Giorgio Moroder - From Here to Eternity
Clássico dos primórdios da música sintética continua soando atual e relevante
13.07.07 13:10
Space disco, taí um conceito cada vez mais presente nos sets bacanas de 2007. Estou falando, é claro, do gênero protagonizado por nomes como Todd Terje, Lindstrom e Prins Thomas. Essa história de juntar o pulso dançante com a viagem cósmica, o lisérgico e o suingado é prática comum na música eletrônica moderna e a space disco é só mais um desdobramento.
Mas o interessante da space disco é que ela faz uma ligação direta com o tempo onde a idéia de viagem + dança nasceu, os anos 70. Até então, dançar na música pop do ocidente significava sexo, flerte, expressão corporal, passinhos, ou seja, coisas ligadas ao físico. Ouça James Brown, Motown, The Who, Rolling Stones, Monkees, Chubby Checker ou ska, entre as coisas que mais se dançava nos anos 60: é tudo corporal e direto ao assunto, sem divagações ou devaneios.
Aí veio a era psicodélica e, para encurtar uma longa história, aconteceu o seguinte: o LSD se popularizou junto com a música viajandona, levada a cabo por gente como Pink Floyd, Grateful Dead e Mutantes. Ao mesmo tempo, a tecnologia de estúdio deu passos largos na direção de se conseguir sonoridades, ambiências, efeitos e texturas inéditas. De repente, ficou bem fácil traduzir para o som conceitos de espacialidade, futurismo, jornadas cósmicas. Pronto, chegava à música pop a idéia de dançar não só com o corpo, mas com a mente também.
EXUBERÂNCIA CÓSMICA
Quando veio a era das discotecas, o som que predominava era o soul da Philadelphia, com muita orquestração, aura de sofisticação, vocais emotivos e uma atmosfera bem terrena de festa com champanhe e ternos de lapelas gigantes. O homem que mudou tudo isso e introduziu a "viagem" na disco music, a exuberância cósmica, o glamour espacial e futurista, fez a dance music virar mental, foi o italiano Giorgio Moroder.
A bordo de trocentos sintetizadores (provavelmente naquela época cada um servia para um tipo específico de som), Moroder lançou raios phaser, robôs cantantes, modulações estonteantes, grooves sintéticos irresistíveis e teclados que alçam vôos à estratosfera para beijar o céu. Enquanto isso, corais celestiais planavam entrelaçados nos arranjos. Sem falar que foi ele, ele mesmo, que inventou o famoso tum-tum-tum, isto é, o bumbo bem marcado nos quatro tempos do compasso que virou padrão na música dançante.
Seus trabalhos mais conhecidos são as produções para Donna Summer, mega-hits como "Love to Love You Baby" e "I Feel Love". Mas ele também fez muita coisa solo e desse catálogo nada supera, em inovação, musicalidade e brilho, este seu álbum de 1977. Este disco aqui é não só a manjedoura da space disco mas também pedra fundamental da euro-disco (bem diferente da disco "black" dos EUA, como Chic e MFSB), do techno, da house e do trance.
Gravado como um "set", com as faixas mixadas (como era comum na era disco), traz arranjos minimalistas, riffs arpegiados, synths deliciosamente analógicos, um pulso constante, muita modulação e bastante espaço livre e limpo entre os sons. Na contra-capa, o aviso: "Só teclados eletrônicos foram usados nesta gravação."
A faixa-título hipnotiza com seu beat seco, adornado pelo vocal sussurrado de Giorgio, névoas de teclados e marolas eletrônicas no refrão. "Utopia Me Giorgio" tem uma melodia fantástica, daquele que se poderia usar para sonorizar a chegada ao paraíso celestial, enquanto se é recepcionado por vestais de longos vestidos brancos. "Too Hot to Handle" tem um balancinho pop a la ABBA pontuado por vocais humanos e robóticos em clima blasé. "Lost Angeles", apesar do trocadilho infame, é disco cheia de detalhadas engrenagens sonoras com momentos vocais quase glitch. Como sempre, o inglês Pete Bellotte aparece como o braço direito de Giorgio na composição de todas.
De 1977 para a eternidade.