Hot Chip: "Não sou hipócrita, também baixo música."
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Hot Chip: "Não sou hipócrita, também baixo música."
Às vésperas do show da banda no TIM, o vocalista Joe Goddard falou conosco.
24.10.07 22:05
O Hot Chip surgiu muito antes dos new ravers, lá pelos idos de 2000, das peripécias musicais de dois amigos, o baixinho quatro-olhos Alexis Taylor e o "urso" Joe Goddard, jovens londrinos dos vinte-para-trinta e poucos anos, crescidos ao som do pop-soul de Michael Jackson e Prince e do rock de Devo e oitentices de Duran Duran e afins.

A dupla que já é quinteto desde quando música se tornou sua principal atividade - lá por 2002, quando o contrato foi assinado com o selo Moshi Moshi e surgiram alguns EPs - apareceu para a vida de fato em 2004 com o calmo e etéreo Coming On Strong, uma mistura de soul, ambient e pop em bases 4x4, bem longe do arrastão electro característico da época. Mas foi justamente pelas vias do neo-electroclash da recente onda colorida da new rave que eles vieram a ganhar destaque, mais precisamente com o hit arrasa-quarteirão "Over and Over', que você já deve ter ouvido umas vinte vezes, over and over and over and over.

Esse é o principal single do segundo álbum, o elogiado The Warning (2006), uma direção mais ácida na linha fofa de uma pequena big-band cheia de maracas, palminhas, percurssões e sintetizadores, que os rumou estranhamente para o estrelato da onda new rave, talvez pelo mote da versatilidade em misturar dance music com outros gêneros. Bom lembrar que esse álbum fez sucesso também por baladinhas açucaradas como "Colors" e "Just Like We (Breakdown)" e por inúmeras turnês em festivais e anfiteatros lotados para ver a apresentação groovy e apoteótica, cheia de hits, desses ingleses esquisitos. Alexis Taylor, o baixinho primeira-voz de tons doces e harmoniosos é a primeira imagem que pode vir à cabeça da banda. Mas é Joe Goddard, o gordão prolífico e bem-humorado, o maestro por trás das composições do Hot Chip, uma das estrelas do TIM Festival desse ano (eles tocam dia 26/10 no palco Novo Rock UK, no Rio de Janeiro; dia 28/10, no Arena Skol Anhembi, em São Paulo e no dia 31/10, em Curitiba).

Foi com ele que o rraurl.com conversou essa semana, por telefone, de Londres, num papo curto e tumultuado, mas que rendeu bastante. Olha só.

Depois do sucesso de The Warning e de todo o falatório em torno de "Over and Over", qual é a expectativa para Made In The Dark? O álbum já está pronto?

Sim, está completamente pronto já faz duas semanas. Estamos ansiosos, esse álbum nos animou bastante e achamos que é melhor que o The Warning. Ele será mais dançante, por um lado mais roqueiro. Tem uma alma muito barulhenta e outra mais calma com boas canções pop, músicas bem grudentas mesmo. Teremos alguns bons singles e algumas baladas bem calmas.

Esse lado mais rock'n'roll é fruto de um acréscimo de guitarras? Ou mais por uma atitude mais nervosa da banda?

É o som que está mais agressivo. Nós trabalhamos mais como uma banda de rock mesmo, tivemos mais instrumentos e intervenções no estúdio e o resultado foi uma postura mais pesada, menos gentil. É mais intenso, poderoso, menos gentil, e isso é perceptível, mais do que a atmosfera de pista de dança, que sempre foi uma característica principal da banda.

Bem, se o álbum já está pronto, não deve demorar muito a vazar na Internet. O que você acha disso? A banda tem uma preocupação forte de não deixar vazar as músicas antes do tempo?

Eu imagino que isso vai acontecer logo e não seremos nós que vamos impedir (risos). Mas a EMI tem pessoas responsáveis por cuidar disso, eles mandam as músicas apenas em streaming na hora de divulgar para jornalistas, por exemplo. Só que é certo que vazará, não há mais como impedir isso.

Não acho que atrapalhe, nossa preocupação é com vendas mas na real é bom estar na Internet porque é promoção de uma maneira global, no mundo inteiro as pessoas já começam a baixar os álbuns antes da hora. Isso aconteceu nos nossos outros álbuns e não precisamos ficar tão assustados com isso, principalmente porque o Hot Chip faz outras coisas além de álbuns: remixes, DJ sets, shows. E não quero ser hipócrita, eu também faço download de música na web.

Qual foi o último álbum ou música que você baixou?

Foi ontem, eu baixei o novo álbum do Wu-Tang Clan num blog ou no site de uma revista - eu não me lembro bem.

(N. do A.: Previsto para ser lançado dia 11 de dezembro, 8 Diagrams é o quinto álbum do famoso grupo nova-iorquino de hip hop, que não lança um compêndio de inéditas desde 2001)

E O TOM ZÉ?
É a primeira vez do Hot Chip por aqui. Estão animados? E o que vocês conhecem da música brasileira? No DJ Kicks - Hot Chip, "Cademar", do Tom Zé, é mixada com o (ótimo) single "My Piano".

