O alemão encerra o festival em set matador cercado de hype de qualidade
02.12.07 22:55
Acumulando boas notícias, a noite de ontem no famoso clube da rua Augusta, Vegas, encerrou o festival Motomix. Evento este que trouxe para o Brasil os mais variados artistas, que se apresentaram em casas diferentes em seus respectivos dias. Ontem, o alemão Alex Ridha, sob codinome Boys Noize, demonstrou que quando ele diz "don't believe the hype" é com segurança de quem sabe o que é bom.
Meia noite e meia e a festa ainda não tinha fila ou tumulto na pista. O andar de baixo do clube nem dava sinal de estar preparado para abrir, quando o nosso Gil Barbara sobe com sua corrente e boné whigga e arrasa. Domina as pickups com a calma que só anos de estrada podem trazer e a pista enche. (Agora chega de falar do chefe que pode parecer puxa-saquismo).
Alex Ridha já estava cercando a cabine para começar, mas teve que esperar pela estréia do live PA de Mistinguett. Acompanhada de um DJ que tomava conta da mixagem das bases ela despejava seus gritos sobre She-ra (ou Xuxa?) e dealers psicóticos. Bons gritos por sinal, no entanto, a garota precisa focar mais em sua performance.
Chegou à hora e o jovem Boys Noize começa testando todos os limites de graves e agudos nas pobres caixas de som do Vegas. Quando os tímpanos de todos estão calibrados e o cérebro consegue entender a definição de maximal, ele começa o seu set.
O alemão se apropria do peso do hard-techno e timbres do electro e, às vezes, um vocal de alguma faixa pop é jogado no meio, como os seus remixes para os grupos ingleses Kaiser Chiefs e Bloc Party. "Feel Good (TV=Off)", certamente um destaque, apareceu misturado com faixas do álbum de estréia Oi Oi oi.
O DJ, que só utiliza os CDJs para mixar, mostrou um set impecável tanto em técnica quanto em seleção. E, após quase duas horas de pista satisfeita, ele encerra com um dos melhores remixes do ano: "My Moon, My Man", da canadense Feist. Este foi o momento em que todo mundo pulou e cantou junto acompanhando o vocal robotizado.
Com uma das camisetas do clipe D.A.N.C.E. do Justice, 25 anos de vida e um boné de aba reta, Alex fez história em uma das festas mais legais que 2007 viu.
(Raphael Caffarena)
Fotos: Marcelo Elídio
BLACK DEVIL DISCO CLUB @ D-EDGE Sexta, 30/11
O projeto Freak Chic no clube D-Edge, é há algum tempo um dos epicentros da nova disco em São Paulo, e na noite de sexta (30/11) esse fato foi celebrado de maneira histórica na pista da Barra Funda. Não histórica no sentido catártico, épico e de acontecimento do ano - por mais que pode ter sido assim para alguns. Mas pela simples presença do antigo projeto francês Black Devil Disco Club na casa, uma amostra significativa da disco obscura de ontem e de hoje.
Longe de revival de bandas empoeiradas, Bernard Fèvre e seu atual parceiro musical, o também francês Gwen Jamois, são um bom live PA que - não sabemos como era em 1978 -, tem vigor de sobra agora em 2007, ano dos revivals. A disco melódica e repetitiva, um proto-prog de viés orquestral e explosões de trilha de filme, pode parecer simples pelo seu BPM uniforme e loops similares em cada faixa.
Mas o live (em que rolou faixas do EP 28 After, de 2007, e do Disco Club, de 1978) por ser tão nivelado exige uma boa harmonia de timming, filtros e blips, fornecidas no caso por dois laptops e um gigante rack de knobs e módulos. Fora o microfone da figura carismática de Bernard, que arriscou até um "I Love You" e cantou devidamente filtrado em centenas de canais as letras de hits pontuais de 78 e deste ano. Bons momentos com os incompreensíveis versos de ""H" Friend" (que na confusão dava para cantar algo como "shiniiiiiiiiiiing in the sky") e os límpidos e marcantes refrões de "No Regrets" e "I Regret The Flower Power" que apesar da aura setentista já apresentam um clima soturno urbano, bem característico dos anos 80.
