Cinco perguntas para Batman Zavareze
Curador do projeto Multiplicidade fala sobre arte digital e convergência
19.07.07 17:45
De quinze em quinze dias, no Rio de Janeiro, é realizado um dos mais interessantes projetos brasileiros de convergência de mídias e expressões artísticas. O Multiplicidade_Imagem_Som_Inusitados começou em 2005, no Centro Cultural Telemar, e desde então não parou mais de proporcionar encontros mais que insólitos entre músicos, artistas plásticos e visuais. Percussão feita a partir da carroceria de um Fusca, instrumentos alienígenas e Tom Zé são exemplos do que você pode encontrar quinzenalmente no espaço Oi Futuro.
Amanhã (20/7), tem mais uma edição do Multiplicidade. Os convidados são os músicos Tato Taborda e Alexandre Fenerich com suas "Geraldas", instrumento construído com peças de 72 outros instrumentos e feito para ser manuseado com mãos, pés e cabeça.
No dia 16 de agosto, quem se apresenta é o norte-americano Daedelus, que já impressionou o público brasileiro com seu show de música experimental em uma recente passagem por aqui. No dia 18, o estadunidense dá as caras também no clube paulistano Studio SP.
Convidamos o curador do Multiplicidade, Batman Zavareze, para responder nossas cinco perguntas dessa semana. Em uma troca de e-mails, Batman falou sobre o surgimento do Multiplicidade, a sua importância no cenário cultural brasileiro e os próximos passos da empreitada.
Como surgiu a idéia do Multiplicidade?
A proposta vem de encontro a um desejo pessoal artístico; Abrir um espaço para unir imagem e música através da tecnologia. A idéia era propor um projeto cultural com regularidade para formar público e fomentar a produção de conteúdo digital. Já havia visto diferentes formatos de festivais na Europa - Sónar, Ars Electronica, Netmage. O desafio, no Rio, seria formatar algo com originalidade.
Inauguramos dez dias após a abertura do Centro Cultural Telemar (hoje Oi Futuro), praticamente juntos, o que nos permitiu arriscar evoluindo. Conceitualmente, nosso festival tem o compromisso de preencher um calendário de abril a dezembro, sempre quinzenalmente - fôlego de maratonista para encarar uma nova estréia a cada 15 dias - com um repertório plural, com vários sotaques nacionais, sem rótulos óbvios do universo eletrônico, num espetáculo singular, promovendo encontros únicos e inusitados entre imagem e som.
Qual foi a apresentação que mais te impressionou dentro do projeto?
Em 2005, recebemos inicialmente o rótulo DJ + VJ. Ótimo, mas não era só isso, nosso grito era maior. Rever o uso da tecnologia e trazer artes plásticas, cinema e design era um compromisso para ampliar nossa pluralidade.
Um momento crucial para o projeto aconteceu ainda em 2005, quando subimos com um Fusca, instrumento musical do percussionista Siri. Este espetáculo foi lindo, aquela percussão orgânica junto com violinos, trombones, bases eletrônicas, etc, e a cenografia digital da artista plástica Deborah Engel.
Você acha que esse tipo menos tradicional de arte já conquistou seu lugar no cenário cultural brasileiro? Em termos de incentivos governamentais, patrocínio privado, espaços de exibição e de público.
Já conquistou um espaço importante, mas ainda tem muito a percorrer, principalmente no aspecto de formação de público e pesquisa experimental. Pouca prática gera um ciclo vicioso e restrito artisticamente. As possibilidades experimentais da arte e tecnologia são infinitos.
Os investimentos culturais no Brasil são de uma maneira geral muito tímidos e principalmente sem planejamento de longo prazo. A vocação cultural de nosso país é tão rica que certamente poderia gerar uma grande transformação social.
Hoje temos um "boom", um modismo, que de alguma forma facilita quem promove os festivais e encontros mais consistentes de arte digital, mas sofre uma disputa da concorrência gratuita, banalizada. Hoje é "cool" utilizar um projetor em qualquer evento. Pode dar margem a uma interpretação preconceituosa, mas a intenção é gerar discussão. Nosso investimento como opção cultural regular durante todo o ano de alguma maneira provoca uma cadeia produtiva entre artistas, público e produção. Trabalhamos com provocação, experimentação para sentir coletivamente um friozinho na barriga a cada estréia, a cada espetáculo.
Eu estava lendo a resenha de um show do AfroReggae em Londres e lembrei de ter visto uma apresentação deles no catálogo de vocês também. Você acha que globalização, cultural e econômica, é sinônimo de multiplicidade?
Certamente. Isso é inevitável, apesar de todas as massificações da globalização. Quando unimos o AfroLata e o AfroSamba, ambos da grande cadeia social AfroReggae, junto a um artista plástico contemporâneo, Marcos Chaves, sabíamos que iríamos construir uma proposta nova entre todos os presentes - público e artistas. Este é o combustível do projeto, arriscar num espetáculo singular.
Este nome, Multiplicidade, é auto-referencial, eu sou um reflexo pessoal, profissional e espiritual desta avalanche de globalização. Eu amo a rabeca e a pick-up, a bossa-nova e o break-beat, o lápis e a internet. É sério, venero de paixão toda esta multiplicidade.
Há expectativas de levar o projeto para fora do circuito cultural carioca?
Nosso projeto no Rio é patrocinado por leis de incentivo a cultura e temos no Oi Futuro um parceiro que enxerga longe nossa função cultural e educativa. Temos capacidade de receber 150 pessoas no teatro, mas em dias normais recebemos pelo menos 300 pessoas por espetáculo.
O Multiplicidade está naturalmente crescendo. Olhamos para o evento antes e depois do espetáculo. Evoluir é necessário e preciso. Nosso mailing hoje é de 9.500 pessoas cadastradas, ávidas por informação. Nossos planos ainda em 2007 é iniciar em São Paulo no segundo semestre, explorar as muitas convergências da internet - www.multiplicidade.com - de forma mais interativa com o público e um programa semanal na rádio Oi Fm. Além disso temos o Multi_Itinerante levando nossos espetáculos para outros centros de todo Brasil.
Em 2008, estaremos mantendo nossa regularidade anual no teatro do Oi Futuro, mas teremos novos formatos e muitas novidades com parcerias de conteúdo internacional.
qual o contato de batman?
adorei a ideia.
valeu