A nova duna cearense
Paulo Tomé, frontman do Wide Open Mind Project
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
A nova duna cearense
Capitaneado pelo sucesso do Montage, surge em Fortaleza uma geração prolífica de grupos e produtores eletrônicos
04.01.08 21:05
Em meados desse ano, quando, depois de uma tentativa frustrada, o Montage desembarcar na Europa para a primeira turnê além-mar do projeto cearense, as estruturas da Ponte Metálica - histórico símbolo turístico da dita "Terra do Sol", Fortaleza - irão figurativamente tremer na base. A Ponte é na verdade um píer em Iracema e o metal já não sabe o que é a existência sem ferrugem.

A Praia de Iracema, se desperta reminiscências inocentes de quem lá se fez gente, como eu, hoje em dia é um verdadeiro antro de estrangeiros médios atraídos pelo calor da terra e das morenas, cujo segredo está a apenas poucos reais de distância.

Foi ali que funcionou um clube chamado Noise3D. Um dos pouquíssimos lugares da cidade onde havia um circuito de bandas autorais, qualquer mínima coisa que os mais afoitos chamariam de "cena". Muito por acaso, em janeiro de 2005, esses mais afoitos, sem perceber, ganharam um motivo para legitimar o que diziam.

SHORT CUTS CEARENSES
Como num roteiro de filme, CORTA para o interior de uma sala de casa de uma família de classe média. Leco, nem 30 anos completos, sentado diante de seu laptop e seu groovebox, levanta-se à chegada do amigo de longa data Ricardo. Conversa vai, conversa vem, e eis que surge o momento definidor:
Ricardo: - Vamos fazer um live no Noise.
Leco: - OK, vamos lá.

Ricardo Lisboa é o produtor-executivo do Montage, figura imprescindível para o sucesso que o projeto angariaria a partir de então. Leco Jucá já era uma pessoa reconhecida entre os músicos da cidade. Esteve em N bandas. Dividiu uma formação com o hermano Rodrigo Amarante, nas temporadas em que o parceiro de Devendra passou em Fortaleza nos anos 90.

Montage live
Montage live
Decepcionado com o formato "banda", foi com as tecnologias de home-production que ele encontrou o caminho da produção solitária e autoral. Começou fazendo downtempo e drum'n'bass. Naquela altura, se dedicava a sintetizar "sujeira" sobre batidas secas 4x4. Juntou-se a ele um garoto de comportamento descontrol em cima do palco, Daniel Peixoto, que ao incluir a insanidade de seus vocais sobre as produções eletreiras do parceiro, deixou chocadas as 50 testemunhas da primeira gig do Montage.

Se você me permite uma fantasia à Altman, tem aqui um "short cut" e encontro o Paulo em FFWD. Também cearense e guitarrista com origens no hardcore, Paulo Tomé, 26, foi outro que se desencantou com a idéia de ter que fazer parte de uma banda pra produzir música.

E RECIFE?
O mangue beat pernambucano abriu portas para diversos artistas locais e ajudou a revigorar os ares de Recife, principal centro cultural do Nordeste. Alguns músicos entraram nesta cena, outros optaram por caminhos independentes, caso das bandas de pop e indie rock, que tiveram reconhecimento ao incorporar elementos de ritmos locais. Já a produção de música eletrônica sempre foi mais tímida.

Um dos pioneiros foi Helder Aragão, o DJ Dolores. Sergipano radicado em Recife, ele já lançou dois elogiados discos e fez turnê no exterior, sempre mudando de formação a cada álbum para criar sua música eletrônica de elementos orgânicos (percussão, vozes, sopro, guitarra, baixo, bateria). Em 2008, o DJ deve lançar um disco inspirado em ritmos e sons das periferias do mundo.

Outro produtor local bastante conhecido fora do estado, é Bruno Pedrosa, que em 2006 lançou o Transformer, com remixes para bandas locais Mundo Livre S/A, Cordel do Fogo Encantado e Mombojó. Atualmente ele se prepara para lançar um disco de dub em parceria com Cannibal, vocalista e baixista do Devotos.

