Festival espanhol frita os espanhóis no deserto com techno de todas as procedências
Monegros está para os technoheads espanhóis o que Meca representa para os mulçumanos, um evento sagrado onde todos têm que ir ao menos uma vez na vida.
Acordei sábado cedo e viajei de Lisboa para Barcelona onde fui recebido por um casal de amigos que vive lá. Mal chego e já noto a ansiedade de todos em ir logo para a festa pois escutamos falar que o movimento em direção ao evento era grande desde cedo. Após duas horas de viagem de carro chegamos à desértica cidade de Fraga, onde se localiza o QG do Florida 135, o lendário clube espanhol do grupo organizador do Monegros.
A temperatura marcava 40 graus às 18h40 e logo que chegamos nos deparamos com trânsito para estacionar e muita animação do povo espanhol que já no estacionamento fazia muita festa e enchia a cara. O clima era de final de campeonato de futebol. O fanatismo dos espanhóis por techno é nítido, logo na entrada todos vão para a enorme área de merchandising onde compram alguma coisa do Monegros. As filas são enormes e muitos vestem camisetas de selos, DJs e clubes. O primeiro que vi tocar foi o japonês Ken Ishi que fazia seu live PA no palco. O sound system era perfeito e desde cedo já fazia o publico pular. Logo a seguir Dave Clarke fez um set denso e underground, do jeito que os espanhóis gostam.
LENDAS E CHUVA NO DESERTOTive que correr para ir ver o lendário live do Model 500, uma das melhores atrações do festival. Juan Atkins cantou clássicos como "Future", "No Ufos", "Off to Battle" e "The Chase" e fez o público ir aos berros. De volta ao mainstage, me acomodei na área de imprensa onde tinha uma vista panorâmica do festival. Enquanto aguardava os preparativos para o Underworld, começou Snoop Dog na tenda ao lado e se via uma multidão vibrar. Na sequência, Underworld iniciou seu show levando os emotivos espanhóis às lagrimas com os clássicos "Two Months Off", "Born Slippy" e uma chuva inesperada caiu em pleno deserto durante o show para delírio da multidão que os assistia.
De volta à tenda que abrigava as lendas assisti ao live dos misteriosos Scan 7 de Detroit, que sempre se apresentam mascarados. O resultado foi uma pista incendiada ao som duro das máquinas analógicas, projeções futuristas e com performance do DJ do grupo fazendo MC e scracthes. O curioso é que parecia que todos ali na arena conheciam bem o grupo e a interação com o público foi um show à parte.
OUTROS DESTAQUESMadrugada adentro resolvi explorar as diversas áreas do festival. Logo no caminho me deparei com o palco da Bacardi onde Dr. Smoke fazia o set mais alternativo de todo festival com um som repleto de experimentalismo, batidas descompassadas e músicas obscuras que combinavam com a já fria noite do deserto.
Finalmente cheguei a tenda Apokaliptica, a maior de todo festival aonde vejo PET Duo estreando seu live PA de forma intensa. O palco era imponente e repleto de luzes e efeitos, a arena estava completamente lotada e enlouquecida por ve-los. A apresentação foi uma das mais vibrantes em todo festival. Ao final, David PET pegou um megafone e em espanhol agradeceu ao público que aclama o duo.
Mais tarde, Murphy vs Lukas explodiram a pista com seu famoso duelo repleto de técnica e agressividade sonora. O sucesso da tenda, que contava ainda com Rush, Marcos Remus, Frank Kvitta e OBI, entre outros, provou a força do hard techno na Espanha hoje em dia. "A vibe foi incrível como a muito tempo eu não sentia", comentou Murphy após a apresentação.
Tenda maintage

Enquanto isso, numa arena aberta da Sennheiser, Technasia construía um set bem ao gosto dos espanhóis, underground e hipnótico. Sterac, Slam, Umek, Carola, Space DJz e outros também estiveram lá. Fixmer & Mcarthy, Carreta e Motor também empolgaram o público no palco da Bacardi.
No mainstage, Sven Vath tocou para um palco lotado e um set com muitos clássicos, entre eles o hino techno "Knights of the Jaguar", de Rolando. Já Richie Hawtin fez um set mais conceitual onde havia um belo sincronismo entre as imagens e suas sonoridades minimalistas. A seguir Oscar Mulero, o mais aclamado DJ pelos espanhóis, entrou ao amanhecer no deserto e aumentou a força das batidas para alegria da multidão.
A seguir veio o Frequency 7, com Ben Sims e Surgeon, que fizeram um dos sets mais animados e comentados do festival. Pela manhã o calor já era insuportável e fomos obrigados a ir embora antes do final com o DJ Murphy que, segundo os relatos em foruns espanhóis, foi espetacular e deu um show sobre os decks para um mar de gente. Depois de toda essa maratona é fato dizer que na Espanha é o techno em primeiro e depois o resto.