Vários - Sunkissed
Coletânea revela o creme da space disco produzida nos fiordes noruegues
12.09.07 19:30
Tenha "don't believe the hype" na mente, mas fuja do simplismo anti-hype. Tudo que nasce (e some) num estrondo, criado com uma ansiosa aura de sensação do momento pode esconder oportunismo, ignorância e marketing puro. Mas vá além do óbvio, do que é entregue no fast food da engrenagem da música alternativa e descubra o entorno de um falatório, porque muitas vezes ali se encontram verdadeiros talentos, fatos diversos e o principal, música de boníssima qualidade.
É o caso de Lindstrøm e Prins Thomas, dupla norueguesa que tirou o mofo de Giorgio Moroder e remexeu a tumba de Patrick Cowley, reis das sonoridades espaciais dos anos 70/80, as versões originais da famosa space disco. Uma coletânea lançada no começo desse ano ajuda a mostrar que há muito mais entre o céu e os fiordes do que supõe a vã filosofia de mais um neo-gênero (já ouvi falar até de neo-Detroit!). É a compilação Sunkissed, lançada pelo selo Smalltown Supersound, de Oslo, e mixada por G-Ha & Olanskii. O disco tenta resumir em 16 faixas, em sua maioria de artistas escandinavos, o espírito da festa homônima Sunkissed, uma das mais concorridas da capital norueguesa.
Sunkissed mostra competentes músicos indo além da space-cosmi-neo disco, pois, como qualquer boa música eletrônica de hoje, são inúmeras as características dispersas em cada faixa, o que dificulta rotulações: cowbells, tecladinhos, etnicismos, guitarras, breaks e por aí afora.
SAGA NORUEGUESA
Essa fábula viking clubber começa indo do big beat "Candelighted (Komische Remix)", quase um interlúdio de Chemical Brothers da banda Serena-Maneesh, ao clima chill de "Whistling in Tongues" do sul-africano Felix Laband, remixado por Todd Terje - um deep house crepuscular que faz jus ao nome do disco, delineado por beats étnicos direto de Bangcoc, gaivotas e sussurros entre chibatadas. Para derreter, a melhor faixa do disco.
Adiante, bongôs houseiros dividem as atenções com breaks nas faixas de Bjørn Torske e DiskJokke, nomes da nova safra, e na deep e sintética "Sandoz", de Blackbelt Andersen. E, como prova de que cowbells transformam faixas em hits potenciais, "Brownbred (Kango's Stein Massiv Remix)", de Wekan, joga acidez nessas vaquinhas.
Momentos space disco em "54b (Rune Lindbæk Holloway Miks)", de Mudd, com seus banjos setentistas e melodia em violino, construção folk quase cafona com cara de fórmica dos anos 70. E, na seqüência, um exemplo de como a space disco trabalha com esplendor as paradinhas da house music: "Kapteinens Skjegg", a segunda faixa de Bjørn Torske no álbum, tem três bases: uma no fundo pipocando plins e estrelinhas, outra com o BPM baixo e a última com um baixo a la "Flat Beat" fazendo melodias com o ritmo. Aí entra um assobio Frankie Knuckles e você ganha o dia.
BOATE
Tanta contemplação dá lugar ao clima de boate na meio-electroclash meio-pistão industrial "Kosmetik", de Magnus International, e no xaxado space disco de "Psycho Piano", da Crue-L Grande Orchestra remixada por Prins Thomas Diskomiks, nova alcunha do Príncipe Thomas. E Lindstrøm, atração do TIM Festival, chega e solta um bate-cabelo bongô caipira em "A Blast Of Loser", remixado pela curiosa dupla de downtempo Mungolian Jet Set. 50 coroas norueguesas para quem adivinhar o sample cinematográfico dessa faixa.
E a medalha de prata de Sunkissed vai para o remix clap-clap do Mental Overdrive para "Come Out, Come Down, Fade Out, Be Gone", da banda de rock psicodélico 120 Days, um Rapture escandinavo, existencialista (cujo próximo disco será produzido pelo Lindstrom).
No final, mais deep house ("Haribo", de Erot), outro remix fanfarrão faroeste de Lindstrøm (para "Do Worry", da velha banda belga de electro-pop Telex). Mental Overdrive reaparece com o funk big beat "Originial Material". E tudo desboca no delta soul de "Original Highway Delight", do grupo anglo-catalão Lsb remixado pelo Mungolian Jet Set. Guitarras de New Orleans e vocais a la Billy Paul animam a track de batidão ácido.
CONEXÃO OSLO
É fato que Itália e Escandinávia foram os recantos onde a disco sobreviveu à new wave dos anos 80. De modo que a região, com sua economia abastada e intenso desenvolvimento, tem uma das indústrias fonográficas mais potentes do mundo (Suécia: de Abba a The Knife, o dance e o indie do terceiro maior exportador mundial do pop; Islândia = Björk e Sigur Rós; a Finlândia do metal melódico e de Jimi Tenor; e Trentemoller e Junior Senior na Dinamarca).
Agora é a vez da Noruega, que a duas horas de Londres e três de Berlim, dilata o epicentro cultural europeu justamente com esse viés (neo)setentista. Se numa hipérbole Oslo será a Ibiza do norte, é fato que a space disco mirou os olhos do mundo clubber para o país nórdico revelando talentosos produtores e uma prolífica vida noturna e cultural, além de timing para capitalizar: a Sunkissed existe há sete anos e só agora lançou essa ótima compilação. Quando o talento encontra a visibilidade, o hype simples deixa de existir e dá lugar ao sucesso legítimo.