120 Days
Filé norueguês in natura
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
120 Days
Banda faz releitura moderna do krautrock com niilismo nórdico
19.10.07 16:25
Há uma realidade nórdica longe do glamour space disco e da fofura indie do rock assobiado por gente lôra: o inverno. Dias sem luz solar, temperaturas de -20º C, neve e vento gelado do Círculo Polar Ártico são um promissor caminho para a depressão e o suicídio. Nesse contexto surge, longe de qualquer arpejo cafona da disco music, o cenário ideal para uma curiosa banda, o quarteto norueguês de krautrock 120 Days.

A história de Ådne Meisfjord e seus amigos é quase um roteiro pré-fabricado de filme de rock. Quatro jovens da bucólica Kristiansund, rincão pesqueiro de 17 mil habitantes ao norte da Noruega, cansam de tocar covers num bar local, juntam as economias e compram um trailer rumo à estrada para Oslo, a tão sonhada capital, centro de tudo que um jovem insatisfeito precisa.

Vivendo por meses estacionados na calçada entre drogas, pornografia e discos de Kraftwerk e Neu!, eles chamam em 2002 sua banda de The Beautiful People. Os primeiros teclados e sintetizadores são comprados e surgem pequenos shows e singles sugestivos - "Sedated Times" e "So This Is Suicide".

Depois de animar festinhas e clubes da cidade, a visibilidade cai do céu junto com convites para festivais ingleses e uma show na mesma tarde que Miss Kittin do Sónar de 2005. Na volta pra casa, um turning point: o selo Smalltown Supersound, a Domino Records da Noruega, os contrata, a banda muda de nome para 120 Days, lança álbum homônimo em 2006 e ruma para os EUA. Sucesso, electro-rock depressivo, vocalista sensibilóide cantando a morte.

KRAUT
Mas para que se crie um novo Kurt Cobain é preciso música revolucionária. E como o 120 Days, mesmo com uma tour japonesa e outra americana na bagagem, acabou de sair das fraldas de um primeiro disco, eles ainda terão que tomar muito Sustagen.
A banda é boa, tem personalidade e soa única. E por mais que se pense em Krautrock, a esquisita mistura de rock progressivo com experimentalismo eletrônico alemão, ainda tem o fator gótico-deprê dos anos 80 e um vocalista quase epilético de tão performático. Já ouviram falar de Ian Curtis?

Como se percebe no álbum 120 Days, a sonoridade ainda é difícil e, por mais que seja uma bela e criativa variante do já manjado rock eletrônico atual, não seria nesse nicho que a revolução musical seria televisionada mais uma vez, via BBC.

A longuíssima "I've Lost My Vision (Kraut nr1)" mistura riffs alegres em clima road movie com um tema soturno - cegueira. A alegria é bipolar, característica da felicidade química: "in trance I could dance, I could dance this night away"; "Sleepwalking" e "Sleepless Night" - insônia!; e o prazer de um sorriso na linda "Keep On Smiling", aquele clima The Orb de crepúsculo raver. Tudo processado no arpejo do sintetizador e na bateria eletrônica bem dançante, a guitarra como um elemento extra de ruído, dez, onze minutos de faixa.

AUTISTAS
120 Days e Lindstrom em estúdio
120 Days e Lindstrom
E o vocalista Ådne Meisfjord? Berros longos e gogó grosso, meio grunge, um paradoxo à sua figura andrógina. Na Internet sobram críticas ao show dos caras: " banda esquisita, distante, barulhenta, estranha. "Eles dão o máximo de si, mas é mais uma performance do que um show. Não parece real, eles não estão ali. Os caras ficam tão imersos no mundo estranho que é a música deles que parece um grupo de artistas autistas talentosos tocando no porão de casa", comenta Frank Johnson, holandês de 22 anos que os viu em Roterdã e no fim das contas comentou no last.fm que a música soa melhor no CD do que ao vivo.

É uma banda a se atentar, em breve sai novo álbum produzido adivinha por quem? Hans-Peter Lindstrom. É o palco pronto para nascer um mito, quem sabe: de fundo, uma cena local alternativa em destaque, bons artistas jovens e inexperientes com tanque cheio para criar uma história de rostos bonitos, existencialismo barato e atitude visceral, tão intensa quanto a capacidade de angariar fãs e críticos impacientes.

Só falta o suicídio mesmo, ou a pretensa vontade de mudar o mundo a la Bono Vox, para que o 120 Days chegue lá. Lá aonde, ninguém sabe. MTV? Outro Nevermind? Um novo (sub)sub-gênero? O deus Thor da tristeza? Ou pode ser que eles tenham 15 minutos de atenção e morram no ostracismo, o mais provável de acontecer nessa máquina de criar mitos que é a música pop.
MP3
Flash Content
120 Days - Sleepwalking (mp3)

Flash Content
120 Days - Keep On Smiling (mp3)

Flash Content
120 Days - I've Lost My Vision (Kraut nr1) (mp3)


Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
it's like the 60s, with no hope
comentários
Gil B.
Gil B.(23.10.07)
0AprovadoQueima
não sai do meu playlist! especialmente aquele especial de domingo! :)
Jade Augusto Gola
0AprovadoQueima
pois é, o selo é bom. to viciado nas tracks do Bjorn Torske.

http://www.discogs.com/release/931989
Leandro Filippi
Leandro Filippi(21.10.07)
0AprovadoQueima
depois da sua resenha pro sunkissed, fui caçar o som de algumas figurinhas da smalltown, o álbum do 120 day tá aqui só esperando a audição. é o selo que está me fazendo feliz no momento, com the whitest boy alive e tussle.
Psycho
Psycho(19.10.07)
0AprovadoQueima
120 Days - "120 Days" (10/2006)

Tags: hypnotic, atmospheric, synth-rock.

Descrição bizarra: "New Order synths doppler over Kraftwerk's motorik throb. Primal Scream's propulsive electro-rock tangles with Neu!'s gridded tableaux". (www.pitchforkmedia.com)

Tradução: Electro-rock norueguês (sim, mais um!), hipnótico e denso, também conhecido por "o que James Murphy (LCD Soundsystem) faria após passar uma semana em uma rave psicodélica e outra em casa se recuperando à base do krautrock de NEU!".
Jade Augusto Gola
0AprovadoQueima
FePa, aqui é Radar, não resenha. Quis contar a trajetória dos caras, quem está falando em hype é você. A exposição que eles tiveram - hype, seja lá como for -, fez com que eu conhecesse o som da banda, que é do caralho. Simples assim...
 
 proximos