Drum and Bass: Introspectiva 2007
DJ Marky é coisa nossa
faça login para votar!
Enviar esse texto
login para votar!
social bookmarks
Digg
Mugg
del.icio.us
Drum and Bass: Introspectiva 2007
Retornos e promessas no ano que o drum'n'bass mostrou que continua cheio de vigor e criatividade.
02.01.08 19:45
Nós, que aqui sempre estivemos, dali lhe falamos

O contexto global do D&B em 2007 poderia ter ficado no mesmo marasmo que caracterizou o ano anterior. Mas não foi o caso. O que se viu foi uma emulação do próprio ritmo: rápido, inconstante, intenso. Tanto aqui como na gringa percebemos o retorno daquele vigor que parecia perdido, cuja suposta ausência era evocada por fatalistas e ressaltada por pessimistas.

Entre as constantes da dinâmica do cenário mundial do D&B, a presença de talentos nacionais entre os grandes do ano se manteve sólida. O já consagrado Marky não apenas garfou o título de melhor DJ internacional na principal premiação dedicada ao gênero, o Xtra Bass Awards da Radio 1, como também manteve seu selo, Innerground, firme e forte no caminho para se firmar entre os mais importantes do ano. A coletânea The Masterplan foi um petardo, recheado daquele groove que já é sua marca registrada, e vai se mantendo bem nas paradas transoceânicas.

Mas nem tudo que é relevante se passa no além-mar. Evidência disso é a a aclamada dupla Drumagick e seu selo Beatmasters. A idéia surgiu dos esforços de Guilherme e Jr Deep em seu estúdio homônimo e promete ser um dos bastiões do gênero em terras nacionais no próximo ano.

Da Vila Maria a Brixton, via Niterói e Curitiba

Em 2007 também vimos a ascensão de brilhantes produtores como C.A.B.L.E., então agraciado com releases pelos selos Function e 31 Records e que deu ao Innerground um de seus mais memoráveis hits deste ano: "New Infection". Do lado de lá do Atlântico, a carreira de S.P.Y. - alcunha de um simpático paulistano radicado no norte de Londres - alçou vôo no final de 2006 e se consolidou através de releases pela Metalheadz e Hospital que se tornaram rapidamente favoritas entre os principais DJs do cenário internacional. Por sua vez, o fluminense Cybass teve debut pelo selo Under Construction.

Por trás das pick ups, alguns novos nomes também se destacaram. Caso exemplificado primorosamente por duas duplas: os 2 FunkyZ, que arrasaram praticamente todas as pistas nas quais se apresentaram com sua mistura ousada de estilos e gêneros com força e criatividade, e também KillaByte, timaço de experts formado pelos DJs Davi e Byte, que trouxe de volta muitos dos melhores momentos da história do gênero em sets de oldskool. O que também se aplica ao curitibano Ban Ban, cuja arrojada técnica acabou por colocá-lo nas alturas do reconhecimento internacional, coroado por sua inserção no line up de 2007 do festival inglês Global Gathering.

No entanto, é inegável que 2007 foi o ano de Bungle. Este jovem músico e produtor da periferia paulistana nos presenteou com alguns dos mais bem-sucedidos projetos envolvendo o D&B brasileiro. Seu álbum Down To Earth, lançado pelo selo CIA, da dupla Total Science, agrupa alguns trabalhos que consumiram muito do seu tempo, com maravilhosos resultados. Em qualquer projeto ao qual tenha se dedicado o clima de cumplicidade e cooperação, fruto da confiança que talentos de todos os tipos lhe dão, são a tônica. Suas parcerias com nomes como Total Science e Marky ou os paulistanos Index e Ney Faustini foi consagrada com lançamentos por diversas gravadoras.

TC, rockstar
TC, rockstar
De todos os flancos: entre trancos, barrancos e saltimbancos

Tendência predominante dos últimos anos, o malfadado clownstep - subgênero despojado de sofisticações melódicas ou conceituais, primordialmente voltado para pistas - também se manteve. O anti-herói TC lançou seu projeto Evolution ao lado do Distorted Minds, uma tentativa pioneira de se fazer esse tipo de som ao vivo, ganhando boas críticas e disseminando ainda mais faixas como "Rockstar" e "Strictly Drum and Bass", dois dos hinos dos últimos dois anos.

Por outro lado, viu-se produtores como Seba & Paradox bombardeando os aficcionados com uma sequência magistral de lançamentos de seus respectivos selos Secret Operations e Paradox Music. O jovem Breakage também manteve o nível de rebuscamento técnico e elaboração rítmica bem alto através de seus lançamentos pela gravadora irlandesa Bassbin, e especialmente com a pesadíssima "Clarendon", um dos maiores trunfos de Shy FX no catálogo de seu Digital Soundboy.

