Lee Perry & The Upsetters - Blackboard Jungle Dub
O disco de 1973 que radicalizou a receita psicodélica do dub jamaicano
03.08.07 16:25
Ambição, oportunismo, pobreza, sorte, acaso, ganância, ingenuidade, mercado musical frutífero e enriquecedor, lobbies de gravadoras formados em yards, muita maconha: estes são os elementos e este é o contexto em que se formou o dub jamaicano e um de seus principais álbuns, o clássico Blackboard Jungle, lançado por Lee "Scratch" Perry em 1973. Mas para situar a importância de Perry e de Blackboard Jungle para o ouvinte médio é preciso rebobinar a fita até 1967 e lembrar por que aqueles elementos todos formaram a pequena, rica e predatória indústria do dub e o próprio dub na Jamaica.
DO ACASO À REVOLUÇÃO
Em 1967, um DJ de Spanish Town chamado Ruddy Redwood tocou no sound system de seu patrão, Duke Reid, uma versão de "On the Beach", dos Paragons, que lhe fora entregue incompleta, sem os vocais. À meia-noite, horário de pico, ele a tocou duas vezes, a original (com vocal) e a versão instrumental. Foi um sucesso a massa cantou por cima e aprovou a idéia. Mestre do oportunismo e versado no jogo ligeiro das gravadoras, Duke Reid, amigo de Redwood, logo encomendou a este uma penca de compactos que, no lado B, teriam versões instrumentais das músicas do lado A. Numa audição posterior desta versão instrumental, Redwood estava com um camarada que, segundo ele, era muito esperto e tinha muito conhecimento técnico um tal de Osbourne Ruddock, mais tarde conhecido como King Tubby, um dos inventores do dub, logo contratado por Reid para explorar aquelas músicas instrumentais. A chegada de Tubby ao quintal de Reid representa o fim da primeira fase do dub a do acaso.
De 1967 a 1972, época que viu o rocksteady se transformar em reggae e o reggae em dub, a Jamaica chapou geral. Nasce o que se pode chamar de segunda fase o dub como produto musical principal. Com a suas características já um pouco definidas subtração parcial ou integral das vozes, acentuação da seção rítmica do baixo e da bateria, fatores que resultavam em balanços refinados e chapados, meio jazz, meio reggae, intercalados de efeitos (echo, phaser, delay e reverb) e manipulações de estúdio audaciosas coube a produtores como King Tubby e Lee Perry subverterem a fórmula que haviam consagrado já em centenas de singles.
DJs e engenheiros de estúdio já sedimentavam seus nomes como produtores, migrando dos sound systems para a mesa de produção dos estúdios o que antevia a noção de uso do estúdio como um instrumento integral, base dos produtores de música eletrônica de hoje. Entre 72 e 73, três álbuns foram lançados e disputaram entre si o título de "primeiro disco de dub da história": Aquarius Dub, do sino-jamaicano Herman Chin-loy; Java-Java Dub, mixado por Errol Thompson; e Blackboard Jungle Dub, creditado a Lee "Scratch" Perry. "Dos três, Blackboard... é, de longe, o mais avançado e mais experimental. E fez parte da primeira leva de álbuns de dub, isto é, foi a primeira vez que as versões dub dos lados b foram reunidas em álbum", analisa o DJ e pesquisador carioca Chico Dub.
NARRATIVAS DA SELVA
Uma aula de técnica e (re) mixagem, Blackboard Jungle Dub foi o disco que lançou o dub definitivamente ao espaço. Ao contrário de Aquarius Dub e Java Java Dub, discos excelentes, mas ainda acanhados e minimalistas, Blackboard... é uma mandala canábica-espiritual que sincretiza, como quem não quer nada, estética de filme de terror, cultura pop de Terceiro Mundo, descendência afro e religiosidade rasta.
A começar pela faixa de abertura, "Black Panta", enfronhada em sua própria selva de flautas hipnóticas e portas se batendo. Trata-se de uma criação única e excêntrica saída das sessões instrumentais dos Upsetters, a banda que Perry escolheu para seu estúdio e a qual mantinha sob sua orquestração mental. Ao mesmo tempo, para nomear o álbum e ser uma mensagem de abertura, Perry surrupiou a frase "Welcome to blackboard jungle" do título de um filme americano e transformou sua mensagem, um pouco banal, em uma profunda aventura pela selva negra do dub, que contou com um toque mágico na mixagem.
Nenhuma outra faixa tem o mesmo grau de radicalização de "Black Panta", que muito provavelmente é uma criação apenas conceitual de Perry. Mas Blackboard Jungle é, na verdade, um esforço conjunto de pelo menos dois gênios: Perry, obviamente, e King Tubby, que não ganhou crédito por sua participação. A limpidez de sua mixagem cristalina e envolvente, que atenua cores e prismas psicodélicos, pode perfeitamente ser sentida em "Drum Rock", remix holográfico de "Fever" (do cantor Júnior Byles, que a Madonna "regravou") em mais um momento de experimentação ousada.
Além de contar com a engenharia de som primorosa de Tubby, Perry enfeitou seu brinquedo com a presença do toast perfeito e seguro de Dillinger, um dos maiores DJs da Jamaica na época, que também não ganhou crédito algum. Pena, pois seu proto-rap em "Dub Organiser" aquece uma pista de dub até hoje. Em seus dois lados, com versões de versões, cut-pastes inacreditáveis, inventando o remix definitivo, Blackboard Jungle Dub é a fotografia da hora em que Perry e Tubby partiram da ambição, da ingenuidade, da mais profunda sujeira e pobreza, para pirar e revolucionar.