Assim como ouvir os dois EPs numa única playlist, é difícil distinguir uma música da outro. "Coach Me" tem praticamente a mesma (longa) intro de "We Never Fly Away Again". Junte a isso "tchurus", "woodoo" e outros uivos e brincadeiras vocais de Bernard, sempre canalizadas em efeitos que levantaram a velha questão: playback? Parecia, mas não era o caso. Só perceber os deslizes da disciplinada voz de Bernard, algo humano e previsível até num show do Kraftwerk.
E Seus trejeitos de palco eram guiados em mãos e braços pela bateria tremelicada que rumava junto com bongôs acelerados a um céu de explosões de raios e efeitos estrelares, que pode ser bem exemplificada na "Constantly No Respect".
A concepção space é inerente a tudo isso, o live poderia ser ilustrado em uma gigante narrativa de perseguições siderais com naves tecnológicas em disparos de lasers, como num filme futurista do fim dos anos 70 ou começo dos anos 80. E essa idéia simples, porém marcante e imaginária ajudou, como a história mostrou, a criar a música techno, house e progressiva que tanto ouvimos por aí hoje em dia. Mais do que a nova onda de timbres disco lá da Noruega, por exemplo, o Black Devil Disco Club não é pura e simplesmente um revival, mas sim uma dupla que recria uma estética musical crua, roots mesmo. E o faz muito bem.
(Jade Augusto Gola)
Fotos: Alberto Boni
MARK RONSON @ ROYAL Quinta, 29/11
Um monte de gente não foi no Royal ver o set do Mark Ronson, mais uma das etapas do Motomix 2007, com preguiça dos preços altos e da expectativa de grandes filas e tumulto. Bom, os preços realmente estavam naquele patamar para as carteiras saudáveis dos freqüentadores do clubinho no Centro de SP. Mas o público, o set e a locação (afinal, o Royal é lindo e tem o tamanho certo) fizeram dessa noite uma das mais legais do ano. E, para quem quer saber: sim, ele é um gato, mais ao vivo do que em foto.
Com um mix bastante saudável de ricos, quase-famosos, povo da noite e interessados em música em geral, a noite começou com discotecagem do Zegon, que fez um mix de hip hop "das antigas", mashups e coisas da Ed Banger, bem no clima do "freestyle" que tem apresentado em festas como a Crew.
Mark entrou no som por volta da uma da manhã, com a cabine cercada de meninas tentando chamar a atenção, muita gritaria, e mandou exatamente o que o povo esperava - mas talvez ninguém esperasse que o set abriria com "Hey Jude", certo?
Bom, daí para o final da noite quando já clareava o dia, foi uma avalanche de tudo que existe de bom no pop de ontem e de hoje, rock, hip hop, funk, disco, mixagens muito afiadas, muita bebida, muito cigarro e gritaria. Ninguém estava lá esperando o lado B de algum produtor de space disco sueca, então todo mundo entrou no clima e foi só alegria.
Todos os hits de Version deram as caras: teve "Apply Some Pressure", "Valerie", "Toxic", "Oh My God" e tudo o mais, em versões iguais a do disco e, à vezes, misturadas com as originais. "Stop Me" tocou duas vezes e mais outra na versão original. Tocando com o que parecia ser um Serato ou FS no MacBook cheio de adesivos, teve Block Party, Strokes, Britney, Prodigy, Rage Aginst the Machine, House of Pain, muito Kanye West, Lily Allen e Amy Winehouse. Tudo mixado muito rápido, com alguns scratches, gritos bêbados de "thank you, you're the greatest crowd ever". Também teve, claro, os momentos bem Brasil com "Águas de Março", que todo mundo cantou junto, e "Let's Make Love", do CSS, que todo mundo cantou junto também.
Era uma noite para se divertir sem compromissos, certo? Quem ficou para ver o fim do set só conseguiu sair da pista umas 05h. Muita coisa para uma quinta-feira normal. E a programação do Motomix ainda continua hoje, com Black Devil Disco Club no D-Edge e amanhã, com Boyz Noise no Vegas. Haja saúde!
Quarta-feira, no clube paulistano Clash, por volta da meia-noite e meia entra a banda de rock Eagles of Death Metal anunciando que eles "estavam tendo o tempo da vida deles", e que eles "amam São Paulo do fundo do coração".
Quando artistas soltam essas frases antes de sentir o público e tocar qualquer coisa eles estão querendo comprar sua reação. Só que nesse caso, os californianos passavam uma verdade absurda. Afinal, a banda é pouco conhecida lá fora, e grande parte do seu "sucesso" se deve a participação do Josh Homme do Queens of the Stone Age, um dos idealizadores do projeto.
