David Bowie, Red Hot Chilli Peppers, Deee-Lite, K.D. Lang, Candlebox e até Hanson na versátil lista de clipes dirigidos pelo cineasta americano
30.01.08 00:55
Se você não está interessado em longas tomadas contemplativas, o pop fotografado pela esquisitice de diretores conceituais, veja a contribuição que o cineasta americano Gus Van Sant deu à música pop ao dirigir diversos artistas em seus clipes.
Na música a coisa é diferente. Há o artista acima do diretor, a estética pessoal e sonora de uma imagem ora já pré-construída, ora a ser (re)moldada. Cabe ao diretor então fazê-lo da melhor maneira possível, dando opções e inserindo criatividade acima de tudo, não impondo a personalidade de alguém que, nesse caso, se limita mesmo a estar atrás das câmeras. De modo que Gus dirigiu de dance music à boy band Hanson, passando pelo grunge e o folk rock, sempre ilustrando bem a imagética sonora dos artistas e suas músicas.
RED HOT CHILLI PEPPERS - UNDER THE BRIDGE No começo dos anos 90, quando Anthony Kiedis estava no fundo do poço da heroína, ele caiu em si ao se ver embaixo de uma ponte de Los Angeles, fazendo o que não devia. A cena quase clichê de tão melancólica foi o pressuposto para os versos de "Under The Bridge", segundo single do estrondoso álbum Blood Sugar Sex Magik e uma das inesquecíveis baladas dos anos 90, contraponto harmonioso ao funky rock dos californianos.
Nesse clipe de 1992, Gus Van Sant mais parece Anton Corbijn belas e simples captações monocromáticas de uma banda ao vivo, um polido acompanhamento visual para uma canção que se sustenta sozinha.
DEEE-LITE - RUNAWAY Foi também nos anos 90 que o hedonismo ressurgiu. Você podia ser um neo-yuppie ou um Paulo Cintura, mas também podia ser feliz com a dance music uplifting, a maior contribuição que a house music deu à história da música.
No clipe de "Runaway" (1992), Lady Miss Kier ainda era magra e serelepe, uma pré-Gwen Stefani que Gus Van Sant ilustrou bem em tomadas aéreas e saturadas, provando aos céus que dançar era a melhor fuga. Runaway!
DAVID BOWIE - FAME '90 1990 era a consolidação final do auge da carreira do camaleão Bowie, e ele, esperto e visionário, relançou a clássica "Fame" em versões remixadas (Arthur Baker, Jon Gass) e hip hop (Queen Latifah!), bem no espiríto do clima energético e de deslumbre da época, conforme já abordado do Deee-Lite.
O clipe de Gus Van Sant cria um mosaico de vídeos de Bowie enquanto ele requebra com bailarinas. Na época o diretor já era um conceituado nome do cinema alternativo, e sua escalação para essa versão profissional de "Fame", mais do que apreço audiovisual, tem uma boa conjunção de nomões.
CANDLEBOX - UNDERSTANDING Em 1995, um ano depois de Kurt Cobain partir dessa, o grunge ainda tinha sobrevida com Soundgarden, Stone Temple Pilots, Candlebox e afins. Época em que jaquetas xadrez começavam a não fazer mais sentido e, sem Kurt, as possibilidades criativas do grunge foram ampliadas até seu esgotamento total por volta de 1997.
Mesmo assim, esse cansaço ainda rendia coisas bacanas, como o clipe de "Understanding", do Candlebox, que teve clipe aquático dirigido por Van Sant. Fica o mérito mais para o vocalista do que para o diretor, porque berrar rock'n'roll submerso no mar não deve ser das coisas mais fáceis.
K.D. LANG - JUST KEEP ME MOVING Gus Van Sant é gay assumido e isso se reflete em sua carreira. Do clássico Garotos de Programa às tomadas de sutileza boy lover em Elefante e Paranoid Park, o diretor americano nunca deixou de celebrar a categoria.
Em seu filme Até as Vaqueiras Ficam Tristes, de 1993, Van Sant deu vida à Uma Thurman como andarilha, a cruzar o país pedindo carona com seu dedo avantajado. K.D. Lang foi a escolha óbvia para esse road movie lesbo, e o clipe de "Just Keep Me Moving", dirigido por Van Sant, mostra uma cantora feliz da vida com sua generosidade caroneira.
HANSON - WEIRD Ok, você detestava os meninos do Hanson e aquela baboseira "Mmmbop", ainda mais numa época freak em que se tinha Prodigy, Trent Reznor e Marilyn Manson a disposição. Mas, justiça seja feita, os irmãos americanos tiveram o azar de surgir na época de Backstreet Boys e afins, subjulgando a sua capacidade de fazer pop folk razoável.
"Weird" (1998) é um bom exemplo: baladinha pegajosa, de boa harmonia, sem firulas adolescentes e inglês gostoso e fácil de acompanhar. A canção foi complementada com o bom vídeo de Gus Van Sant, levando os garotos a cruzar, como verdadeiros flaneurs, com os diversos tipos urbanos da cidade, numa atmosfera quase existencialista que Van Sant faz como ninguém.