RRAURL 10 ANOS: A nova ordem caótica
Camilo Rocha passa a limpo dez anos de overdose de informação musical
02.08.07 22:45
Uau! Que passeio de montanha-russa que foi! No Fast Forward: speed garage, big beat, tech-house, minimal techno, nu-metal, doomcore, ESTÉTICA GLITCH, UK garage, LCD Soundsystem, 2-Step, nu school breaks, neo-trance, ghetto-tech, Justin Timberlake, French touch, loungecore, ELECTRO-HOUSE, loopy/funky techno, Franz Ferdinand, eletrônica made in Brazil, a popularização do "chill out", Daft Punk, Ableton Live, maximal, Reason, live PAs de laptop, booty house, o novo glam, Aphex Twin, RADIOHEAD, psy-trance bomba geral, emocore...
(pausa para respirar)
...NEW RAVE, electroclash, Timbaland e Missy Elliott, rock'n'roll pós-Strokes, dubstep, nu jazz, revival do PÓS-PUNK, Justice, BPMs do techno baixando pra 130, broken beat, novo pop sueco, mash-ups, drum'n'bass brasileiro ressucitando o gênero, TODO MUNDO QUER SER DJ, bootleg-mania, neo-folk, disco-punk, superclubes, acid techno, "a morte da dance music", Skol Beats, Baltimore club, electro-rock, SPACE DISCO, o reconhecimento da música de gueto (reggaeton, funk carioca, KUDURO), o hype da música cigana etc etc etc
Em dez anos, pode acontecer muita coisa no universo da música. Mas olhar para a evolução da música da última década tem uma coisa essencialmente diferente do que fazer o mesmo exercício com os períodos anteriores. À primeira vista, a diferença fundamental é a ausência de uma grande ruptura musical.
FAXINAS
Pegue o período de 87 a 97: está visível que no começo desse trecho havia um outro mundo, com outras atitudes, dogmas e pensamentos. De 1988 em diante, a acid house/rave/música eletrônica virou tudo de ponta cabeça e hoje ouvimos e pensamos música de uma maneira diferente por causa disso (exemplos: ninguém questiona mais o eletrônico na música; samplear é natural como compor). Enquanto isso, no rock, houve uma faxina geral promovida pelo grunge que sepultou todo o excesso, canastrice e breguice da década anterior, que ia de Bon Jovi a Kenny Loggins.
E na década anterior, de 77 a 87? Nada menos que o punk e o hip hop (a disco também foi uma revolução notável, mas começou a fermentar em 1974 e não desabou sobre a Terra como esses outros movimentos, sendo mais um caso de disseminação progressiva e com uma boa mão do "establishment"). Já os dez anos entre 67 a 77, foram marcados pela transformação brutal de paradigmas trazida pela piração coletiva da psicodelia e do hippie.
Já na última década não houve nada disso. Nada do que foi citado nos dois primeiros parágrafos chegou perto de abalar as fundações do que existia antes.
CACOS POR TODA PARTE
A verdade é não adianta mais olhar pelo ângulo da ruptura estética, da quebra de dogmas de estilo ou forma. A música se movia mais em grandes blocos antes. Hoje, há essa mega-fragmentação (melhor dizendo, estilhaçamento em milhares de cacos), um fluxo e refluxo nunca visto de informações e referências, às vezes se conectando, às vezes vivendo em planetas separados. Quando se olha assim, realmente tudo já foi tentado e reciclado.
E outra: simplesmente não há TEMPO para um movimento gestar, se espalhar pelo underground e aí tomar de assalto a ordem estabelecida. Não, ao menor abalo sísmico no MySpace a mídia, os blogs e as revistas já estão lá esquadrinhando a banda ou tendência. O Arctic Monkeys já era astro antes de lançar seu primeiro SINGLE. Quando chegaram ao seu segundo disco, este, por melhor que fosse, já tinha uma pesada aura de velho, de ano passado, de situação. As forças da diluição agem como uma velocidade incrível, dissipando o impacto que qualquer evento possa ter.
E aqui chegamos na grande revolução da última década (que pode bem ser chamada de revolução das revoluções): a internet. É por isso que a ruptura que ocorreu na última década, o rompimento de paradigmas, não foi na música em si, mas na maneira como ela é consumida, acessada e divulgada. E essa revolução conseguiu algo que os punks ou os hippies sempre sonharam em conseguir mas não chegaram nem perto: quebrar as pernas do sistema (no caso, a indústria fonográfica) e deixá-lo correndo feito barata tonta atrás do prejuízo.
OPEN SOURCE
Mas tem mais: a era do sampler e do remix criou a idéia de que uma música não é mais um produto absoluto, fechado e que termina em si mesmo. A relação das pessoas com um álbum ou faixa ou até artistas (todo mundo pode ser "amigo" no MySpace) não é mais olhando de baixo para um pedestal, para um ente sacro e intocável. O que significa que a música virou um "open source" pra galera ripar, mandar pros bróders, editar, remixar e colar outro vocal em cima. E se antes existia todo um esforço para se conseguir aquele disco que tinha acabado de sair na Inglaterra, de ouvir aquela versão rara, de saber como soava aquela bandinha que a imprensa estrangeira estava botando lá no alto, hoje em dia está tudo ao alcance de cliques e incursões por blogs, soulseeks e comunidades virtuais.
Os pessimistas diriam que a música se desvalorizou. Isso não é mentira quando se leva em conta que artistas faturam cada vez menos com suas músicas e que a idéia de ganhar dinheiro fazendo música é uma ficção para 99% dos músicos e produtores. Por outro lado, uma quantidade absurdamente maior de gente agora pode ter acesso à essa música. Jogue sua produção no MySpace e, de repente, você pode ganhar fãs na Lituânia ou na Nova Zelândia, ficar conhecido e se apresentar por aí (o dinheiro hoje em dia está aí, nas apresentações).
E essa nova ordem caótica (que paradoxo hein?), onde definharam os movimentos em bloco, trouxe outra benesse: está tudo mais solto, menos xiita, menos militante, menos cercado por avisos de "isso pode e isso não pode". Hoje pode tudo. Ouvir White Stripes e "White Horse", ser indie e curtir Beyoncé, dançar funk carioca e cair num after onde o DJ toca Ricardo Villalobos, ser fã de drum'n'bass e rock'n'roll. É, sem dúvida, uma ótima época para gostar de música.
Quero estar vivo nos próximos 10 anos pra ver onde isso vai dar... Valeu aí pela lucidez Camilo!
Thank you.
;)