O chamado do Commix
O chamado do Commix
Mas nem tudo são extremos em um universo musical tão multifacetado quanto o drum'n'bass. Entre os dois pólos também muita coisa aconteceu: indo das sonoridades jazzy, como o magnífico álbum Individual Soul do vienense Dkay, até o absurdo Lost All Faith da dupla Leon Switch & Kryptic Minds, mostrando que a barulheira tecnóide ainda tem muito fôlego e diversidade para surpreender a crítica e o público, num ímpeto totalmente do it yourself de lançamento e promoção. Da mesma maneira, a dupla de Cambridge, o Commix, abalou todos falantes daqui até Tóquio com seu roller "Talk To Frank", marcando o retorno definitivo da Metalheadz ao topo do cenário. Tanto que ganhou uma merecida e apropriada sequência, com o álbum Call To Mind, um dos mais brilhantes do ano, congregando uma seleção impecável de faixas e remixes de Underground Resistance e Claude Von Stroke.

Darwinismo musical

Claro que talento é algo de que o gênero nunca foi carente. Mas em um cenário tão profícuo, a dinâmica do meio artístico toma feições bastante ferozes. Aqueles que conseguiram manter o nível de qualidade sem cair em fórmulas conseguiram escapar do esquecimento. Gente que sempre fez bonito como Klute, Friction, Jonny L, Spirit, Calibre, Fresh, Marcus Intalex, Beta 2 e Sonic foram bem-sucedidos e mantiveram altíssimo o nível de qualidade de seus respectivos escoadouros criativos. Muita gente nova emergiu para dar novo fôlego e outros desaparecidos ressurgiram para dar novo alento e sugerir novos rumos.

Um contingente considerável de novos nomes se firmou em definitivo neste ano, engrossando e diversificando o sortido conteúdo do cadinho cultural dos breaks e basslines. Vindos de todos os cantos do planeta, gente como Saburuko, da musicalmente reputada vizinhança do Brooklyn nova-iorquino, nos trazendo um repertório de grooves bem singulares e irresistivelmente saborosos; o fantástico Random Movement, garoto prodígio radicado em um celeiro (mesmo!) no interior norte-americano; Alix Perez e Mistabishi de Londres, que já gozam do privilégio de terem lançado singles por selos como Hospital e o lendário Virus de Ed Rush and Optical; os Upbeats da Nova Zelândia, que acabam de lançar um álbum incrível, cortesia dos esforços de Bad Taste, nova empreitada corporativa do Bad Company, que também retorna neste ano com uma batelada de novos trabalhos, inclusive o relançamento de seu já clássico álbum Inside The Machine em uma versão redux, recheada de coisas inéditas que só existiam em dubplate até o momento.

A capa de Malice in Wonderland, que marcou retorno do Goldie
A capa de Malice in Wonderland, que marcou retorno do Goldie
Em tempo, a mumificação de faixas neste formato restrito foi uma tendência que, em sua forma mais nociva e exacerbada, não se viu tanto em 2007. Muitas músicas boas e aclamadas acabaram por chegar aos casulos e listas das lojas com uma celeridade bem maior. Isto foi algo que acabou por definir os destaques entre os selos em 2007, como a lendária Metalheadz de Goldie - cujo álbum Malice In Wonderland com seu braço-direito, o promissor Heist, também merece menção. A constância e competência que criam marcas e mantêm sua reputação foi um fenômeno também exemplificado pelo já bem estabelecido Hospital Records do London Elektricity, trazendo-nos alguns dos mais memoráveis momentos no D&B através de seu roster de artistas, fato comprovado em um lançamento de sublime solidez como o álbum do jovem High Contrast Tough Guys Don't Dance, ou mesmo no êxito estrondoso de sua festa Hospitality, uma das mais fervidas de Londres.

Linx se deu bem!
Linx se deu bem!
Porém, todo ano vemos um nome que sobressai entre tantas promessas. Em 2007 Lynx foi o arilheiro. Um nome até pouco tempo atrás desconhecido, este residente de Portsmouth conseguiu tornar-se o centro das atenções após emplacar um sucesso atrás do outro. Faixas como "Mariachi", com sua latinidade sutil e "B Box Roller" com sabor bem urbano, dão prova do estilo cubista de sampling que já se tornou sua célebre marca registrada. Mas foi com a intensa e sincopada "Disco Dodo" que ele estampou sua credibilidade nos cases e laptops dos figurões da cena. Tudo isto lhe rendeu um amplo horizonte de lançamentos para 2008, entre um álbum para a Soul:r de Marcus Intalex e muitos outros releases para Creative Source de Fabio, que deve muito de seu robusto retorno em 2007 ao talento de Lynx.

Qual a desculpa: problema na cabeça ou doença no pé?

Como obviamente nenhum estilo de dance music vive só de sua existência virtual (algo de que o D&B sempre foi bem servido, seja em fórums de discussão como em downloads pagos, podcasts e webradios, encabeçando todas as frentes nos números da internet) muitas festas animaram o cenário local neste ano, embora ainda muito concentradas no eixo do sudeste brasileiro. Esta tendência teve algumas poucas exceções, como os esforços louváveis de núcleos do Centro-Oeste e do Norte/Nordeste que acabaram por alcançar destaques. Entre estes valem ser mencionados as festas de Chris DB no Ceará, as peregrinações incansáveis do matogrossense Marquinhos Espinosa e os eventos realizados pelo pessoal da Vision e do Laboratório em suas atividades na capital federal.

