Flavinha fala sobre o fechamento do clube e relembra festas e fatos desses dez anos
Passada a surpresa (ou resignação) com o
anúncio do fim do Lov.e Club, é hora de entender as razões, e claro, relembrar os momentos de um épico clubber paulistano, que nasceu em 98 com aura de novidade pós-Hell's e sediou festas históricas da cena.
Conversamos por e-mail com uma ocupada Flavia Ceccato envolta em reuniões e trâmites do fechamento do Lov.e e do provável clube que vem aí. Empreendimento este da qual ela se recusa a falar.
A santista comanda o clube da Rua Pequetita integralmente desde 2001, época que o seu fundador Angelo Leuzzi foi morar no Rio e deixou a parceira no comando."Estive ao lado do Angelo desde a abertura, concepção do projeto e programação. Era tudo elaborado em conjunto pelos dois, mas a administração e direção geral eram dele".
Como se deu a decisão de fechar o Lov.e? A marca simbólica de 10 anos de existência ajudou a fomentar a idéia?Na verdade eu estava planejando isso desde o começo do ano passado. Era difícil admitir mas eu sempre soube que esse momento chegaria porque tudo tem que ter fim. Foi o tempo de digerir. Chegar aos dez anos foi uma meta sim, sem dúvida.
Muita gente acha que o Lov.e podia ter sido fechado antes, você concorda?Muita gente acha muita coisa. Muita gente acha que nunca deveria ter aberto, muita gente acha que só foi bom durante a fase do Angelo, muita gente só freqüentava enquanto era "hype", muita gente continua freqüentando até hoje. Eu sigo o meu coração.
Estar na Vila Olímpia em tempos que o bairro não é mais referência na noite contribuiu para o fechamento?Eu detesto este bairro! Quando viemos para cá, só existia o Florestta, era um bairro bem comercial, de fácil acesso, não teríamos problema com barulho, essas coisas... Depois foi aquela loucura, abriram zilhões de casas, as ruas ficaram intransitáveis, abriu o Via Funchal que por várias vezes nos impedia de chegar ao clube, o preço dos estacionamentos ficou exorbitante, a especulação imobiliária fez com que nosso aluguel ficasse astronômico e mais recentemente, empreendimentos imobiliários de alto padrão surgiram na nossa vizinhança e tiraram o nosso sossego (ou nós o deles?).
E o Loveland, continua? Fale um pouco sobre essa iniciativa.Lov.e e Loveland são duas casas e propostas completamente distintas. Loveland continua. A idéia inicial era a de que ele fosse uma extensão do Lov.e, que pudesse proporcionar aquilo que o club não tinha possibilidade, ou seja, espaço mais tranqüilo para que as pessoas pudessem sentar e conversar.
Infelizmente, depois da obra pronta, a prefeitura não permitiu a ligação e o projeto foi abortado. A partir daí elas adquiriram caminhos bem diferentes. É claro que a integração poderia ser maior, essa era a idéia. Se soubéssemos que isso iria acontecer, talvez tivéssemos usado todo o investimento no Land (que não foi pouco, já que tiramos do chão) em uma grande reforma no Lov.e. Mas sem arrependimentos, tenho um orgulho enorme do Loveland, é lindo, com uma proposta diferente de tudo o que tem aí.
OPERAÇÃO DANCING
Essa ação do DENARC, "termômetro para a identificação de novas drogas", como eles mesmos enfatizam, teve início no começo da década incentivada pelo aumento e popularização do consumo do ecstasy e afins. Agentes se infiltravam disfarçados em clubes e núcleos para identificar pequenos traficantes e peixes grandes das drogas sintéticas. Resultado: de 2003 para 2005 a apreensão da pílula saltou de 6500 para 15 mil comprimidos. Clubes e freqüentadores viviam apreensivos com as blitze-surpresa do início da operação, que continua até hoje, agora mais focada nas raves.
De 98 até hoje, por quantas reformas e turning points o clube passou? Foram várias reformas, não tenho idéia de quantas. Mas nenhuma que tirasse as principais características da casa. Eu não queria. Sempre achei que o Lov.e tinha esses elementos muito fortes. Queria que fosse lembrado pelos lustres, pela sala de pelúcia. Por mais que achem brega, ultrapassado. Como seria chegar no club e não ver os lustres?
Acho que o primeiro turn point foi quando o Angelo saiu e eu assumi o club falido, com muito medo de não dar certo. Aí fiz a primeira festa de aniversário na Broadway (de três anos) e foi um sucesso. O Lov.e renasceu. Quando o Oscar passou a sexta para a Eli também foi um momento importante. A japonesa abraçou a causa com uma força que deu no que deu! Em 2003 o Manga ficou fechado para reforma e o Lov.e foi invadido por um público novo, era uma loucura. Filas quilométricas TODAS as noites.
Também tiveram os turn points terríveis. A humilhação nas operações dancing (leia box), a tensão de abrir sem saber o que iria acontecer. O episódio do
tiro foi o mais duro para mim. Foi um pesadelo. Eu queria falar que tinha sido um policial mas não podia. Tinha que esperar o final do inquérito. E neguinho pondo o dedo na sua cara e te acusando de negligência. Sua casa em todos os jornais, na televisão. E você sem poder abrir a boca. Eu queria sumir. Quis sair da noite, montar um carrinho de churros em Santos, vender bolinho por encomenda.
As noitadas memoráveis de Flávia Ceccato"Eu digo que devo estar sendo injusta ao citar algumas noites, porque houve muitas! Sei que depois vou me lembrar e ficar azeda por não ter citado. mas sabe como é... a memória da noite... Vamos lá:
- Mau e Marky num back to back inesquecível
- Marky bêbado, tocando quase sentado, rindo e arrasando
- Miss Kittin (a primeira vez no club) e no Rio
- Laurent para convidados
- Technasia sempre
- Meu aniversário de trinta anos
- Sven tocando descalço e sem camisa
- A primeira do Carola
- Slam numa terça... 1000 pessoas!
- Monika Kruise
- Aniversário do Paradise
- O aniversário no Paramount, da Broadway de 3 e de 5 anos, e do Cocktail de 6 anos
- A catarse no
Anthony Rother- Richie Hawtin na segunda vez
- Vitalic foi foda
- Dilinja
Todos os Technovas durante muito tempo ficarão na memória."
A propósito do fechamento da Lov.e, já vai tarde! Foram anos e anos de perturbação do sossego e do sono dos moradores da vizinhança e até de todo bairro. Se a Vila Olímpia ficou insuportável, com muito trânsito e barulho, isso é graças à própria Lov.e, que não trouxe nada de bom. Os condomínios de alto padrão atrapalham a Lov.e? Ah, pode deixar, a gente manda demolir, ok? Oras, que piada é essa, dona Flávia? Não distorce as coisas. E agora, depois de atrapalhar o nosso bairro por 10 anos, ainda cospe no prato que comeu! Você ficou até demais por aqui. Vai embora logo, já tava demorando. E tomara que todos façam o mesmo, assim deixam a gente de novo em paz, como antes de vocês chegarem aqui!
Foram muitos momentos bons, eu vi a o love.e nascer...
O público que frequenta a casa é muito especial, pessoas que realmente gostam da ME...
Flavia, espero que vc lance outros projetos como love.e com certeza não vai faltar público...
Abs,
Barata.
Technova, Discology e Combustível sempre no coração!
Que venham outras!
Muitas e muitas lembranças, e um papel fundamental na minha carreira e na minha vida. Amei cada minuto do meu trabalho lá, e cada minuto naquela pista. Q venha a próxima buáti!!! XXX