Revenge porque, a essa altura da resenha, todo mundo já deve ter mais o que fazer da vida.
Shock Value é realmente chocante, no pior sentido possível.