Aqui no Brasil eles são um dos principais nome de um festival que nos outros anos teve gente como Franz Ferdinand e Art Brut. Só que infelizmente o Josh Homme não veio, e nem o rock criativo do QOTSA.
A banda abusa do rockão quadrado e só consegue ir um passo adiante quando usa o humor em suas músicas. Por isso que as músicas "Cherry Cola", "I Want You So Hard (Boy's Bad News)" e "I Only Want You" foram as mais animadas da noite. Porém, o público que quase lotava a casa não estava preocupado em firulas ou modernidades. A cada palhetada numa guitarra bem distorcida os cabeludos, todos vestidos de camiseta preta, saldavam a banda como a salvação do rock.
BANDA DE PUB Se o carisma de Jesse Hughes acrescenta bastante à performance, o mesmo não pode ser dito sobre a música. Talvez, o fato deles quererem tocar todas as faixas dos dois álbuns da banda não tenha colaborado muito (desejo não consumado, diga-se de passagem). Houve um momento em que os americanos emendaram duas covers clássicas - "Brown Sugar" dos Rolling Stones e "Beat on the Brat" dos Ramones - que fez com que eles parecessem tão comuns e ordinários que qualquer desavisado os confundiria com uma banda de um pub roqueiro.
Certamente não é um show para encabeçar listas de melhores do ano, apesar de não ter sido uma apresentação de todo mal. O problema é que eles requentam mal um estilo que já não diz muita coisa. Será que da próxima vez podemos ter show com a outra banda do Josh Homme? Aquela outra lá, em que ele participa de todos os shows.
Obs.: Eles terminaram o show quebrando uma belíssima guitarra e jogando o resto para uma platéia sedenta por instrumentos moídos. Rrrrock'n'roll!
(Raphael Caffarena)
Fotos: André Porto/UOL
DJ VADIM @ STUDIO SP Terça, 27/11
A atmosfera no Studio SP não podia ser melhor: clima urbano numa enluarada noite fria de primavera e um palco vermelho esfumaçado onde se apresentaria o DJ russo Vadim, expoente do hip hop atual.
O aquecimento foi chill e até pop com Daniel Ganjaman, do coletivo Instituto, soltando uma providencial "Galang" (M.I.A), que aqueceu o quadril das poucas garotas presentes na casa por volta das onze e pouco, meia noite. Lá de São Bernardo veio a banda vencedora do "Novos Sons" na categoria de hip hop, a banda Black Alquimista (foto). O DJ Simão Malungo veio estiloso com seu chapéu Panamá, mas esbarrou numa longa dificuldade de plugar seu equipamento, que acabou com metade do tempo da apresentação. De resto, hip hop roots, alguns breaks e muito discurso no encerramento com uma música que pregava "não esqueça do hip hop, hoje em dia é só business".
Eis que depois, também de chapéu, laptop Apple preto e um rack de efeitos soltando com sotaque engraçado o nome de quem assumia as atenções: "DJ VADIM, VADIM, VADIM", com o bootleg que ele criou, bem hip hop, com um famigerado sample de "Cavalgada", de Robertão Carlos. E todo o discurso do Black Alquimista realmente ficou para trás porque o russo, crescido na Inglaterra e agora baseado em Nova York mostrou de onde a fonte nunca seca: a música negra em geral, não só no hip hop urbano que veio lá dos anos 80 e hoje em dia é um monstro em tamanho e cifras.
TURNTABLIST? Dedilhando o filtro no crossfader com uma sutileza de gentleman, Vadim não é um A-Track ou - comparação possível, já que rolou drum'n'bass -, um próprio Marky. Então scratches e outros tapas nos vinis deram lugar a faixas de hip hop fundidas com vocais femininos de soul entrecortados em reverbs, ecos e uma técnica quase de dubplate, um leve interlúdio cirúrgico do DJ esquisitão para apresentar a nova canção. Essa técnica exige o bom gosto, qualidade óbvia no russo que apresentou à animada e suavemente lotada pista um bom espectro de influências musicais.
