O tempo e o espaço de Karlheinz Stockhausen
Stockhausen (1928 - 2007)
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O tempo e o espaço de Karlheinz Stockhausen
Revolucionário das composições e excêntrico na execução, músico alemão mudou a música
20.12.07 00:35
É inquestionável a genialidade da geração do século 20 que trouxe à nossa atenção um novo universo de deleite sonoro. Pierre Boulez, John Cage, Pierre Schaeffer, Karlheinz Stockhausen, cada um a seu modo, foram iconoclastas. Lançaram experimentações, romperam barreiras e promoveram subversões que refutaram pressupostos e preconceitos da época, lançando premissas de uma revolução contínua até hoje no mundo artístico.

Uma constelação formada por brilhos incomensuráveis. Talentos inquietos com propostas muito particulares, mas todos naturalmente indômitos e imensamente profícuos. E é justamente nestas qualidades únicas que os agrupam, que se destaca um fulgor tão intenso quanto o de Stockhausen.

Falecido recentemente, esse músico alemão foi autor de uma obra extensa que abrange toda a segunda metade do século 20 em 350 peças musicais - feito que não pode ser ignorado - e suas idéias moldaram a música como hoje a conhecemos, especialmente a de barulhinhos esquisitos que tanto amamos. Seu talento era fruto da combinação peculiar de influências que vão de Schoenberg e Webern a Varèse, Milhaud e Messiæn, estes dois últimos tendo sido seus mestres e pioneiros em composição que inovaram as concepções de harmonia e contraponto contemporâneas.

Nos anos 50, após concluir estudos em musicologia em Darmstadt, Stockhausen se aventurou por novas formas de composição que o afastariam definitivamente da música dodecafônica e lançariam as bases de seu experimentalismo musical. Dando plena vazão a sua criatividade, agora sobre um terreno fértil de novos materiais sonoros e prenhe de possibilidades, ele começa a flertar com a música concreta de Schaeffer e a formular os princípios do que ele mesmo passou a denominar punktuelle musik. Obras-primas como "Kreuzspiel" (1951), "Kontra-punkte" (1952), e a célebre "Gesang der Junglinge" (1956, foto) -, na qual opera sua estética radical utilizando-se de vocais para variações espaciais e de registro -, são oriundas deste prolífico período em que trabalhava nos estúdios WDR (Westdeutscher Rundfunk) de Werner Meyer-Eppler em Colônia, logo após a conclusão de seus estudos em Paris.

UM PIONEIRO DO STEREO E DO SAMPLING
Avançando na ruptura com os padrões de composição e com amplo acesso a equipamentos tecnológicos, sua música começa a ganhar em ousadia no uso de elementos, arranjos e idéias harmônicas, aflorando uma variedade de formas de composição - polivalentes ou variáveis, segundo o próprio Stockhausen - que operava de acordo com diferentes abordagens. Desde a acústica da sala como parte da execução até uma partitura lida de diversas maneiras, tudo era levado em consideração. Ainda nesta época ele usa da estatística e da probabilidade como componentes. "Zyklus" e "Momente" exemplificam bem essa estética.

"Kontakte", do final daquela década, pode ser considerado o ápice desta trajetória e um de seus mais importantes trabalhos eletrônicos, consagrada como a primeira obra musical a alcançar um isomorfismo paramétrico completo das propriedades sonoras (tom, duração, timbre e intensidade). Utilizando-se de gravação em quatro canais e de uma disposição equânime dos falantes ao redor da audiência, esta talvez seja uma das primeiras formas de surround stereo já arriscadas em uma execução musical ao vivo.

Nos anos 60 ele aprofunda suas teorias ao concentrar-se nos avanços já estabelecidos com equipamentos acústicos e eletrônicos em prol de uma experimentação mais rotinizada, mas não menos inovadora. São dessa época obras próximas ao minimalismo da música processual: "Prozession", "Spiral" e "Telemusik", considerada um dos momentos inaugurais do sampling moderno ao incorporar músicas existentes como elementos composicionais.

É também a década que sua projeção ganha proporções ainda maiores e seu nome se avoluma entre a efervescente vanguarda artística ocidental. Indo dos Beatles, que reverenciam sua figura na capa de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (veja box) à influência em Freak Out!, primeiro álbum de Frank Zappa com o Mothers Of Invention, passando pelos clássicos progressivos, espaciais, eletrônicos e alucinógenos de Greateful Dead, Pink Floyd. Integrantes de Kraftwerk e Can, bandas contemporânes e mais significativas ainda para a eletrônica, foram alunos de Stockhausen.



Stockhausen entre Mae West, Tony Curtis, Aldous Huxley na capa de "Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band", o álbum mais revolucionário dos Beatles que listou em sua capa mais de uma centena de personalidades das artes, políticas e da história em geral.
POPSTAR DA VANGUARDA
Houve ainda a controvérsia com George Maciunas, o "gerente-geral" do coletivo neodadaísta Fluxus, que representa bem este momento, dando provas tanto de sua crescente popularidade como de seu excentricidade. O episódio envolveu a execução da obra "Originale", na qual Maciunas lhe conferiu a pecha de "imperialista" por suas estritas exigências performáticas, e levou ao rompimento de seu ex-aluno, Nam June Paik, com o grupo do qual era um dos principais membros.

