Há uma realidade nórdica longe do glamour space disco e da fofura indie do rock assobiado por gente lôra: o inverno. Dias sem luz solar, temperaturas de -20º C, neve e vento gelado do Círculo Polar Ártico são um promissor caminho para a depressão e o suicídio. Nesse contexto surge, longe de qualquer arpejo cafona da disco music, o cenário ideal para uma curiosa banda, o quarteto norueguês de krautrock 120 Days.
A história de Ådne Meisfjord e seus amigos é quase um roteiro pré-fabricado de filme de rock. Quatro jovens da bucólica Kristiansund, rincão pesqueiro de 17 mil habitantes ao norte da Noruega, cansam de tocar covers num bar local, juntam as economias e compram um trailer rumo à estrada para Oslo, a tão sonhada capital, centro de tudo que um jovem insatisfeito precisa.
Vivendo por meses estacionados na calçada entre drogas, pornografia e discos de Kraftwerk e Neu!, eles chamam em 2002 sua banda de The Beautiful People. Os primeiros teclados e sintetizadores são comprados e surgem pequenos shows e singles sugestivos - "Sedated Times" e "So This Is Suicide".
Depois de animar festinhas e clubes da cidade, a visibilidade cai do céu junto com convites para festivais ingleses e uma show na mesma tarde que Miss Kittin do Sónar de 2005. Na volta pra casa, um
turning point: o selo Smalltown Supersound, a Domino Records da Noruega, os contrata, a banda muda de nome para 120 Days, lança álbum homônimo em 2006 e ruma para os EUA. Sucesso, electro-rock depressivo, vocalista sensibilóide cantando a morte.
KRAUTMas para que se crie um novo Kurt Cobain é preciso música revolucionária. E como o 120 Days, mesmo com uma tour japonesa e outra americana na bagagem, acabou de sair das fraldas de um primeiro disco, eles ainda terão que tomar muito Sustagen.
A banda é boa, tem personalidade e soa única. E por mais que se pense em Krautrock, a esquisita mistura de rock progressivo com experimentalismo eletrônico alemão, ainda tem o fator gótico-deprê dos anos 80 e um vocalista quase epilético de tão performático. Já ouviram falar de Ian Curtis?
Como se percebe no álbum
120 Days, a sonoridade ainda é difícil e, por mais que seja uma bela e criativa variante do já manjado rock eletrônico atual, não seria nesse nicho que a revolução musical seria televisionada mais uma vez, via BBC.
A longuíssima "I've Lost My Vision (Kraut nr1)" mistura riffs alegres em clima road movie com um tema soturno - cegueira. A alegria é bipolar, característica da felicidade química: "in trance I could dance, I could dance this night away"; "Sleepwalking" e "Sleepless Night" - insônia!; e o prazer de um sorriso na linda "Keep On Smiling", aquele clima The Orb de crepúsculo raver. Tudo processado no arpejo do sintetizador e na bateria eletrônica bem dançante, a guitarra como um elemento extra de ruído, dez, onze minutos de faixa.
AUTISTAS120 Days e Lindstrom em estúdio

E o vocalista Ådne Meisfjord? Berros longos e gogó grosso, meio grunge, um paradoxo à sua figura andrógina. Na Internet sobram críticas ao show dos caras: " banda esquisita, distante, barulhenta, estranha. "Eles dão o máximo de si, mas é mais uma performance do que um show. Não parece real, eles não estão ali. Os caras ficam tão imersos no mundo estranho que é a música deles que parece um grupo de artistas autistas talentosos tocando no porão de casa", comenta Frank Johnson, holandês de 22 anos que os viu em Roterdã e no fim das contas comentou no last.fm que a música soa melhor no CD do que ao vivo.
É uma banda a se atentar, em breve sai novo álbum produzido adivinha por quem? Hans-Peter Lindstrom. É o palco pronto para nascer um mito, quem sabe: de fundo, uma cena local alternativa em destaque, bons artistas jovens e inexperientes com tanque cheio para criar uma história de rostos bonitos, existencialismo barato e atitude visceral, tão intensa quanto a capacidade de angariar fãs e críticos impacientes.
Só falta o suicídio mesmo, ou a pretensa vontade de mudar o mundo
a la Bono Vox, para que o 120 Days chegue lá. Lá aonde, ninguém sabe. MTV? Outro
Nevermind? Um novo (sub)sub-gênero? O deus Thor da tristeza? Ou pode ser que eles tenham 15 minutos de atenção e morram no ostracismo, o mais provável de acontecer nessa máquina de criar mitos que é a música pop.
http://www.discogs.com/release/931989
Tags: hypnotic, atmospheric, synth-rock.
Descrição bizarra: "New Order synths doppler over Kraftwerk's motorik throb. Primal Scream's propulsive electro-rock tangles with Neu!'s gridded tableaux". (www.pitchforkmedia.com)
Tradução: Electro-rock norueguês (sim, mais um!), hipnótico e denso, também conhecido por "o que James Murphy (LCD Soundsystem) faria após passar uma semana em uma rave psicodélica e outra em casa se recuperando à base do krautrock de NEU!".