GRUPOS
Em termos de grupos, a cena é mais prolífica. O Chambaril começou em 2001 com dois amigos que criavam jams com suas psicodelias, gravadas num 4-track analógico. Eles cortaram as melhores partes em loops numa ordem lógica, mas ainda experimental. A formação fixa é Claudio N e Pi-R.

Juntando instrumentos tradicionais do forró pé-de-serra (sanfona, pife e rabeca) - o Digital Groove usa ainda samplers em sua eletrônica regional. Dentro do balaio do grupo cabe ainda rap, dub e o repente.

Um bom grupo que acabou foi o Diversitrônica. Com influências de trance e techno, criaram boas viagens para as pistas. Antigo integrantess, William Paiva e Leo devem dar prosseguimento a um novo projeto.
(Luiz Pattoli)
Como muitos da minguada minoria privilegiada da cidade (Fortaleza, das dez principais economias entre as capitais do País, é aquela com pior distribuição de renda), Paulo teve a chance de fazer um intercâmbio cultural no fim da adolescência. Se mandou para Baltimore nos Estados Unidos. Tocou em projetos de HC nova-iorquino. Foi chamado para gravar com uma banda de nu-metal. Nessas, se sentou ao lado de Scott Hardy (que depois assinaria a produção do Futura, disco da Nação de 2006), responsável pela engenharia do disco, e descobriu o mundo da produção musical. Entrou em contato com os elementos de hip-hop abundantes no estilo e a semente estava plantada.

Vivida essa experiência, Paulo voltou para a Fortaleza, largou a faculdade, vendeu o apartamento, gastou tudo em equipamentos e montou um estúdio com os amigos. Cinco anos como produtor burilaram a sensibilidade do rapaz e transformaram sua técnica embrionária em um arsenal de soluções sonoras impecáveis. Neste ano, decidiu partir para São Paulo para investir em seu projeto de Experimental/ Nu-Jazz/ Hip-Hop/ Breaks/ IDM, o Wide Open Mind.

VERSATILIDADE
Fica até engraçado quando os estilos que seu som abrange são escritos assim em seqüência, separados por barras, mas fato é que o Wide Open Mind é altamente prolífico, partidário da opinião de que gêneros só servem pra limitar a criatividade. Em três meses de cidade já tinha dois álbuns novos prontos. "Mas eu contava nos dedos as pessoas que tinham o meu disco", diz. Ao tomar conhecimento do Produtores Toddy, projeto em que novos produtores foram incentivados a enviar seus sons e trocar idéias com profissionais de renome como Edu K, Kuaker e Chernobyl, resolveu que era hora de tentar a sorte e bombardeou o canal do projeto. "Mandei 100 músicas para cada um deles. Eles me diziam, você é louco, você não vive, você não dorme", relembra Paulo. Assim, o WOM conquistou a confiança de seus primeiros incentivadores. E rapidamente começou a colher frutos.

A partir do reconhecimento que obteve com seu Myspaceteve faixas tocadas em rádios de Ibiza e na BBC Globalcast Radio. Recebeu propostas de selos gringos para lançar EPs digitais e prensados em diversos países: Alemanha, Inglaterra, Espanha e EUA. "Já fechei com a Bagpak de NYC. Os outros selos não posso revelar, pois estou negociando. Mas são de alto nível.", conta, em tom de confidência.

Paulo e Leco são amigos e já decidiram,"vamos fazer uma parada juntos em 2008." Nunca a fizeram, embora tenham convivido em Fortaleza desde 2005. Antes disso, Leco tinha dois companheiros músicos inseparáveis: Carlos Gadelha, 32 e David Farofa, 32.

Pode-se dizer que pra essa turma, tudo começou quando Leco descolou aquela groovebox ao lado do laptop lá de cima há seis anos. Juntos, os três montaram um núcleo de bandas de dub/trip-hop, fizeram shows, contribuíram para trilhas de espetáculos, tentaram espantar o marasmo que cheirava a peixe próprio da cidade naquele momento.

