Richie está de volta!
No pôr-do-sol da festa de três anos da MOO, o eterno rei do minimal falou sobre Brasil, mixers roubados e até biodiesel.
11.12.07 21:25
No último domingo, noite em que o calor carioca resolveu dar o ar de sua graça, o evento de música eletrônica mais conceituado da cidade, a MOO, trouxe o melhor line-up do ano de acordo com todos os outros fissurados pelo techno e por suas vertentes minimalistas.
O simpático chefão da M-nus Records, Richie Hawtin, era o mais esperado da noite, porém a expectativa dos cariocas não era menor para ouvir, mais uma vez, o set da Magda e o inédito live do jovem argentino Barem, recém integrado ao clã de Berlim.
SUNSET
O pôr-do-sol que marcou o início da festa pôde ser contemplado pelos poucos presentes que dançavam na varanda do Museu de Arte Moderna ao som do residente Diogo Reis. Logo em seguida, e com a pista mais cheia, o outro residente da festa - Eduardo Cristoph - apresentou um set que agradou às mais de 600 pessoas que já estavam lá, com os BPM's bem lá em baixo e recheado de elementos de space disco.
Nesta altura, Barem já instalava seu laptop na mesa e Magda e Hawtin circulavam empolgados com o alto nível da produção do evento e do público que parecia realmente tratar aquela tarde de domingo como a mais esperada do ano.
Foi em meio a esse momento de empolgação que chamei Richie para um papo descontraído e comecei uma conversa de onde tentava extrair tudo que eu sempre quis saber do cara que é uma referência no conceito mais amplo da minimal art.
Como é, mais uma vez, tocar no Brasil? Você e outros artistas já falaram coisas boas sobre o público daqui. Tudo o que dizem é verdade ou só um lobby pra agradar o público?
Nossa! O que posso dizer do Brasil? Sobre os outros eu não sei, mas realmente amo tocar aqui. Sempre que venho pra cá conheço pessoas legais e diferentes, o público é sempre animado e receptivo. Eu olho pra pista e vejo que as pessoas realmente gostam do meu som, do som do Barem, olha isso! (N. do A.: ele apontou para a pista que acabara de soltar gritinhos de "uhul" em uma evolução do live do argentino) e de toda a crew da Minus. É um país com muito potencial musical e em todas as outras áreas da cultura, devido à sua diversidade.
Nos últimos anos, alguns DJs e produtores sul-americanos emergiram na cena minimal, como por exemplo o Barem, que recentemente lançou algumas faixas pela Minus. O que você pensa dessa evolução?
É muito interessante para a cena o surgimento de bons artistas que trazem um "background" diferente, vindos da América do Sul. O Ricardo (Villalobos) é chileno, tem raízes chilenas, mas cresceu na Alemanha. Além dele há muitos outros caras bons surgindo, principalmente na Argentina, como o Seph, o Gurtz e o próprio Barem. De um ano ou dois pra cá, o minimal praticamente teve seu início na América do Sul e começaram a surgir muitos bons artistas vindos daqui. Acredito que a cena só tem a crescer, principalmente quando passarem a usar influências da arte local e levarem algo diferente à Europa.
No último mês, foi anunciado o roubo de um mixer Allen & Heath Xone:62, customizado por seu pai (engenheiro da marca), porém muita gente está dizendo que o roubo foi algo fictício que não passou de uma jogada de marketing viral da M-nus com a Allen & Heath, para promover o mixer.
Não, não. É tudo verdade! Há mais ou menos três semanas atrás quando eu estava no Canadá entraram no escritório da M-nus e roubaram tudo, todo o nosso material! Além do mixer, levaram três ou quatro laptops, synths e diversos equipamentos, porém o mixer era o mais importante já que só havia dois exemplares dele customizados por meu pai, e estou tentando tê-lo de volta.
Mas quer saber? As pessoas falam o que querem... F&*@-$*isso!
Vamos falar um pouco sobre o início de sua carreira: Você é inglês, foi morar muito novo no Canadá e vivenciou a cena negra de Detroit dos anos 80. Qual a influência desses caras na sua música?
