Ou como uma viagem de pacote turístico mudou os rumos da música mundial.
Em agosto de 1987, quatro DJs ingleses foram passar férias em Ibiza. Certa noite, Paul Oakenfold, Danny Rampling, Nicky Holloway e Johnny Walker acabaram no clube Amnesia, onde o residente era o DJ argentino Alfredo. Lá, acabaram experimentando uma droga para eles desconhecida, mas que já circulava em ambientes restritos como baladas gays, o povo do Osho e popstars com boas conexões.
A bala bateu. A discotecagem de Alfredo, misturando house de Chicago, remixes club de artistas pop como Cyndi Lauper e Madonna, indie rock tipo Woodentops, costurando diferentes climas e sonoridades, passou a fazer muito sentido. O local era uma casa de fazenda cercada de bela paisagem, com a pista a céu aberto e as pessoas eram uma mistura de jet setters hedonistas, freaks da ilha, gurus indianos e aventureiros europeus de todas as partes. Não havia tensão nem recriminação no ar, espontaneidade e tolerância eram totais. A balada começava às três da manhã e ia até o meio-dia. Os quatro tiveram uma epifania, uma revelação daquelas onde o céu se abre e as coisas se encaixam de maneira nunca antes imaginada, mas fazendo total sentido.
A DURA VIAGEM DE VOLTADepois de algumas outras baladas no Amnesia, veio a dura viagem de volta à Londres. Naquele tempo, a cena de clubes na Inglaterra era movida a muito hip hop, funk dos anos 70 e resquícios da fase alternativa/gótica. Havia muita pose, "dress code" e carão. Aliás, no mundo inteiro era assim: os clubes dos anos 80 eram lugares de introspecção (dançar virado para a parede), de cara fechada ou de pegação. Nem todos, claro, mas essa era a norma.
Os quatro retornaram com uma missão na cabeça: levar a nova "palavra", ou seja, aquele clima de espontaneidade, soltura e euforia, para a noite londrina. Johnny Walker descreveu o espírito ao
Guardian recentemente: "As férias não terminaram. A gente se divertiu tanto que só queríamos continuar. Foi assim que tudo começou."
Flyer do Shoom

Paul Oakenfold iniciou o pequeno clube Spectrum, no sul de Londres, e Danny Rampling abriu seu Shoom (cujo nome era uma gíria para quando o ecstasy bate). Eram clubes pequenos, mas que, em poucos meses, tinham filas dobrando a esquina (segundo Rampling contou ao
Guardian, "no começo eram 50 pessoas, depois tínhamos duas mil do lado de fora)". Em pouco tempo, as coisas subiram para um novo patamar: Nicky Holloway abriu o The Trip no centro de Londres, bem maior. Já Oakenfold lançou o Future em 1988, muito mais amplo que o Spectrum, e sempre lotado.
TUDO NOVO NA BALADAEm questão de meses, a acid house, um novo som, uma nova atitude, uma nova maneira de ouvir música na pista de dança, um novo jeito de sair na balada, acompanhada por essa nova droga, tinha se disseminado pela Inglaterra feito doença. A pose, o carão, o dress code, o ato de "sair para pegar alguém", de repente, tinham virado coisa muito antiga. O nome "acid house" derivava de um estilo de Chicago caracterizado pelo uso da TB 303. Mas o nome que unia dança e lisergia era bom demais para ser apenas uma definição de gênero. Foi rapidamente adotado para descrever o movimento como um todo.
Em 1988, as paradas inglesas viveram cheias de faixas ligadas à acid house. Coisas mais pop como S'Express e Bomb the Bass, mas também hinos underground como "Can You Party", de Todd Terry, e "Voodoo Ray", de A Guy Called Gerald. Eram músicas que não tocavam na rádio, mas os milhares de novos clubbers as conheciam de trás para frente, graças às pistas e às rádios-pirata.
"Suck me off/Suck me off"

O que teria acontecido sem a ação desses quatro? A house music já rolava em vários clubes ingleses, mas sem ter muito impacto e sem contexto. E, é claro, o Hacienda de Manchester já vivia seu próprio terremoto, assim como clubes bem alternativos em Chicago e Nova York piravam de uma nova maneira também, mas o fato de Shoom e companhia terem rolado em Londres fez toda diferença. Londres era o centro da indústria fonográfica britânica, o centro da mídia (onde revistas como
The Face e
i-D direto abriam capas para o novo fenômeno) e só aqui a acid house poderia ter se projetado e se tornado tão influente como foi. Tão influente que vivemos nas suas reverberações até hoje. A próxima vez que você for sair pra ver um DJ tocar e levantar o braço empolgadamente com vários outros na pista, agradeça à famosa viagem de Ibiza em agosto de 1987.
"Aquela viagem foi tão forte. Ficamos deslumbrados com tudo aquilo. Às vezes na vida, e isso me aconteceu um par de vezes, é simplesmente o lugar certo e a hora certa," resumiu Oakenfold.
O que ouvir então do fenômeno acid house? Melhor dividir em três partes: o som eclético de Alfredo; o estilo originário em Chicago, que acabou dando seu nome ao fenômeno como um todo; e os hits de pista da época, que não eram acid house enquanto estilo, mas representam totalmente o movimento.
A MÚSICA 1: O SOM BALEÁRICO DE ALFREDONessa época, começou a se falar muito em "balearic beat". "Balearic" vem de Ilhas Baleares, o conjunto composto por Majorca, Menorca e Ibiza. A discotecagem eclética, ensolarada e empolgante de Alfredo misturava coisas bem díspares, desde o ambient de
Manuel Gottsching em "E2-E4", Chicago house, pop mediterrâneo tipo "Jibaro", de
Electra, faixas canastronas como "City Lights", de
William Pitt e indie rock como "Why, Why, Why", do
Woodentops.
Nova coletânea de Alfredo

