Dinamarquês foi um dos destaques do festival holandês.
Terminou domingo (8/7) a sétima edição do festival 5 Days Off, em Amsterdam. Por cinco dias seguidos, a praça Leidseplein foi o foco da cena eletrônica holandesa, recebendo dezenas de DJs e bandas locais em apresentações ao ar livre e gratuitas.
Além das festas abertas, os dois principais clubes da cidade Melkweg & Paradiso apresentaram nomes como Tiga, Digitalism, Adult, !!!, DJ Shadow, The Knife, Cobblestone Jazz, 2000 and One, e, fechando a programação, Miss Kittin, Âme, Samim (Live) e Trentemoller com seu novo projeto "Live in Concert".
Minha noite começou às 21h, tomando uma pint da (fortíssima) cerveja Irish Stout em um típico pub Irlandês na Leidseplein. Apesar das apresentações começarem a partir das 23h, havia um motivo especial para eu sair um pouco mais cedo do hotel. No Melkweg, a partir das 22h, seria exibido um documentario sobre a vida de Robert Moog, inventor do clássico sintetizador que leva o seu nome.
Mais que uma merecida homenagem a um dos pioneiros da música eletrônica, o filme mostra a intimidade do "vovô" Moog, como seu casamento com a filósofa e especialista em teologia Ileana Grams. Vale o trecho em que discorre sobre a sua concepção de música, a importância da música apresentada ao vivo ("gravar um set em casa é uma emulação da vida") e uma simpática apresentação com o theremin, instrumento pelo qual foi apaixonado até a sua morte em 2005, vitima de um tumor cerebral.
PARADISO E MELKWEGDo Melkweg, dei um pulo na rua para um rápido jantar e, de lá, fui para a Paradiso conferir a primeira - e também a mais esperada - apresentação da noite: Trentemoller Live in Concert. Vale explicar que, ao entrar no 5 Days Off, você recebe uma pulseira que dá direito a ir tanto no Melkweg (onde eram exibidos os curtas e documentarios) como no Paradiso. A distancia entre um clube e o outro é de aproximadamente 500 metros, sendo que no meio do caminho fica a Leidseplein. Mais prático impossível.
O Paradiso, assim como o Melkweg, possui uma fachada com a arquitetura típica holandesa, com tijolinhos vermelhos, cores sóbrias e janelas grandes (exatamente como aquele brinquedo "Meu Pequeno Construtor", lá dos anos 80). Só que, no caso do Paradiso, com um detalhe. É exatamente igual ao prédio onde o louco professor Doc Brown de
De Volta Para o Futuro constroi seu aparato para fazer voltar ao tempo o jovem Marty McFly, com direito ao relogio no centro (back to the 80s again!).
O lugar não é exatamente um clube, mas sim uma casa de shows (em julho, por exemplo, tocam lá atrações tão distintas como um especial Buena Vista Social Club, Simian Mobile Disco, Black Rebel Motorcicle Club e uma serie de shows gospel). Por dentro, o formato é de uma nave de igreja, com direito a um segundo andar com bancos para o " altar", onde são apresentados os shows. E foi lá que me instalei, confortavelmente, enquanto o show não começava.
TRENTEMOLLER: TODO DE PRETOClube Paradiso

Ainda bem, porque exatamente às 23h30 entrava no palco, vestido de preto da cabeça aos pés e com a barba por fazer, Anders Trentemoller. Estava acompanhado de um percurssionista que parecia um surfista da California e outro musico, alto, magro e muito parecido com um Nando Reis jovem, responsável pela guitarra, baixo, gaita e backing vocal. O show, que durou exatamente uma hora, foi um passeio pelo excelente ultimo álbum de Trentemoller,
The Last Resort. Quem esperava dançar, (não) dançou.
Melancólico, fortemente marcado por momentos donwtempo e dub, não creio que tenha sido facilmente assimilado pela já lotada pista (apesar dos inúmeros aplausos no final). Com imagens que mostravam mulheres pin-ups dos anos 50, ora mostrando cenas "sadomasô" em technicolor, ora trechos de filmes clássicos em preto e branco, o show foi bastante "morno", com poucos momentos marcantes.
Destacam-se o início, onde o produtor dinamarquês mostrou uma releitura de "Take Me Into Your Skin" (com direito a um sample de Blue Monday no final), o meio, exatamente 30 minutos depois, quando foi apresentado a uma platéia ansiosa por um "hit" uma versão instrumental de seu remix para "What Else Is There". Para encerrar o show, a ótima "Moan". No mais, muitos momentos que lembravam as produções de meados dos anos 90 da Warp, Boards of Canada e M83... Muitas camadas de teclados, reverbs e sons para assistir sentado.
MISS KITTIN: GORDINHA E SEXYDepois do show, voltei ao Melkweg, para ver o inicio do live do Samin, dono de um dos remix de minimal house mais tocados no inicio do ano, a otima "Hay Consuelo", de Pier Bucci. Animado, ele estava ao lado de um baterista, que incrementava ao vivo os loops que gerava em seu Mac. House, pra cima e minimal, muitas vezes lembrando o excelente album
Bambusbeats, do Gabriel Ananda.
Depois de uma hora, voltei ao Paradiso e lá acabava de entrar o DJ set de Kristian Beyer, metade da dupla Ame e um dos donos do selo Innervisions. O set do rapaz é talvez um dos mais comentados do verão, presença obrigatória em praticamente todos os festivais europeus. Beyer mostrou porque merece elogios construindo um set belíssimo e "cool" do início ao fim. Deep house, minimal, techno, progressive em duas horas de viagem crescente. Destaque para o novo remix de "Kill 100", do X-Press 2.
Antes do merecido descanso, ainda vi um pouquinho do set da Miss Kitin. Gordinha e sexy, a francesa estava animadissima tocando com seu Mac (Final Scracth ou Serato). Sua linha continua fortemente marcada pelo electro, ainda que agora mais focado em produções alemã e underground como Stephan Bodzin e Sleeparchive.
Franklin Costa é produtor de eventos e diretor de marketing da Directa e No Limits, DJ e colunista do blog Sonorama - Jornal do Brasil (» www.jblog.com.br/sonorama.php)>