Baltimore Club: a batida mais quebrada dos Estados Unidos
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19.07.07 16:15
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Baltimore Club: a batida mais quebrada dos Estados Unidos
Com samples, booty bass, funk carioca e ghetto-tech, o gênero vem ganhando o mundo
19.07.07 20:20
Da música negra dos Estados Unidos sabemos muito. Jazz, rock, house, hip hop, techno... Raízes e ramos formam uma árvore genealógica que, para ser estudada e desenhada em todas as suas variações e sutilezas, necessitaria no mínimo um grupo de 10 pessoas fechadas num mestrado em cinco diferentes universidades de dois ou três países.

Como num processo biológico, "bolhas" surgeme somem nessa grande árvore genealógica estadunidense e deixam suas marcas no cenário musical. Uma bolha que inflou nos últimos dois anos e talvez já tenha atingido seu ápice (mas ainda não explodiu) e nós interessou muito aqui do rraurl.com é o Baltimore Club. É um subgênero, uma cena e - o mais importante - uma batida própria oriunda de Baltimore, cidade portuária da costa leste americana, cidade mais populosa do importante estado de Maryland, entre Nova York e Washington D.C.

O Baltimore club (bmore club) é uma variante mais agressiva e acelerada do ghetto-tech, uma fusão dance de miami bass, samples, hip hop, booty bass e electro de Detroit. A produção é "artesanal", para não dizer caseira, e consiste em faixas recheadas de samples e duas linhas de breaks em descompasso, bastante acelerado, criando um efeito booty. Paradinhas, breaks e cuts com samples geralmente tirados de clássicos do hip hop, da house, de trilhas sonoras de desenhos animados, também dão o tom booty do bmore.

É mais ou menos o processo de criação do funk carioca, mas com suas características próprias e forte influência do ghetto-tech e do ghetto-house (palminhas e beats secos das boas e velhas baterias eletrônicas Roland 808 e 909). Só que aqui os palavrões são contidos, o bom humor de samples de desenhos como South Park, Bob Esponja e programas de TV está presente e o BPM não é necessariamente acelerado como no ghetto-tech.

ORIGENS
Cajmere
Cajmere aka Curtis Jones aka Green Velvet
Difícil definir um marco do nascimento bmore. Vem, como já dito, do ghetto-tech do começo dos anos 90 - "Percolator", de Cajmere aka Green Velvet, por exemplo, foi forte influência. Acabou virando um subgênero próprio por influência das festas e das rádios de Baltimore, com intermináveis programas e concursos de samples, gerando novas batidas. Adicione aí um bom regionalismo local norte-americano, porque se Chicago é cantada do jazz ao house, se Detroit tem milícia techno e Nova York é a cidade mais cantada do mundo, porque não louvar Baltimore?

"Nos bons tempos se tocava (Miami) bass e breakbeats em bons clubes como Godfrey's e Fantasy", lembra Shawn Caesar, ex-DJ e parceiro de Scottie B, cultuado DJ local, na fundação da Unruly Records, principal núcleo de artistas, selo e agência da cena bmore. Quando Shawn fala de "breakbeats", ele explica que são os lados B de discos de house da virada dos anos 90/80, mais quebradas, que não faziam tanto sucesso na época.

Então todos os releases dessa época e dos anos seguintes que saíam de Baltimore eram uma house music diferente, que não fazia sucesso em pistas de outras cidades mas se tornaram boa fonte de samples. Em fóruns na internet, muita gente afirma que Armand Van Helden e Michael Jackson cansaram de mamar nessas tetas, fartas de loops e batidas quebradas e estranhas.

Como todo tesouro escondido acaba virando riqueza cobiçada, a cena local ganhou visibilidade e uma nova identidade ao evoluir para uma batida mais acelerada e focada no sample de vocais, ainda fortemente booty bass. Frank Ski, antigo DJ de Baltimore, solidificou essa característica em suas produções com artistas como 2 Live Crew e Disco Rick. Faixas que germinavam as palavras até nos títulos - "Wiggle Wiggle", "Doo Doo Brown" - fizeram a batida de Baltimore ser conhecida também como "dew doo beat".

