Burial - Untrue
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
  • Currently 0.00/5
Nota: 0.0 (0 voto)
login para votar!
ficha técnica
Nota: 4 / 5
Ano: 2007
Selo: Hyperdub
Estilos: dubstep, breaks
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
Burial - Untrue
Segundo disco do produtor anônimo de dubstep é um mergulho impressionista na urbe noturna de Londres
03.12.07 17:55
Paradoxo dos paradoxos, o produtor britânico de dubstep Burial é, ao mesmo tempo, o mais anônimo e o mais assediado artista da cena britânica atual. Sabe-se que veio do sul de Londres (a Meca do dubstep) e que é um garoto - até um tempo atrás nem sua sexualidade era sabida, como ele riu numa recente e rara entrevista concedida ao The Guardian: "já vi pessoas dizendo ‘Burial é uma menina, conheço alguém que a conheceu'". Mas pára aí. Burial não faz apresentações ao vivo, não faz DJ sets, não participa de programas de rádio, e, no entanto, seus passos são seguidos à lupa pela considerável fatia da população ligada no gueto do dubstep, desde que despontou no ano passado com um intrigante disco de estréia homônimo.

Lançado no final de novembro, o segundo disco de Burial, Untrue, milita em variadas frentes que desembocam na mesma construção de uma invisibilidade autoral e estética. A começar pela própria natureza do dubstep, gênero intrinsecamente londrino que herdou da cena do UK Garage suas diretrizes básicas nos anos 90 (como o 2-Step, espécie de mutação ao mesmo tempo mais acelerada e letárgica da house americana, cujo centro irradiador foram os clubes de jungle da época), é tradicionalmente quebradiço, soturno, com a influência do dub jamaicano e do minimal techno brigando por espaço em alta tensão.Se a fórmula anti-pop do dubstep já parece angustiante em seu estado natural, o que Burial fez neste álbum foi retorcê-la a ponto de torná-la apenas uma reminiscência impressionista do que poderia ser - forte, sombria, às vezes aconchegante, às vezes gélida, mas ainda assim uma reminiscência.

O caráter de sua música impressionista, além de realçar um romantismo propagado pelo próprio produtor (Burial relembra da ascensão dos clubes de jungle como um lugar mágico onde "só havia você e a música e nada no meio"), é expresso em várias faixas de Untrue que abrigam samples de divas-fantasmas da cena da UK Garage.

"Etched Headplate", "Homeless", "Archangel" e "Near Dark" são faixas que trazem vozes (não raro com mensagens relativamente otimistas) vagueando por sobre camadas de músicas de baixa freqüência, com cadências intrincadas e, sobretudo, impossíveis de serem dançadas. A música de Burial não é para o quadril, mas tampouco é para o cérebro - é para o coração, por mais piegas que isso pareça ser.

As doze faixas, ligadas por arranjos intrincados de dubsteps minimalistas, compõem na verdade um papel de parede notívago para os momentos puros, livres de culpa, que experimentamos no pós-balada quando retornamos para a casa com a música ainda nos ouvidos. Algo que provamos em apenas raros momentos de nossas existências - e que parece se esvair de nosso interior à medida que a vida avança. Isso não é onanismo de crítico babão: Burial mesmo já declarou que sua música é "sobre" a música, uma homenagem à cena do UK Garage, mas não expressa em seus desdobramentos estéticos, e sim na recriação de determinados estados de espírito. Nem a última faixa "Raver", que tanto pelo nome quanto pelo ritmo sugere uma retrospectiva explícita, consegue expressar tanto esse sentimento como as demais.

Ter sido confeccionado a partir de softwares amadores é só parte do charme e da conexão de Untrue com o mundo de hoje. E nada mais apropriado para um artista auto-referente a ponto de celebrar, com a sua música, a própria música.
MP3
Flash Content
Burial - Archangel (mp3)

Flash Content
Burial - Etched Headplate (mp3)

Flash Content
Burial - Near Dark (mp3)

Flash Content
Burial - Untrue (mp3)


Rafael Guedes
Rafael Guedes
No pop no style - strictly roots