Coletânea mistura novos nomes da cena com veteranos como Protoculture e Talamasca
Apesar do full-on ter perdido espaço nas festas open-air brasileiras para outras vertentes do trance e até da house, o gênero que marcou uma década de festas aqui no Brasil parece ainda ter fôlego. Além dos velhos figurões, que devem continuar dando as caras em nossas raves por um bom tempo, novos produtores aproveitam o status de potência mundial que o país tem e aparecem aos montes por aqui - sejam israelenses, britânicos ou sul-africanos.
E é com credencial de observador privilegiado que o DJ Feio, uma de nossas principais referências quando o assunto é trance psicodélico, lançou no fim do ano passado a compilação
Backwash pela gravadora Wired Music. O álbum é duplo, com um segundo disco mixado, e faz o papel de vitrine para as novidades do psy que devem chegar aos nossos ouvidos ao longo desse ano. Apesar de veteranos não faltarem, o interessante mesmo é destrinchar a grande variedade de nomes novos disponíveis no mercado; tem projeto mexicano, norueguês, muitos brasileiros e - claro - israelenses.
Como um dos principais incentivadores do trance israeli aqui no Brasil (ele é amigo pessoal dos integrantes do Skazi), Feio não deixou de fora as últimas novidades do país. São grupos que nem disco lançado têm, e que sabem que para se promover, deixar o Brasil de fora não é uma opção. Muitos deles citam em suas biografias (algumas delas têm até versão traduzida para o português) apresentações para dezenas de milhares de pessoas em raves como a XXXPerience, lançamentos por gravadoras daqui e músicas com nomes como "Ilhabela".
NOVIDADES?No primeiro CD, o destaque é o projeto Twilight, do produtor mexicano Javier Martinez. Formado há pouco mais de um ano, ele aparece na coletânea com a sugestiva "Mexican Pipeline". Apesar de não fugir da óbvia linha de baixo galopando sobre uma bateria reta e plástica, a faixa tem levada extremamente dançante e melodia animada, cheia de reviravoltas e breaks estratégicos. O disco mostra também que a produção nacional está madura, com músicas de gente como Audio-X, Mad Hatters e Audio Cactus. O paulistano Skulptor aparece com suas características linhas melódicas açucaradas, com introdução feita sobre acordes de violão e guitarra.
O disco dois, sem paradas para respirar, é um desfile de batidas marcadas, sintetizadores histéricos e hits conhecidos. Como nem tudo é novidade por aqui (a proposta, segundo o release, é fazer uma mistura entre os frutos da nova e da velha geração do full-on), o CD abre com um dos maiores hits de festas open-air brasileiras nos últimos dois anos - "Face It", do Wrecked Machines. A música, feita sobre um sample tirada de "Technologic", do Daft Punk, aparece em um remix feito pelo paulistano Gabe ao lado do holandês GMS.
Nesse disco, representam o time jr. israelense os projetos Krunch e Cosmic Tone (dono de um remix vexatório para
"The Rhythm Of The Night", da Corona, que muito felizmente não está na coletânea). Tem também a novidade britânica Dejavoo, os brasileiros Cosmonet - em um remix para Talamasca -, Vibra e Life Style - remixando a dobradinha Shanti vs D-Tek. O sul-africano Protoculture, referência inspirada dentro do gênero, dá as caras ao lado do Atomic Pulse em "Robotico", mas não faz muito além do de praxe - batidas aceleradas e sintetizadores prontos para ralar qualquer ouvido que se atreva a se aproximar demais da caixa de som.
FUTURO COM JEITO DE FLASH-BACKA coletânea fecha em ritmo mais tranqüilo, com duas músicas de produtores conhecidos por desacelerarem os BPMs. O norueguês S-Range assina a boa "Broadcast" - um dos únicos momentos de toda a compilação em que é possível se ver livre do exaurido baixo em ritmo de galope - e James Monro encerra com "X-Perience".
Apesar de
Backwash se pretender um álbum para quem procura novidades (além de alguns hits), a impressão é de que o gênero está entrando em ritmo generalizado de exaustão. Mesmo os projetos que acabaram de sair das fraldas já parecem contaminados por clichês e lugares comum que fazem esse som perder, aos poucos, seu espaço em festas open-air. Ainda deve demorar muito para DJs e produtores de full-on verem seu público esvaziado por aqui, mas em termos de novidades empolgantes, o panorama não é dos mais animadores.