O jeito de se fazer e ouvir minimal está em constante mutação a partir da inquieta cena alemã. Mas a crueza dos beats digitais não está fazendo mais a festa sozinha. Por traz do sucesso de selos minimalistas que cresceram nos últimos meses, como Dial, Liebe*Detail e Mobilee, estão credenciadas as imponentes melodias do Detroit techno. Os timbres orgânicos dos pioneiros têm se notado mais e mais evidentes entre as distorções e dissonâncias da molecada. O espírito emotivo da deep house mais clássica, de Chicago, está forte após o maximal de clicks.
A hipnótica e calórica linha de baixo do começo dos anos 90 tem caído como uma luva na crueza dos anos 2000. Os climões dos papais Larry Heard e Kerri Chandler fluem em sets de gente como Ellen Allien, Ripperton e Simon Baker. E os pioneiros americanos continuam fazendo seu "som positivo e puro", como gostam de falar, praticamente como sempre fizeram. Mas estão voltando com força, enamorados com o minimal alemão e a nova geração - através de remixes, parcerias e constante troca de influências musicais.
A extensa matéria "Germany Goes Deep", publicada há um mês no semanário
Resident Advisor, já deu a letra. "Eles não soam exatamente como seus antepassados americanos, mas uma nova leva de produtores de deep house está causando por toda Europa", são as primeiras palavras do texto escrito pelo irlandês Ronan Fitzgerald, colunista mensal do
RA, DJ e jornalista. Em recente passagem pelo Brasil, o trio alemão My My constatou em entrevista para o
rraurl.com que "em Berlim e em outros lugares é possível observar que está havendo um movimento de volta à deep house e ao techno purista".
NADA SE COMPARA A LARRY HEARD"The Sun Can't Compare", hit acid, soulful, retrô e futurista do senhor Larry Heard, saiu discretamente no ano passado e em 2007 está pipocando na Europa: no CD
Fabric 34, mixado por Ellen Allien; na compilação
Get Lost 2 - Jamie Jones, do celebrado selo inglês Crosstown Rebels, e em outra famosa coletânea, a
Body Language, do electro-houseiro Get Physical. Larry Heard cai como uma luva nesta última, que é cheia de climas e foi comandada pelo jovem alemão Dixon.
O incomparável Larry Heard

Responsável pelo incrível selo Innervisions ao lado da dupla Âme, Dixon é um dos que mais tem injetado o soul americano em Berlim, com suas produções e mixagens. "Como você se inspira se todo mundo em sua volta faz a mesma música? Berlim é uma cidade do techno, é um pouco difícil pra mim mas por outro lado me torna mais especial. Sou feliz porque nem todo mundo tem o mesmo gosto que eu. Eu não ligo se novas gerações clubbers estão ou não preparadas para este feeling mais clássico. Eu sempre olho pra dentro de mim e reflito, e não para fora. Todos os DJs deveriam ter isso em mente e fazer o que sentem e não o que os outros sentem", filosofa o alemão deep.
"Muito dos DJs de minimal vieram da house, fale com Ricardo ou Luciano. A house passou por diferentes fases todos estes anos, mas ficou muito minimal nos últimos três. O fato de que muitos DJs que tocaram minimal house nos últimos anos estão indo mais perto da deep house é uma progressão natural. Depois de um tempo, você enjoa da mesma música", completa, em espírito discreto.
FIGURÕES LENDÁRIOSDe sonoridades bem menos puristas que Dixon, o produtor grego de 22 anos Argy, que tem passagem pelos minimais Raum Musik, Cocoon e Morris Audio, foi parar recentemente no time do selo Deeply Rooted House. Isso mesmo, a casa do DJ Deep, que investe com força desde 2004 em inéditas de figurões lendários como Mr. K-Alexei e o já citado Kerri Chandler.
Argy é da nova leva

"Kerri é demais, sempre o mesmo, mas porque mudar? É uma honra participar do selo, especialmente porque tive um ótimo feedback com a faixa 'The Storm'. O selo vai apostar mais neste perfil no ano que vem", conta o garoto Argy com exclusividade para o
rraurl.com. "Considero a cena do minimal como uma cena progressiva. Uma cena de mente aberta, na qual artistas não têm medo de experimentar e juntar estilos. Chicago, deep e minimal são influências para todo mundo, mas a nova cena de deep house está renovada e tem algo que é só sua", aposta Argy.
O minimal-head Loco Dice também passou a dialogar recentemente com americanos tradicionais da deep house. Loco remixou "Son of Raw", faixa de 2005 de ninguém menos que Denis Ferrer, o nova-iorquino conhecido pelas referências afro. Não é novidade apenas para Loco Dice. Esta foi a primeira parceria minimalista de Denis Ferrer, que sempre andou bem aconpanhado de houseiros. O nigeriano Jerome Sydenham, seu colaborador mais antigo, também anda chamando atenção no circuito. O seu
Brokeback EP foi o "single da semana" em matéria no novo portal interativo da loja Beatport.
MINIMAL DEMAISPara o produtor top-eclético dos ultimos dez anos King Britt, que também tem um pé nas raízes da África, "às vezes, o minimal é minimal demais", brinca. Tudo a ver com as pistas deste momento na Europa, sob a inédita alcunha The Nova Dream Sequence, ele lançou há um ano o disco possivelmente mais "freaky' e experimental de sua carreira, "Interpretations" (Compost Records).
O filho da prolífica Filadélfia experimentou de forma introspectiva diversas possibilidades eletrônicas do Detroit techno com seus pitacos orgânicos e sensuais em 15 faixas. "Sempre quero expor a música boa e sua história. Amo minimal com soul. Audion, Swim, Basic Channel, todos eles têm soul. Costumo tocar na Alemanha com o Jazzanova, mas não sei exatamente como tá rolando essa cena de minimal e deep house lá. Muitas cenas vêm e vão, e a questão principal é o quão longe a tendência vai", disse ao
rraurl.com no papo por e-mail.
Sob a filosofia de lançar o que há de mais interessante na música contemporânea, a Compost também tem investido de vez em quando em um minimal diversificado. Mais conhecido na cena de nu jazz e house, o ótimo selo de Munique tem encomendado remixes de Ripperton, Robag Wruhme e abrindo alas para proeminentes produtores como Jean-Paul Bondy e o duo Shahrokh SoundofK. Além do seu selo coligado Sonar Kollektiv, vale prestar atenção no brilho dos amigos suíços da Drumpoet Community.