Eu nem queria falar sobre, mas foi o próprio Datarock que tocou no assunto: new rave. Então vamos começar por aí: o new rave dessa dupla norueguesa, um dance punk pulsante e megalômano, um proto-Devo dos anos 2000, é destaque há algum tempo e é atração do festival paulistano Planeta Terra, esse fim de semana.
Antes do hype o Datarock já chamava alguma atenção por hits bons e pontuais - o estrondoso "Fa Fa Fa", um hino
a la Rapture com força norueguesa e ponto alto do
DJ Kicks - Annie, outra norueguesa; e o incessante "Computer Camp Love", que tocou bastante quando dance punk não tinha o prefixo "new" e nem se vestia de flúor.
O
rraurl.com conversou com Fredrik Saroea direto de Bergen, cidade da dupla que já foi um quarteto (a Annie é de lá também). Falante e simpaticamente convencido, Fredrik não economiza ao creditar os louros de sua fama à new rave, apesar de admitir que "não visto cores por cima de preto, branco e cinza", parodiando o
similar artist britânico New Young Pony Club. "Tenho 31 anos, estou velho pra isso".
Mas se prepare para uma duplinha animada, saltitante como Lovefoxx e de capuzes vermelho-vivo, imitação assumida da estética Devo, mas que venderia bem no cabide new raver da TopShop.
Defina o som do Datarock. Quanto de dance e quando de punk tem nessa dupla?É punk com dance music. Não tem nada de novo, o Talking Heads fazia isso há décadas atrás. Eles são uma das influências junto com o Devo, Television e até Laurie Anderson (nova-iorquina performática dos anos 80 da turma de Lou Reed).
É muito final dos anos 70 com começo dos 80 e várias coisas da música britânica dessa época também, todos os artistas da Madchester. E vivemos bastante o eletroclash da nossa década.
O único álbum de vocês é de 2005 (o homônimo Datarock), mas foi lançado ano passado nos EUA. O que mudou depois disso?Ficamos mais conhecidos e tivemos muita mídia no Reino Unido, principalmente. E teve a história ano passado de sermos rotulados como new rave. Não sei o que acho sobre isso, mas eu não me incomodo, na verdade fico feliz porque nos deu muita atenção (risos).
Eu não tenho a necessidade de dizer "fuck New Rave" como muita gente tem. Esse movimento nos associou a boas bandas como CSS, Bonde do Rolê, Justice, além de nos ter feito tocar mais de 300 shows em 30 países, cara!
Isso pode ser assustador, é muito hype, muito
trendy, mas não mudou nada em nossa música, tocamos o mesmo som há anos e ficamos felizes de ter tocado ao lado de bandas como Justice, New Young Pony Club e o CSS.
A new rave é um interessante movimento jovem que pode ficar realmente grande, como o hip hop. Na moda, está em todo lugar, essa inspiração dos anos 80 e 90 mixada com algo novo.
É um fenômeno da cultura jovem e é tão interessante por mixar gêneros, misturar desenvolvimentos da música e de nossa cultura. Tem humor, é divertido e reinventou a pista de dança. Como isso pode ser ruim? Outra coisa interessante é que se trata de um movimento internacional. Você tem o Lo-Fi-Fnk na Suécia, o Boys Noize na Alemanha, Cut Copy na Austrália, o New Young Pony Club em Londres, CSS e Bonde no Brasil... Bem, eu realmente acho que tem pessoas que gostam de fingir ódio à new rave, mas esses agem assim porque esperam algo novo acontecer. Para eles depois que consumirem a novidade, agirem assim, da mesma maneira.
Falando em cenas internacionais, a Noruega tem se firmado como um verdadeiro celeiro de artistas e até de gêneros. O que você acha disso? Orgulho nacional?A Noruega é um país tão pequeno, apenas 10% dos nossos shows foram lá, muitos artistas deixam o país para trás assim que conseguem promoção internacional. Há muitas bandas independentes por lá e o que está acontecendo é que nossos artistas podem se tornar realmente famosos e célebres por todo o mundo através de YouTube, MySpace, blábláblá...
Não é necessário mais grandes selos, companhias, você pode ter uma interessante cena alternativa que se mantém sozinha. Nossa música na verdade sempre fui muito interessante e muito experimental.
Mas esse fenômeno da Internet se aplica a todos os países, e a cena norueguesa chama a atenção como um todo, o que não acontece em todos os países, sei lá, como na Áustria, leste europeu... O sucesso da Noruega seria pela música bastante experimental então?Não, tem outro fator: ao contrário do CSS, do Bonde do Rolê e de outras bandas daí que cantam em português também, aqui todo mundo canta em inglês. E todo mundo tenta ir para o Reino Unido, que é um país muito próximo ao nosso e quase toda a imprensa musical que nós lemos vem de lá.
É um pouco fácil para os noruegueses conseguiram mídia na Inglaterra. Em 2000 nós já havíamos saído na BBC! A imprensa musical lá é tão grande, tão importante que impressiona. E isso é um foco de atenção para o mundo todo.
Como é o Datarock no palco?Um pouco diferente do álbum. Nós tocamos os instrumentos sozinho, mas somos acompanhados de outros músicos. Serão quatro pessoas no palco e é um show um pouco mais rock. Muita gente expera nos ver com laptops e faixas dançantes, mas não é assim. Só prometo que é bastante energético.
O Datarock toca sábado no Planeta Terra às 21h no palco Indie, coincidindo com a apresentação de Instituto e Lily Allen no Main Stage e com os sets de John Carter e Layo & Bushwacka no DJ Stage.Flash Content
Datarock - See What I Care (mp3)
Datarock - See What I Care