IT'S ALL ABOUT HOUSE MUSIC
Para Scottie B, mestre das antigas na ativa até hoje em Baltimore, "tudo acaba na house. Hoje Baltimore pode até ser mais hip hop, ter essa atmosfera, mas é house porque essa influência está sempre aí, vai e vem" explica, exemplificando que "se toca muito hip hop com Baltimore club, mas festa boa por lá, todo mundo sabe, toca house a noite toda".

A observação de Scottie é boa para se entender a divisão de público atualmente na cena bmore. Uma parte é formada por hipsters locais e turistas, estudantes e músicos ligados em novidades, que ouvem, tocam e vão em festas onde o foco não é apenas o bmore. O ritmo local é misturado a house, claro, hip hop sulista, Miami bass, hard house e old school. No outro espectro, tem as festas para um público mais jovem, adolescente, onde o bmore club é louvado como uma riqueza local e tocado em bailões lotados divulgados nas FMs, mais para negros e com disputas de MCs, DJs e dançarinas. É o público da famosa DJ local K-Swift, uma negona gorda e mal-encarada mas que faz a linha sensual, dona do bmore mais pulsante e cru de toda a cidade. "Esses jovens estão sempre no clima Baltimore, mas o outro público é mais aberto e se cansa facilmente se tocar bmore a noite toda", explica Shawn.

E o techno? "Nah, techno aqui nunca foi forte, não pegou muito", explica o dono do principal selo da cidade. É a influência break, que faz de Baltimore um epicentro de famosos MCs e rappers também, como o grupo de rap eletrônico Spank Rock, que caiu nas graças de Diplo e virou cult alternê na Europa.

HOLLERTRONIX
Scottie B. e Diplo in da mixx!
Scottie B. e Diplo in da mixx!
Foi justamente Diplo que há poucos anos deu nova visibilidade à cena de Baltimore, com diversas festas e mixtapes com seu parceiro Low B (a dupla/selo Hollertronix), inspirado na batida da cidade. Grande antropólogo do break mundial, Diplo fez com o bmore mais ou menos o que fez com o funk carioca: colocou um subgênero de gueto esquisito e restrito no grande ciclo mundial das músicas dance e alternativa. Talvez se não fosse ele, não estaríamos falando de bmore club aqui hoje nesse espaço.

O trio brazuca Bonde do Rolê foi o primeiro grupo do Mad Decent, selo de Diplo, que contratou recentemente o MC e DJ bmore Blaqstarr, famoso na cidade. Aliás, Rodrigo Gorky, o DJ do Bonde, baixa sempre por Baltimore e já chegou a comprar vinis de Scottie, que anda apaixonado pelo Serato e está dispensando para sebos toda sua coleção de vinis.

"Na nossa época não tinha essa de misturar com anos 80, com rock, essas coisas. Claro que eles (o duo Hollertronix) trouxeram mais exposição, mas é bom deixar claro que o foco aqui são as batidas e a bateria", alfineta o DJ, enumerando no papo via telefone outros grandes artistas que têm tocado ou falado sobre o bmore. "P. Diddy e Pharrell falam bastante. Pharrell é quase um embaixador, seu último álbum tem muitas influências e ele comenta bastante". Pharrel chegou a usar bmore numa trilha inteira de um desfile da Louis Vuitton, marca da qual ele é garoto-propaganda da linha masculina.

Shawn e Scottie frisam ainda que um eventual boom nacional do bmore esbarra na delicada questão dos samples. "As majors sempre gostaram do nosso som, mas achavam que devíamos misturar com outras coisas e diminuir os samples, porque senão seria impossível ir além do gueto". Esse é justamente a questão crucial no hip hop americano e na música eletrônica: samplear é uma arte louvada e disseminada, mas tudo fica difícil quando se vai para o mainstream e dinheiro e questões legais têm papel crucial.

