Awakenings traz lendas do techno para Amsterdam
Infláveis no festival
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Awakenings traz lendas do techno para Amsterdam
Festival teve Dave Clarke, Murphy e Surgeon, entre grandes nomes do techno mundial
04.07.07 15:25
Sábado de manhã. Tomei um café numa das praças mais agitadas de Amsterdam, a Leidseplein. Enquanto um sujeito desenhava caricaturas para uma pequena platéia de turistas curiosos, eu revia o lineup do Awakenings, tradicional festival holandês e um dos mais esperados e comentados por fãs de techno em todo o mundo. Como todo grande festival europeu, havia um palco principal e (pelo menos) quatro tendas, repletas de atrações tops, muitas delas escaladas para o mesmo horário.

Para chegar ao Awakenings, havia um ônibus especial que saía da estação de trem mais próxima ao evento. Lotado, me senti como se estivesse em uma excursão de amigos viajando na época da escola. O clima era o mesmo de uma XXXperience, com gente colorida e alegre, a maioria com seus vinte e poucos anos, falando alto e comentando sobre as atrações do dia.
Na entrada, uma revista rigorosa era conduzida. Ao entrar no evento, todos recebiam uma munhequeira e, dentro dela, um mini-mapa do festival com o lineup.

À primeira vista, o Awakenings não deixava a desejar em nada para os festivais brazucas. O lugar era um descampado, cercado de árvores e, excetuando alguns infláveis gigantes (um porco, uma vaca e um gorila), nada demais. Logo à esquerda da entrada havia uma tenda, à direita, outras três, e adiante o palco principal.
De frente ao palco, foi montada uma arquibancada, onde milhares de pessoas transitavam e podiam ver todo o evento com uma visão panorâmica incrível.

Havia uma praça de alimentação com opções para todos os gostos, dos mais naturebas aos fast food junkies, com direito a bancos escolares, árvores com sombras e gramados onde os "mais experientes" produziam verdadeiros piqueniques. Havia ainda as "atrações paralelas" do festival, como uma trindade de motoqueiros apocalípticos que circulavam pelo evento com triciclos gigantes para fotos.

DREAM TEAM DO TECHNO
No quesito "atrações", o Awakenings era praticamente um "Dream Team" do techno. Cheguei por volta das 13h30 para conferir o set de Steve Rachmad, pioneiro da cena techno holandesa. Uma pena ser tão cedo, porque talvez tenha sido um dos melhores da festa. Hipnótico e minimalista, com paradas longas e intensas, foi um daqueles sets "vale a pena ouvir de novo".

Em seguida, Joey Beltram. O produtor norte-americano largou a mão, animando uma pista ansiosa por "lenha", embora pouco criativo nas mixagens. Um dos nomes mais aguardados do Awakenings, "Mr." Dave Clarke, entrou na sequência mostrando porque merece o título de "papa do underground". Empolgado e risonho, o inglês parecia se sentir em casa (ele mora de fato em Amsterdam), fumando um cigarrinho aqui e outro lá, enquanto levantava uma corneta pra galera nas paradas antes das explosões.

No começo da noite, o projeto British Murder Boys reunia Regis e Surgeon para destilar uma seqüência de techno com batidas quebradas, inteligente e sombrio. Enquanto isto, no palco, Green Velvet fez um dos melhores momentos do festival. De gravata estampada de smileys, careca e óculos escuros, soube como conduzir a pista do minimal ao tech-house, com momentos inesquecíveis como a hora em que pegou o microfone para cantar o hino "Flash".

Em seguida corri para ver o finalzinho do back to back do Christian Fisher com o paulista Murphy, destruindo a pista e sendo ovacionados por um longo tempo após o final de seu set (pelo visto, se depender do carinho do público holandês, o DJ não volta!). No fim do dia, exausto, fui arrastado ver o live do The Advent. Funky techno e electro em uma hora de live recheado de grooves e batidas quebradas.

SALSA E MERENGUE
Uma das decepções do evento foi Robert Hood. Fui assistir à lenda de Detroit, esperando um set como de suas produções, o original minimal de Detroit, de rápido bpm e hipnótico, que consagrou nomes como Jeff Mills e o próprio Hood em todo o mundo. Quando cheguei, tive que ler duas vezes o mapa para ver se estava na tenda certa. Uma mistura de tribal techno, com vocais latinos, daqueles que gringo adora mas que para mim não fazia o menor sentido. Ainda fiquei um tempo, mas não deu. As salsas e merengues me expulsaram da pista.

A segunda crítica é bem pessoal... Costumo tocar minimal em meus sets, mas creio que exista local e hora para certos tipos de som. O palco principal foi praticamente focado no gênero, com nomes como Magda, Loco Dice, Bart Skills, 2000 and One e, no final, "Herr" Richie Hawtin. Quando fui pela primeira vez ao palco, a sensação era de que a atração principal estava para entrar a qualquer momento...Só que nunca entrava. Num palco daquele tamanho, o som mais parecia ambiente, um imenso "lounge open-air".

Gostos à parte, creio que está mais que na hora dos produtores entenderem que o minimal tem sim o seu espaço, mas que não é todo mundo que gosta de dançar com os ombrinhos bebendo champagne durante 12 horas de festa (principalmente no final, quando tudo que precisamos é de uma boa dose de disposição!).

Franklin Costa é produtor de eventos e diretor de marketing da Directa
e No Limits, DJ e colunista do blog Sonorama - Jornal do Brasil (http://www.jblog.com.br/sonorama.php)

Franklin Costa
Franklin Costa