HITS "Ghostwriter" do RJD2 animou, assim como uma versão break e soul para a incansável "Seven Nation Army". Ainda nos vocais femininos, muito ragga, gênero que, se Mark Ronson confirmar, pode ser o som do Motomix depois de Nego Moçambique e Vadim. Teve até uma versão fanfarrona e cheia de espasmos para "Another Brick In The Wall", com momentos de hip hop gangsta underground. No começo parecia um bootleg de Enya, mas aí veio a lembrança quando ele tocou "Ready or Not" do Fugees, uma boa nostalgia que abriu a porteira para um pouco de jungle e drum'n'bass - música negra, afinal.
Vadim mostrou ser cosmopolita e versátil o suficiente para que o tão bradado hip hop seja apenas a base, um suporte para uma viagem no melhor que há em décadas de black music. Do rap nervoso ao ragga quase sexual; do jungle ao soul dançante que é quase disco. E quando este que escreve estas linhas partiu, Vadim arrematava com a deliciosa "You Don't Love Me (No, No, No)", ouve só.
A chuva até ameaçou, mas o que prevaleceu no primeiro dia do festival Motomix 2007 foi o mormaço e o calor. O céu sobre o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, ficou nublado do primeiro ao último show e o público pareceu inferior às seis mil pessoas estimadas pela organização (mesmo levando em conta a rotatividade de gente pelo parque). A multidão que começou a se formar na frente do palco por voltas das 14h permaneceu animada até as 18h, quando Nego Moçambique avisou que ia ter que parar de tocar sob ameaças de multa da prefeitura.
A tarde começou com a apresentação do Interligados Soundsystem, coletivo encabeçado por Dudu Marote (aka Prztz) e que contou com as participações de Gui Boratto, XRS, Nego Moçambique, Zegon, Bungle, Dada Attack , Rafael Droors e DJ Nuts. Armados de laptops, sintetizadores e outras parafernálias, oito deles soltavam bases que variavam do IDM ao tech-house enquanto outro mixava tudo num só corpo musical por cinco minutos. Assim eles se revezaram por quase uma hora, fazendo pausas para trocar o maestro da vez.
INTELLIGENT POP MUSIC Por causa da ameaça de chuva, a Apparat Band - principal atração do lineup - foi adiantada na escalação e tocou em seguida. O grupo, que não tem uma formação totalmente fixa, se apresentou com Sascha Ring - produtor alemão cabeça do projeto que atende pelo pseudônimo Apparat - e Raz Ohara nos vocais, guitarras e sintetizadores, além de um baterista. Raz foi o primeiro a dar as caras e anunciou "Holdon", do álbum Walls. Sascha entrou em seguida - quietinho, mas com pinta de popstar (óculos escuros, camisa preta e gravata propositalmente desleixada).
Superados alguns problemas com o retorno do som, a apresentação deslanchou com hits como "Hailing From The Edge" e "Arcadia" - baladas que misturam downtempo, pop e IDM (se é que isso é possível) de uma maneira que deixaria Thom Yorke azedo de inveja. O público ovacionou o trio ao final de cada faixa, assim que paravam de soar a voz radiante de Raz ou os synths de Sascha. O show teve até seus momentos à la Sonic Youth, com Apparat tocando sua guitarra próxima às caixas de retorno para causar microfonia e dissonâncias - dessa vez propositais.
Em seguida foi anunciada a dupla Janete & Clair - fruto do projeto Novos Sons promovido pelo festival. Os mineiros destilaram um click-hop cabeça, fino e de prazerosa digestão. Houve momentos de calmaria e de estouros minimalistas frenéticos - além de longas samples com vocais. Seguraram o público praticamente intacto e sem grandes debandadas para o encerramento improvisado de Nego Moçambique.
ATÉ A MULTA CHEGAR Apesar de não estar programado no lineup inicial, Marcelo Martins - o Nego - esticou o primeiro dia de Motomix 2007 até o limite do horário. Teve direito até a apresentação de alguns b-boys, que estavam dançando no meio do público e subiram ao palco para fazer seu show de breakdance. Com batidas quebradas, grooves de funk e aprovação do público, tocou até pouco depois das 18h, quando avisou algo como: "ferrou, gente! Se não parar o som vão multar!" E assim a platéia de cybermanos multi-coloridos, moradores de rua, ciclistas, playboys e cães de todas as raças foi se diluindo pelas áreas verdes do Ibirapuera.
O domingo foi um delicioso pontapé para aquela que é uma das programações mais promissoras do ano. A próxima parada será no Studio SP, na terça-feira (27/11), onde toca o DJ Vadim - russo radicado em Londres que faz um tipo de hip hop instrumental. A semana promete ser longa.