OS NOVOS CEARENSES
Numa dessas, conheceram Laya Lopes, 24, integrante de uma companhia local de dança e cantora. Firmaram um encontro e gravaram uma música. Passaram a se encontrar com freqüência e deram à luz O Quarto das Cinzas (foto), projeto que experimenta na música com elementos do trip-hop orquestrado à Portishead, indie rock e Brasil70 (Mutantes, Duprat, Novos Baianos) e na mise en scène com a verve corporal da vocalista. Depois de transformações na formação (Leco foi se dedicar integralmente ao Montage, David Farofa ao The Dancer, tendo entrado ainda Raphael Haluli no baixo), começou o ano de 2007 para o grupo. Foi pra eles um período de visibilidade. Tocaram no Abril Pro Rock e em outros festivais nacionais.

Tocaram também o coração de um distribuidor digital, The Orchard, e já fecharam contrato de distribuição internacional via ITunes. Somente com um EP de cinco faixas circulando, diante do novo negócio, a banda sente a urgência de lançar mais músicas. Como Paulo, que contribui com eles em apresentações ao vivo como DJ, chegaram em São Paulo no começo do ano. Ainda reclamam da falta de um produtor como é o Ricardo para o Montage, mas já têm algumas plataformas concretas onde repousar os sonhos. Em março, estão escalados para o South by Southwest no Texas e nas mãos do produtor Mad Professor já está uma faixa da banda para remix.

The Dancer
The Dancer
Montage, Wide Open Mind, O Quarto das Cinzas e The Dancer (duo de electro com vocais femininos formado por David Farofa e sua namorada Nayra T) formam a onda de projetos eletrônicos cearenses. "É a Nova Duna", brinca Ricardo. À exceção do Montage, iniciam o ano de 2008 relativamente desconhecidos pelo público brasileiro e estrangeiro. Mas se você me permite outra fantasia em 35 mm, desta vez à Hugo Khouri, o vento sopra a areia e a duna se move. Em breve estarão em turnê pela Europa e Estados Unidos. Além de Mad Professor, Diplo já se escalou para remixar uma faixa do Montage e os alemães Inverse Cinematics (Pulver, Faces, Ninja Tune) uma faixa do Wide Open Mind. Se tudo sair como os "conformes", aqueles mais afoitos vão poder se orgulhar de uma "cena" cosmopolita em Fortaleza. Embora lá só estejam sobrando mesmo os puteiros.

Flash Content
02 - Montage_ode to my pills - ben, Track 02 (mp3)
Montage - Ode To My Pills (Benflogin)

Flash Content
Wide Open Mind - (mp3)
Wide Open Mind - Tay

Flash Content
O Quarto das Cinzas - Flora Pura (mp3)
O Quarto das Cinzas - Flora Pura

Flash Content

The Dancer - I Don't Care

Leo Madeira
Leo Madeira
comentários
Fil.
Fil.(15.01.08)
0AprovadoQueima
Repito que achei muito bacana o texto que o Leo Madeira escreveu! Paulinho (WOM), Carlos (do Quato das Cinzas), Leco e Daniel (Montage), o Davi (The Dancer) são caras muito talentosos e determinados, e fico orgulhoso de ver que a nova geração de artistas cearenses que se mandou para o sudeste (um êxodo cultural que já existe desde os anos 70) faz parte de uma turma que produz música eletrônica (ou influenciada por ela).

Porém uma ressalva...
Não concordo com o tom (peso pesado), mas entendo plenamente a indignação da Karine. Foi ela que abriu espaço em São Paulo para projetos cearenses que tem propostas mais hibridas como todos os que foram citados na matéria. Foi pioneira ao conseguir quebrar uma barreira que existia em São Paulo com relação aos estados do norte/nordeste, ao mostrar que no Ceará existem artistas de vanguarda, produzindo algo novo, propondo diálogos entre a música eletrônica convencional e outras vertentes como o rock, jazz, mpb... Para não falar das suas influencias de arte contemporânea, através da criação de personagens e performances ("Mulher que Tomba" é a sua mais famosa).