Foi esse lado mais pop/rock que acabou sendo chamado de "balearic beat", na verdade, um termo que designa mais uma atitude na discotecagem do que em gênero em si. Apesar de que, com o passar dos anos, "balearic beat" acabou ficando mais próximo de um gênero musical, caracterizado por ritmos eletrônicos suaves, atmosfera lânguida e melodias de bem com a vida. Faixas como "Barefoot in the Head", do
A Man Called Adam, "Sueño Latino", do
Sueño Latino, "Flotation", do
The Grid e "Snappiness", do
BBG.
Duas coletâneas históricas que dão uma geral nessa vibe são
Balearic Beats Vol. 1 The Álbum, pela FFRR, e
Classic Balearic, pela Mastercuts. Para celebrar os 20 anos da "viagem para Ibiza", a Ministry of Sound acaba de lançar
Alfredo The Original Sound of Ibiza (com um disco mais "baleárico" e outro de house e acid).
A MÚSICA 2: O SUB-GÊNERO DE CHICAGOEm 1987, três jovens produtores de Chicago, DJ Pierre, Spanky e Herb J, coletivamente conhecidos como
Phuture estavam fuçando num sintetizador bem particular. Seu nome era TB 303 e ele tinha sido lançado pela Roland no começo dos anos 80 para fazer linhas de baixo sintéticas para acompanhar guitarristas. Não deu certo e o aparelho saiu de linha. Até ser ressuscitado pelos três produtores na faixa "Acid Tracks", pouco mais de 11 minutos de uma batida seca onde a TB 303 se contrai, retorce, abre e fecha, criando um resultado altamente psicodélico. O sucesso da bizarra faixa abriu os portões para centenas de discos de Chicago usando a TB 303, muitos bem melhores que "Acid Tracks".
São músicas como "Land of Confusion", de
Armando, "Lack of Love", de
Charles B, "Where's Your Child?", de
Bam Bam, "This Is Acid", de
Maurice, "Acid Over", de
Tyree, "Acid Thunder", de
Fast Eddie e "Machines", de
Laurent X. Os ingleses também deram sua contribuição em lançamentos como "Oochy Coochy", de
Baby Ford, "Voodoo Ray", de
A Guy Called Gerald, "Stakker Humanoid", de
Humanoid, e o EP
New State, do
808 State.
O phuturo estava aqui

A sonoridade caiu como uma luva na nova geração de clubes ingleses. Logo se escutariam TBs até em remixes para Pet Shop Boys e Erasure. A partir daí, a música eletrônica e a maquininha viraram caso de amor eterno. Tem muitas coletâneas que saíram ao longo dos anos, mas dois bons pontos de partida são:
Classic Acid House, que saiu pela Mastercuts na década passada, e
Acid - Can You Jack? Chicago Acid and Experimental house, pela Soul Jazz.
A MÚSICA 3: OS HITSDe cara os quatro maiores hits de 1987/88 foram: "Theme From S'Express", do
S'Express, "Beat Dis", do
Bomb the Bass, "Pump Up the Volume", do
MARRS e "The Only Way Is Up", de
Yazz & The Plastic Population. Bem pop mesmo, mas ainda assim, dignas representantes do novo movimento no topo das paradas.
Foram muitos outros sucessos: "We Call It Acieed", do
D-Mob, "The Party", do
Kraze, "Can You Party?", do
Royal House (Todd Terry), "A Day In the Life", do
Black Riot (Terry também), "No Way Back", de
Adonis, "Can You Feel It?", do
Mr. Fingers, "Big Fun", do
Inner City, "Heat It Up", das
Wee Papa Girl Rappers, "Rok Da House", com
Beatmasters e Cookie Crew, "House Nation", do
Housemaster Boyz and the Rudeboy of House, "I'll House You", dos
Jungle Brothers com Richie Rich, "Doctorin' the House", de
Coldcut com Yazz, "Bass (How Low Can You Go?)", de
Simon Harris…. a lista é extensa e as coletâneas, milhares.