Vários - After Dark
Compilação do selo Italians Do It Better resgata a italo-disco dos anos 70
03.08.07 23:15
Mike Simonetti, DJ de Nova Jersey, lançou uma peculiar compilação com cinco artistas baseados na italo-disco do fim dos anos 70 e começo dos anos 80. É o soturno After Dark, que propõe uma leitura noir das espacialidades européias de Giorgio Moroder e afins.
O álbum marca o lançamento do selo Italians Do It Better, novo foco de releases vintage (sem revival fácil, por favor). Para tanto, buscou-se cinco bandas: o quarteto electro italiano Mirage; o proeminente grupo de underground-pop Glass Candy, de Portland, e sua banda-irmã Chromatics, de Seattle, a mística cantora texana de sangue árabe Farah e Professor Genius, DJ e produtor de Nova Jersey.
Todas as faixas de After Dark são novidades dessas bandas e sem dúvida as faixas que eles melhor produziram, apesar do relativo sucesso (bote relativo nisso) em metiês musicais restritos. Caso do Glass Candy, que antes era uma versão 2000 do Blondie e agora abre uma compilação em tempos de space disco com "Rolling Down the Hills (Spring Demo)", faixa com chiado de vinil, trompetes em sopro primaveril numa canção onde os vocais da loiríssima Ida No são nostálgicos, derretidos. Abre o disco dando um falso otimismo. O "vinyl crack", aliás, compõe bem também "In The City", do The Chromatics. Essas duas bandas, quase irmãs, pegam elementos da sensualidade do Roxy Music o transformam numa frustração sonora de quem mais do que gosta de curtir uma fossa, a vive de maneira romântica, quase devota.
Em "Hands In The Dark", outra do Chromatics, surge a essência obscura do disco, música melancólica com pretensa roupagem pop. Há uma certa sensualidade reprimida, um cabaré vagabundo com lâmpadas piscando (os plins estelares da faixa), com uma puta entediada que poderia ser tanto as dançarinas do clipe "Ultra" (Depeche Mode) quanto Natalie Portman em Perto Demais, a repetir o vocal melosamente por toda a eternidade.
A levada minimalista do álbum, um over and over and over de preguiçosos synths italo-europeus, transformaram o hino boa vida "Last Night A DJ Saved My Life", aqui remixado pelo Mirage numa introspecção animada mas com limite, porque se o DJ pode ter mudado a sua vida numa noite, você na real já recorreu a essa fórmula bastante e ela deixou de ser solução definitiva há tempos. Alguém falou em sexo e drogas? Aqui na terceira faixa você já assumiu que seu hedonismo é pura fossa niilista e sua vida definitivamente não tem sentido.
Mas como essa é uma constatação dopante, você segue ouvindo e esbarra em "I don't care, I don't care" robóticos, explicitamente kraftwerkianos de "Lady Operator", também do Mirage. A Itália é o charme harmônico e imagético dessa compilação, mas o conformismo inorgânico alemão vem a calhar. Tanto que o Glass Candy, um "lolitismo" eletrônico que nos seus primórdios brincava de rock inofensivo, teve a deliciosa pachorra de regravar "Computer Love" do quarteto de Dusseldorf.
INTERLÚDIOS
Tudo em excesso dá ressaca, e a introspecção repetitiva do álbum esbarra na paranóia Detroit 8-bit de Professor Genius e sua "La Grotta (Demo)", pentelha na sua concepção e nos seus longos seis minutos e meio. Na música, videogames são chatos se não forem bem fundidos com outros elementos.
Momentos mais alegres de Glass Candy (a linda e aguda "Miss Broadway") e dos italianos do Mirage (na space disco - de novo - detroitiana de "Lake Of Dreams"), fogem da repressão até então insistente no álbum, mas possuem passagens, interlúdios de neurastenia sombria. E até mesmo Glass Candy, com sua consistência pop, seu carisma, acaba falando de suicídio na disco nipônica minimal "The Chameleon".
Hora boa para destacar o lado étnico do álbum: a texana Farah, uma misteriosa cantora que explica como as coisas são em "Law Of Life", em refrões lidos numa base espacial: "tortura e destruição, fome no mundo, porque a vida é um mistério", coisas do tipo misturada em mantras turcos ou persas, algo assim, meio bizantino. "Dancing Girls [Suite 304 Demo]" segue a mesma tendência, mas Farah aqui descreve o que a música a faz sentir. Menos discurssada, essa faixa tem ao menos um refrão mais melódico.
A compilação mistura bem características comuns entre os artistas, boa sacada mercadológica e midiática para se lançar um selo - o álbum é "best new music" há um mês na home do Pitchforkmedia. Mas o forte aqui é a referência clara (e louvada), além do êxito em conseguir misturar elementos paradoxais como italo-disco e pop depressivo.