Acho que tão deselegante quanto o tom da Karine, foi o "esquecimento" por parte do Leo, em não ter mencionado o trabalho dela... Até por que "vários de nós" sabemos que ele (Leo) se tornou amigo pessoal da maioria dos citados na matéria, e não existe coisas mais deselegante (nem mesmo os xingamentos da Karine) do que "lembrar" apenas dos amigos nessas ocasiões.

A "cena cearense" é bem maior do que uma duna, formada por bem mais gente do que essa ou aquela patotinha. E Acho que se é para falar sobre ela, que seja com um pouco mais de critério e seriedade, deixando de lado os interesses pessoais de cada um, e se preocupando mais com o coletivo.

Abraços pra todos!
Fil (Undergroove)
Teobaldo Vilella Jr
0AprovadoQueima
rapaz gosto muito de forró e de música eletrônica o negócio é curtir! :D
conheço essas banda ai la daquela ruazinha do fafi.. mas nunca vi eles em nenhuma rave por aqui o.O
essa karine não é apresentadora da tv união? e é cantora tambem? vala.. dou o maior valor os chat daquele canal.
vai ser massa mesmo os avião do forró e o fat boy slim no castelão.
flw negada!!
Leo Madeira
Leo Madeira(12.01.08)
3AprovadoQueima
Uau! Se era verdade que havia qualquer MARASMO, podemos já passar para o próximo item, o dos limites de alcance do texto.
Ele é de fato restrito, focado na breve história de uma turma de amigos produtores de Fortaleza. Não pretendeu ser um apanhado de todos os nomes e de tudo o que se faz. É somente um item, uma parte da história, editada ou filtrada a partir da perspectiva dessa turma de amigos produtores. Mas vejam, não está aí a rede plenamente disponível para qualquer um que se disponha a escrever sobre o que foi omitido no texto? Seria belo e construtivo encontrar um segundo, terceiro, até 'n' textos sobre o mesmo assunto, explorando os recantos escuros do que ainda não foi explorado. Não entendo como alguém possa encarar isso como uma disputa. É irracional. Admito que o título do texto induza o leitor a uma aproximação menos específica, então fica aqui a retificação.
Sinto muito pela REVOLTA que expressou Karine. Deve ser horrível sentir isso e, suponho, suas construções em formato de OFENSAS não representam à altura a FORÇA do seu sentimento, loucamente destrutivo.
Rodrigo Lobbão
Rodrigo Lobbão(11.01.08)
0AprovadoQueima
Opa, só uma coisa. Gostei da entevista e fiquei feliz por citar o trabalho todo da moçada q ai esta ralando, como ja disse.
A minha opniao na verdade é mais generalisada, ok. Pelo q vejo na midia da propria regiao, q costuma muitas vezes valorizar produçoes eletronicas com "pifano", "coco", "carimbo", "marcatu" etc...Nao, nada contra tb. Sei q o trabalho dos meninos nada tem a ver exatemente com isso.O q citei nao é especificamente da "cena" de fortaleza, mas sim do nordeste e claro, nao é um fato de agora, ja rola um tempo.
[]s.


Nao acho madura essa posicao de xingamentos e agressoes a figua do Leo Madeira, que fez um apanhado jornalistico do que anda rolando e recebendo destaques ultimamente e nao uma biografia dos ultimos 15 anos da dita "cena cearense". Vamos manter sanidade nos argumentos e nao deixar o ego falar taao alto de vez em quando. Otimos trabalhos sao realizados em Fortaleza que foram citados pelos envolvidos na materia, mas devido a limitacao de espaco talvez, nao puderam ser inclusos nessa mesma materia.
abracos!
 
[1] 2 3 4
 proximos