As décadas seguintes testemunharam o esforço em expandir suas descobertas estilísticas. Em "Mantra", da ópera Tierkreis, seu método de composição simplifica-se numa tentativa mais ambiciosa rumo a uma "gesamtkunstwerk": Licht: Die sieben Tage der Woche. Esta obra, na qual trabalhou por 26 anos (1977 a 2003), é composta por um ciclo em que cada dia da semana opera uma função associativa com relação a cada parte, totalizando sete óperas. Procedimento repetido em "Klang", no qual as horas do dia compõem o enredo dessa que seria sua última obra realizada.

Ainda vale destacar, pela grandiosidade e ousadia, uma parte em especial de Licht: "Helikopter Streichquartett", de 1993. Uma de suas mais célebres realizações, em que utiliza quatro helicópteros, cada um voando com um membro de um quarteto de cordas em diferentes trajetos, com as fontes sendo reunidas e sincronizadas para a platéia em solo.

Stockhausen foi um artista a quem devemos muito mais do que poderíamos acreditar. É impressionante pensar, por exemplo, que sua influência transparece em cada faixa, nas mais elementares harmonias tresloucadas tão corriqueiras hoje para nós e formam a base da música eletrônica contemporânea - do espectro mais dançante ao mais cerebrino.

STOCKHAUSEN E SEU COSMOS
É essencial notar também sua postura enquanto artista. O mal-entendido de seu pronunciamento a respeito dos atentados de 11/9 - em que os comparou a "uma obra de arte", algo que, para ele, estava acima do bem e do mal - como a controvérsia que sempre cercou sua obra são efeitos previsíveis do contato de uma força criativa tão gigantesca quanto a sua com um mundo complicado e repleto de problemas como o nosso.

Obra de arte?
Obra de arte?
Daí se ressalta sua fixação com o céu e as estrelas. Stockhausen operava com o espaço e o tempo na composição, sem tomá-los em sua essência, e sim em sua mais plena relatividade e efetividade. Uma espécie de astronomia musical, na qual a dinâmica dos elementos emula a dos astros, como os movimentos estrelares dos quais apenas temos uma vaga idéia visual, ganhando em clareza e grandiosidade quando transpostos para o universo sonoro. Para além da metáfora, a música de Stockhausen configura um jogo harmônico e tonal cósmico em que estamos inescapavelmente inseridos. Mas que também nos provê alívio em um escapismo um tanto atávico, e cuja influência perpassa toda a nossa tão jovem mitologia eletrônica.

Assim, quando foi feita referência a uma constelação de talentos que demarcou o momento mais glorioso e profícuo da música no século vinte, vimos que Stockhausen foi uma de suas estrelas de brilho mais intenso e duradouro. Então, talvez fosse melhor olharmos para este episódio segundo seu próprio exemplo e imaginá-lo como uma supernova. Inevitavelmente as coisas jamais serão as mesmas sem ele, mas seu brilho ainda nos iluminará e aquecerá ainda por muitas gerações de criadores.

Raul Cornejo
Raul Cornejo
sheer persuasion
comentários
Tati Oldfield
Tati Oldfield(22.12.07)
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Falar das origens da música eletrônica é sempre bom,mta gente ouve o atual sem saber de suas origens,dos pioneiros.Stockhausen deixou seu legado,uma grande perda para a música.

Excelente matéria,e seria legal continuar a falar de outros importantes artistas que davam duro para tirar sons eletrônicos e/ou influenciaram o gênero,como o rapaz falou do Phillip Glass,eu adicionaria um Brian Eno,Tangerine Dream e Jean Michel Jarre na lista.
Rodrigo SM
Rodrigo SM(20.12.07)
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Melhor matéria do Rraurl até agora. Palmas!
Que tal fazer uma sequência, com gente como John Cage e Phillip Glass? Discorrer sobre a música polifônica, eletroacústica, serial...
Riche Hawtin e Sasha beberam direto daí pra "elaborar" o sistema quadrafônico que usam vez por outra. Ainda bem.
pablo
pablo(20.12.07)
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VALE RESALTAR, QUE TODOS ESTES ARTISTAS SURGIRAM EM MOMENTOS EM QUE NOVOS INSTRUMENTOS FORAM EXPERIMENTADOS E MUITAS VEZES ESTES INSTRUMENTOS ERAM DESENVOLVIDOS POR ELES !!! MUITO LEGAL ESTES CARAS !! VALE A PENA FALAR MAIS !!!
http://rraurl.uol.com.br/pablojorge/blog
pablo
pablo(20.12.07)
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olhem meu blog tem e terá sempre, informações sobre os pioneiros da musica eletronica !!
PARABENS PELA MATERIA !!!
VAMOS FAZER UMA DO PIERRE HENRY ANTES Q ELE MORRA E VIRE NOTICIA ? HUAHAUHAUHAUAHUAHA
Alain Patrick
Alain Patrick(20.12.07)
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Matéria brilhante =]

E já que se mencionou música concreta, experimental e de vanguarda, essa coletânea merece ser mencionada, é um tesouro:

OHM+: The Early Gurus Of Electronic Music (http://www.discogs.com/release/597905)
 
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