Eu vi o Tom Zé ao vivo e gostei muito. A música brasileira tem uma reputação muito boa aqui [na Inglaterra]. Várias compilações da Tropicália foram lançadas agora, Os Mutantes vieram, as novas bandas - CSS e Bonde do Rolê -, as pessoas realmente têm interesse nisso tudo então os músicos sempre assimilam.

Quanto ao Brasil em si, a gente quer basicamente fazer bons shows e provar boa comida, bons coquetéis e o calor. Aqui em Londres está muito frio no momento e isso é um saco, como está o tempo aí?

Em São Paulo está chovendo, Rio eu não sei mas deve estar calor como sempre [N. do E. - está caindo o mundo lá, na verdade, Jade] e Curitiba é um pouco mais frio que as outras cidades. Mas para um inglês já deve ser quente o suficiente.

(Risos) É verdade. Mas basicamente é isso, somos turistas, talvez iremos a algumas festas.

Alguma chance de uma festa do Hot Chip com DJ sets?

Não sei, fomos contratados apenas para os shows, mas quem sabe algum promoter nos convença. Espero voltar em breve apenas para isso.

Como tem sido os seus sets nessa época pós-DJ Kicks? Você fez um post no blog da banda dizendo que se sentia velho porque tocou num clube e sentiu que todo mundo, ao contrário de você, queria ouvir techno.

Pois é, isso foi em Ghent na Bélgica. Não que eu não goste de techno, mas na maioria das vezes eu gosto de música mais tranqüila, diferentes tipos de sons. Acho que o tempo vai passando e o gosto muda, pode parecer uma crise mas é normal se sentir velho.

TUDO COMEÇOU COM DRUM'N'BASS
Me conte um pouco da sua trajetória clubber.

Eu sempre gostei de drum'n'bass quando eu era mais novo. Eu comecei a sair um tempo depois das raves já e caí direto no DB: Goldie e toda aquela música do Metalheadz realmente me fascinou por volta de 1996, 1997. Eu freqüentei muito um clube chamado Blue Note até que o UK garage aconteceu para mim e eu curti bastante, e depois a house, Daft Punk e Basement Jaxx como quase todo mundo. Hoje em dia gosto muito dos artistas da Kompakt, Gabriel Ananda, todos esses artistas do minimal techno.

Música brasileira, de novo. Coming On Strong tinha uma pegada soul forte e um pouco de bossa nova quase. "The Beach Party" e principalmente "Take Care" por vezes lembram até a entonação de Caetano Veloso, outro famoso cantor daqui.

Sim, pode ser, mas não foi algo que pensamos em construir. Era o clima mais chill desse álbum talvez. Mas já ouvi falar de Caetano, lembro dele naquele filme do Almodóvar [Fale com Ela], gostei bastante então vou levar isso como um elogio.

O quão pessoal são as letras de vocês? Em "Down With Prince" vocês parecem ironizar alguém, um amigo talvez, que só fala de Prince. E "Crap Kraft Dinner" fala de maneira melancólica da frustração sexual de alguém. ("All you can hear is my refusal / Because I haven't got the time for a jerk-off loser"; em português, "Tudo que você pode ouvir é a minha recusa/Porque não tenho tempo para um punheteiro fracassado")

Não são coisas reais que aconteceram de fato, mas as músicas são coisas relacionadas à nossa vida, isso não tem como não ser, eu acho. Por exemplo, no novo álbum as canções de amor são baseadas nas relações com as pessoas que amamos, uma o Alexis escreveu inspirado no casamento dele, então são emoções reais, mas não coisas explícitas sobre uma pessoa.

Na "Crap Kraft Dinner" o Alexis se inspirou na história de um amigo nosso no Canadá, misturou com alguns outros sentimentos e surgiu a música. São metáforas que juntamos em letras de música.

E o Hot Chip no palco, como é? Vocês editam muito as músicas ao vivo, fazem sempre alguns covers, há algo especial preparado para o Brasil?

Bem, nós vamos tocar músicas dos dois primeiros CDs e umas três faixas de Made In The Dark. Para o Brasil vai ser uma apresentação mais "uptempo" porque achamos que tem mais a ver com o público: dançante para o lado do techno, do drum'n'bass... Música bem energética e muita house music também.

Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
it's like the 60s, with no hope
comentários
Rodrigo SM
Rodrigo SM(03.11.07)
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Tá, cheguei mega atrasado, mas assim mesmo: muito boa entrevista, gostei muito do formato mais "bate-papo" que ficou!
"Shake The Fist" é o novo 12" dos caras prensado em edição limitada...um amigo meu trouxe de londres e eu já estou tocando...agressiva,barulhenta,meio new rave misturada com rock,mas pistissima...
vale super a pena correr atras...
em breve na net...
eles arrazam !!!!
Felipe  DC
Felipe DC(26.10.07)
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Abaixo a hipocrisia! (e os barrancos também)
Juliano Brandão
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"Rio eu não sei mas deve estar calor como sempre [N. do E. - está caindo o mundo lá, na verdade, Jade]"

Tive que rir...

No mais, como sempre, excelente. Que venham! E me passem uma cópia do álbum do Wu-Tan...
Vinicius Bortoli
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Que chegue quarta-feira! ; )
 
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