Eu cresci ouvindo Jeff Mills, Mad Mike todos esses caras! Ia pra Detroit todo fim de semana,
quando eu tinha uns 16 ou 17 anos. Ficava vidrado ao lado do DJ Booth daqueles clubs mínimos, só olhando a mágica que eles faziam. Era uma época muito boa, a cena era pequena, com clubes pra 100 ou 200 pessoas no máximo!
Só posso dizer que foi o início de um mundo musical totalmente novo. De alguma forma nós sabíamos que algo muito especial estava rolando.
O Underground Resistence tocou na D-Edge, mesmo clube que você tocará em São Paulo, na última noite. Você sabia disso? Mantém algum contato com eles?
É sério? Não sabia que Mad e os rapazes estavam no Brasil também! Mas estivemos juntos no Japão e sempre tentamos nos falar. Não é aquela relação de estarmos sempre em contato, mas várias vezes pelo ano nos esbarramos pelo mundo afora e sempre nos divertimos.
Mas no início essa galera impôs algumas dificuldades ao seu trabalho, tanto é que você se mudou para a Alemanha. Parece que eles não aceitavam que você fosse branco, rico e ainda assim bom...
Primeiramente, eu nunca fui rico. O problema deles era por eu ser branco, ser do Canadá... Aquela velha história de proteger seu quintal de casa, sabe? Mas hoje eles entendem que algo diferente tinha que ser feito e que independente de terem seus motivos para gostarem ou não do meu trabalho, eles o respeitam, assim como eu sempre respeitei o trabalho deles.
Por falar em fazer um trabalho diferente, você é o grande pioneiro do novo techno minimalista. Como seu irmão (Ralphie Hawtin, designer e artista plástico minimal que, entre outros trabalhos, criou toda a programação visual da Minus) influenciou sua arte?
Ralphie e sua arte sempre me fizeram pensar diferente. A cada dia, me mostra uma forma nova de ver o mundo e, por conseqüência, de repensar minha música. Ele teve influência vital no conceito da Minus e de quando eu busquei fazer um techno diferente do que havia por aí, praticamente chegou pra mim e disse "-Richie, por que você não faz algo assim e assim?" Ele me disse isso, mas não com palavras.
Hoje com todo o conceito de meu trabalho desenhado, continuo observando o trabalho dele. Contemplar arte sempre nos traz outras perspectivas de mundo.
A M-nus lançou na última semana um EP num card com saída USB. Você acha que isso fará parte do futuro?
Não acho, de forma alguma, que isso seja o futuro, mas apenas uma forma mais prática e fácil das pessoas transportarem e trocarem músicas. Pense só, é muito mais confortável que carregar uma mochila cheia de vinis, correto?
O futuro pra mim é quando a música não precisar mais ser carregada. É quando ela puder ser feita e encontrada em todo momento e em todo local.
Entre outras preocupações, a M-nus e você pessoalmente sempre estiveram relacionados às questões ambientais. Recentemente, você lançou um programa chamado de "Taxas de Carbono" que propõe repor, através do plantio de árvores, todo o oxigênio poluído nas funções produtivas de sua indústria. O que você tem a dizer sobre isso no Brasil, país que tem muito potencial nesta área ambiental?
Ouvi falar muito sobre o Brasil e o biodiesel recentemente, mas temos que pensar o seguinte: - biodiesel é legal, taxas de carbono são legais, mas qual é realmente a causa da destruição do planeta? Não adianta realizarmos apenas ações corretivas, depois que nossas árvores e nossos animais estejam mortos.
Para finalizar, quais são os próximos planos da M-nus para o próximo ano? O quê mais você deve estar pensando agora aí no seu cérebro neste momento, que podemos esperar?
Agora não posso falar muito sobre o que vem aí em 2008, mas garanto que vocês verão muitas coisas legais partindo de nós. O que já posso adiantar é que 2008 é o ano em que a M-nus completa seu 10° aniversário e muitas surpresas, inclusive para o público brasileiro, estão por vir. Aguardem!