Róisín Murphy - Overpowered
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ficha técnica
Nota: 4.6 / 5
Ano: 2007
Selo: EMI
Estilos: pop, dance, disco, house
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Róisín Murphy - Overpowered
Cantora irlandesa faz um dos melhores álbuns pop do ano e se livra de vez do estigma "ex-Moloko"
30.10.07 19:40
Num mundo povoado de clones lascivos de Britneys e Aguileras, em que reality shows criam rostos bonitos que atinjam a aguda oitava nota para criar uma nova Cher, mas o que sai é Kelly Clarkson e Carrie Underwood; num mundo onde a onipresente Madonna precisará de uma nova religião/filosofia para se reinventar depois de "voltar às pistas" com seu último álbum, surge uma luz no fim do túnel do pop feminino.

Não, não é uma nova surpresa do MySpace nem outra neo-Courtney Love loucona, nem Lovefoxxx em carreira solo. É a irlandesa Róisín Murphy, conhecida pelos tempos em que era a voz e a alma do Moloko, um lastro sexy do final da cool britannia da década passada. Com seu segundo álbum, Overpowered, lançado no Reino Unido há poucos dias, Róisín (pronuncia-se "Roisheen") chega ao ápice de uma curta e consistente carreira solo iniciada em 2005 com Ruby Blue, jóia do jazz-soul eletrônico produzido pelo esquisitão Matthew Herbert.

Musicalmente, Ruby.. tinha clima de cabaré moderno, uma opereta de house e breaks construído por folhas de papel rasgado e brinquedos quebrados transformada em bases sensuais pelos inconfundíveis dedos de Herbert. Era um álbum pouco autoral, em que apesar do notável avanço vocal desde os tempos do Moloko, o que prevalecia eram as artimanhas do produtor inglês. Basicamente a mesma relação entre Mark Ronson e Lily Allen hoje em dia.

Em Overpowered Róisín vira protagonista ao distribuir a produção entre três nomes: Andy Cato do Groove Armada, Seiji do Bugz In The Attic e o mashuper Richard X. A sonoridade não pode ser resumida numa única atmosfera como no primeiro álbum: ela vai do timbre acid 90s de "Overpowered" ao prog-house poperô de Kylie Minogue de refrão adolescente, como em "Movie Star". Pode assustar quem acostumou com refrões swingados como "if we were in love we should make love", mas é uma retrato honesto das intenções da ex-Moloko e vá lá, um momento cafona do álbum, como outros - "Cry Baby", é bem descartável também.

CHARTS, CHARTS, CHARTS!
Ao trocar o nanico selo Echo pela ainda pujante EMI britânica, Róisín e a gravadora fecharam um pacto de auto-afirmação de que havia um potencial diva latente. E não diva nos moldes de Celine Dion, por favor, Róisín cresceu entre Sheffield e Manchester, viveu jovem a cena acid house e o Moloko, se você for além de "Fun For Me" e "Sing It Back", foi o momento mais divertido e versátil do trip hop britânico - Do You Like My Tight Sweater? (1995) é discografia básica de qualquer pessoa cool do planeta.

Overpowered estreou nos charts britânicos em 20º lugar, boa marca para quem nunca havia pontuado. E há um paradoxo curioso e sintomático: o potencial de sucesso do álbum vem de sua versatilidade dance, uma característica natural (ou fórmula?) da música eletrônica em 2007, até no seu lado mais underground: o que importa hoje é juntar incontáveis sons e referências de diversas décadas num pastiche sonoro que não soe especificamente como anos 80, por exemplo, mas que tenha sim timbres de Human League, e ao mesmo tempo traga synths de Giorgio Moroder e bom-humor de pop dos anos 60.

Róisín ainda se propõe e consegue ser moderna, principalmente nas faixas produzidas por Andy Cato: o atual single "Let Me Know", pegajoso, houseiro, disco dançante e que consegue unir o melhor de Lista Stansfield e Simply Red. A referência noventista é forte - seria música para tocar no saudoso programa Non Stop, das madrugadas da MTV - e a esquisita voz de Murphy, fanha, aguda e grave ao mesmo tempo continua a ser um elemento de identidade para cada faixa. É assim também na sexy "You Know Me Better", cheia de gemidos, backing vocals e refrão fácil - Madonna deve ter se arranhado toda por não ter criado algo assim.

Algo que geralmente estraga a boa-vontade para com qualquer cantora são as baladas românticas. Lily Allen e Amy são legais, mas quando ficam fofas falando de amor é um porre. Róisín ameniza um essa maldição e cria um dub gostoso para falar do amor a seu pai em "Scarlet Ribbon". "Primitive" é baladinha sensual, uma lembrança gostosa da efêmera Sophie-Ellis Bextor. "Footprints" acerta na levada house a la Röyksopp e tem cara de single. Nenhuma delas o foco é a dramaticidade de um gogó com o choro enlatado, Róisín é música ultra-produzida, sempre.

FASHONISTA
Se Róisín Murphy conseguiu com Ruby Blue o carinho e a boa-vontade da crítica alternativa, o pop de Overpowered é recebido com uma boa vontade. E se a chuva de bons produtores deste álbum proporciona excelentes canções mas não cria nada ultra-sagaz ou inovador em termos de produção "underground", este trabalho ainda estabelece Róisín Murphy como ícone fashion.

Todo o design do álbum e os vídeos dos singles são recheados de peças de estilistas europeus jovens e alternativos como Sandra Backlund, a dupla Viktor & Rolf e o garoto prodígio do momento na moda, o britânico Gareth Pugh, que vestiu Róisín com um pierrot geométrico de origami para o vídeo de "Overpowered". Em tempos de supra-informação cultural, democratização da moda e antropofagia dance-pop causada pelas rachaduras cada vez maiores no Muro de Berlim entre o mainstream e o underground, nenhuma artista é tão representativa do seu tempo como Róisín, a ex-Moloko que agora é diva definitiva.
MP3
Flash Content
Róisín Murphy - Overpowered (mp3)

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Róisín Murphy - You Know Me Better (mp3)

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Róisín Murphy - Let Me Know (mp3)

Flash Content
Róisín Murphy - Footprints (mp3)


Jade Augusto Gola
Jade Augusto Gola
it's like the 60s, with no hope