O flyer da FFWD que trouxe AI e Moving Fusion
legenda
Por outro lado, os sortudos residentes de São Paulo e Rio tiveram muitos motivos para não ficarem em casa se o assunto era D&B. Opções não faltaram, desde o Skol Beats e a tenda heptacampeã de audiência, a Marky & Friends, marca que neste ano também retornou com força total em uma nova e receptiva casa: a Clash, até a novíssima FFWD e sua sequência de realizações inesquecíveis com muitos dos mais importantes DJs do cenário internacional atual. Os cariocas tiveram a oportunidade de conferir muitos destes mesmos nomes através das produçôes do núcleo Frequency, que os levou ao Dama de Ferro e outras casas da cidade.

Em geral os paulistas foram bem providos por uma variedade de iniciativas que procuraram cobrir todos os espectros da música urbana britânica, indo da vanguarda do grime e dubstep com o retorno do capitão Kode 9 ao Brasil e as festas de coletivos como Temp e Tranquera, até as animadas realizações da Digital Bombing Brasil e seu bombardeio de raggacore e breakcore. Além disso tudo, as festas fixas e com periodicidade mais constante, como o Subgrave do herói da resistência, o DJ Andy, permaneceram com suas atividades durante o ano que passou, mesmo tendo migrado dos domingos do D-Edge para as sextas no Sala Especial.

Próxima parada: Billboard e London Times (via Dubai)

Enfim, destaques não faltaram no mundo das bases quebradas e graves abissais! Além destes momentos, que são apenas alguns entre muitos que alimentaram a mídia especializada, outros acabaram por transcender as barreiras de rótulos e panelinhas temáticas por sua inegável relevância. Para o melhor e para o pior, 2007 foi um ano agitadíssimo para o D&B. A famosa Ram Records comemorou 15 anos de terrorismo sônico com uma festa memorável no templo londrino The End. E, como se não fosse suficiente, o chefão Andy C arrasou a pista do lendário Glastonbury com um set que vai certamente entrar para a história do evento.

Andy C arregaçando em Glastonbury


Outro nome graúdo da cena que mereceu a atenção da grande mídia foi Grooverider, mas por motivos não tão positivos. Ele ainda se encontra preso nos Emirados Árabes Unidos por porte de maconha e pornografia, delitos levados muito a sério no país regido pela Sharia, a lei islâmica. A intolerância é algo não muito compatível com uma cultura que preza tanto pelo pluralismo como a do D&B, mas às vezes cuidado e caldo de galinha (a ave!) não fazem mal a ninguém. O pioneiro das ondas de rádio acabou por estampar as páginas de tablóides britânicos pelo fato de poder enfrentar no mínimo quatro anos de encarceramento por alguns DVDs ripados no laptop e uns resquícios de erva no fundo da mala.

Agora a subida para o mainstream por parte de Pendulum sem dúvida é um dos ápices do D&B em 2007. Com sua mistura bem peculiar com o rock, este trio de australianos conseguiu emplacar um single atrás do outro nas paradas populares inglesas, teve seu primeiro concerto no Electric Ballroom esgotado no primeiro dia e o contrato com a Chrysalys lhes dando amplo espaço criativo para levarem o D&B como um todo para novos níveis da estratosfera pop.

Pendulum "Granite" ao vivo no Electric Ballroom


E o crossover com o rock não para por aí: vimos momentos brilhantes da dupla Break e Silent Witness, sendo dois dos mais talentosos novatos que emergiram nos últimos anos, criando um remix de proporções épicas para "The Prayer", do Bloc Party, e a promessa de um remix inovador dos garotos tresloucados holandeses do Noisia para Robbie Williams.

Para finalizar e abrir perspectivas para o futuro da música e da cena, é bom ressaltar o sucesso de um projeto de vanguarda tão ousado como o Innamorata do Method Of Defiance, trio novaiorquino que conseguiu congregar experimentalistas de todos os cantos, do D&B ao jazz, gerando uma proposta totalmente nova para o que, até o momento, se concebia simplesmente como fusion. Lendas como Herbie Hancock, Pharoah Sanders e Bill Laswell arriscarem propostas abstratas e musicalidades desconhecidas ao lado de expoentes como Paradox, Fanu e Amit, é algo que podemos chamar de inédito. Mas alcançarem os topos de vendas nas paradas indie norte-americanas é algo que, certamente, delineia um futuro bem próspero para a música.

Raul Cornejo
Raul Cornejo
sheer persuasion
comentários
Gabriel SYA
Gabriel SYA(28.12.07)
1AprovadoQueima
Bela retrospectiva Chico! lynx derrubou tudo mesmo.
Alain Patrick
Alain Patrick(28.12.07)
0AprovadoQueima
Considero um privilégio ter alguem como Bungle entre os produtores Brasileiros. Quanto aos gringos, todo meu respeito à dupla Seba & Paradox :)

2007 foi um ano sensacional para quem procurou diversidade, ecletismo e variedade entre os eventos de Breakbeats: FFWD, Killa Style, Digital Bombing Brazil, Sabotagem, Ziriguidrum.............. as opções são intermináveis.