De Falla De Falla
A banda que escreveu nos 80 as cenas dos próximos capítulos do rock brasileiro dos 90
20.07.07 17:10
Os melhores articuladores do rock brasileiro dos anos 90 foram diretamente influenciadas por uma banda gaúcha que, há exatos 20 anos, lançou seu primeiro álbum solo. Universal, contemporâneo, abusado, De Falla (o disco) era a antítese do mítico conservadorismo porto-alegrense, um retrato fiel da pós-modernidade instaurada nos anos 80 a partir de uma série de articulações artísticas e comportamentais que partiram do emblemático bairro Bom Fim direto para os palcos, as páginas, as telas e as cabeças da juventude sulista e aqui se inclui de peças de teatro como Bailei na Curva a editoras como a L&PM a contistas como Caio Fernando Abreu, de bandas como o Replicantes a selos como o Vórtex a bares como o Ocidente.
O De Falla (a banda, formada por Edu K, Flávio Santos, Castor Daudt e Biba Meira), na verdade, estava além da própria cena que retratava: enquanto em Porto Alegre se proclamava o "deu pra ti anos 70" (nome de peça de teatro, aliás), o grupo formado em 1984 rabiscava os anos 90 desde seus primeiros acordes, registrados na coletânea Rock Grande do Sul, de 1985.
De Falla, o álbum de estréia, tem guitarras pesadas de rock, baixo suingado de funk, bateria punk, melodias pop. Tem Tim Maia, Grandmaster Flash, Bauhaus e Accept. Tem músicas de amor e de anti-amor. Tem muito sexo e sacanagem, especialidade da casa a partir do carismático vocalista Edu K, que contrastava com o assexuado e antisséptico rock nacional daqueles tempos. O funk "Sodomia" vai direto ao assunto, e vai fundo, assim como "Não me Mande Flores", de bateria tribal e versos dissimulados ("eu não amo você") escancara o poder de uma desilusão amorosa.
Entre muitas pérolas, duas canções remetem definitivamente às crenças da juventude urbana oitentista, ainda se habituando ao mundo pós-Guerra Fria/pré-internet: o pós-punk "Sobre Amanhã" ("ontem o que era hoje ainda não, sobre amanhã ainda nem pensei") e o punk "I'm an Universe", premonição para uma garotada que, em pouco tempo, teria o mundo ao alcance de um teclado. Chico Science e Marcelo D2 não seriam os mesmos se não tivessem ouvido o De Falla. O rock, o hip hop e o pop brasileiros também não.