CRIMINALIDADE
O rumo natural do bmore seria fazer parte - ou ao menos influenciar - a grande indústria do hip hop e R&B norte-americano? "Creio que não, porque ainda é dance music, som de DJ, as pessoas ouvem falar mas é só isso", opina Scottie. Mas ele pondera que uma influência relativa é possível, num sample integral para alguma faixa pop. "É só ver a Fergie, aquilo é Miami Bass, o will.i.am (produtor da cantora e membro do Black Eyed Peas) sabe muito bem o que está fazendo, onde achar um beat. E eu acho isso bacana", completa o DJ.

Outro fator que pode interferir ou não numa trajetória do bmore club é a imagem que a cidade tem na sociedade americana. Cidade portuária que teve forte fluxo de imigrantes, Baltimore sempre foi conhecida por sua diversidade étnica e, por isso, seu núcleo urbano conturbado. A cidade é a 12ª mais violenta da América e a segunda mais criminosa entre as cidades com mais de 500 mil habitantes (perde apenas para Detroit), segundo números de uma pesquisa da CNN/Morgan Quitno feita com base em números de segurança pública de Maryland. Em 2006, foram 269 homicídios numa cidade com mais de 600 mil habitantes. "Isso tem um papel na cena daqui, sem dúvida. Algumas músicas são pesadas, provocativas e nervosas, é um pouco a nossa natureza, mas acho que é um pouco injusta essa imagem que se tem de Baltimore. Dá para sair a noite, tem lugares tranqüilos, não sei se aqui você se sente mais desprotegido do que em Chicago, Detroit ou Nova York", explica Shawn Caesar, que exemplifica a má fama da cidade com o seriado da HBO The Wire, filmado em Baltimore e baseado em conflitos entre policiais e traficantes violentos.

2007
Os grandes nomes do bmore atual são os seguintes artistas: a poderosa K-Swift e seus programas na 92.3 WERQ FM, o clássico e ainda prolífico Scottie B., DJ Booman, Aaron LaCrate, DJ Technics, Spank Rock, Rod Lee, Young Leek e seu hit "Jiggle It" e outros DJs e músicos de outras cidades: DJ Tameil, Tittswroth (atração da festa de 10 anos do rraurl!), Ayres e o duo Hollertronix (Low Budget e Diplo). A cena bmore se resume a poucos clubes: o animado e bagunçado Club Choices, local das festas de K-Swift, o tradicional Paradox, no mesmo lugar da famosa warehouse Fantasy e que abrange mais o público hipster e de festas de Scottie B., além dos ecléticos Sonar Baltimore e 32nd Street Plaza.

A cena de Baltimore club consolida-se em sua terra natal e vai aos poucos se espalhando por outras cidades dos EUA - principalmente na costa leste - e recantos europeus e de outras capitais, devidamente trazidos como um novo e curioso breakbeat, um novo Miami bass e um novo estilo de freestyle e MCs. Tudo isso pelos fones dos iPods dos hipsters musicais, sempre doidos por um break, um booty novo. Você que chegou até aqui provavelmente é um deles.

Clique aqui para assistir vídeos ouvir músicas dos principais artistas da cena Baltimore club

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
it's like the 60s, with no hope
comentários
Leandro Tanna
Leandro Tanna(30.07.08)
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Sempre houve essa "volta" do breakbeat... mais parece que ela nunca voltou de verdade..., talvez por ser um estilo bem váriado, onde muitas formulas pode dar certo.. e pra quem encherga sempre RETO... fica dificil entrar no clima e entender os BREAKS....
Eu sou Breaks Ferever..!!!!!
ruud gullit
ruud gullit(18.08.07)
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juliao toca guetto tech faz um tempinho...

nao acho q ele seja dj de "ondas", tem consistência o trabalho dele.

;)
IVI
IVI(29.07.07)
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diz que o julião já se jogou nessa onda.... já dá pra ouvir e quebrar aqui em sp
manu
manu(26.07.07)
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Meio longa a matéria e cheia de referencia, deu uma canserinha...

Enfim, o estilo parece ótimo, vou ouvir alguma coisa. Sempre apostei que o breakbeat voltaria com força depois do electro. A spacedisco é legal, mas o povo ta pegando pesado na disco, algumas musicas dão MUITO sono...

Viva el break!
Donald
Donald(25.07.07)
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sounds like bullshit to me...
 
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