Entre a avalanche de lançamentos semanais de minimal e house, de vez em quando tem aparecido quem queira mesmo deixar o seu nome registrado na história musical. Na concorrida cena alemã de 2007, muitos dos divertidinhos e recentes projetos minimalistas têm compartilhado o seu brilho com uma crew emergente, que deixa de vez o underground para levar a sua densidade deep adiante.
Um dos líderes da revolução intimista, jazzy e clubber, assimilada pela nova safra alemã de
deep house minimal, Henrik Schwarz tem excursionado à beça com seu live act, somando fãs new kids on the block aos veteranos seguidores, que já dançavam seus ecléticos sets nos anos 90. Na cidade de Ravensburg, sul da Alemanha, onde nasceu, Henrik chegou a receber na cabine de suas residências gente como Laurent Garnier e Juan Atkins.
O resultado do trabalho redondinho nos dois últimos anos, seu auge máximo nas sessions live de laptop, é a grande aposta da gravadora berlinete Studio !K7, ao reunir 16 diferentes formatos de músicas do cara no álbum "Live".
JAZZ MASTERRepleto de remixes curiosos para tudo que é gente, alguns já lançados antes, o disco foi gravado ao vivo em apresentações por 16 cidades (Tóquio, Manchester, Berlim, Londres, Madri, Roma, Chicago, entre outras). Por onde passou, Schwarz deixou a sua marca de improvisação digital, re-arranjando ao vivo no Ableton até seus próprios hits "Imagination Limitation" e o mais recente "Walk Music". Seu senso jazzístico foi revelado inicialmente pela Moodmusic, do Sasse, quando este assistia encantado o concentrado Henrik criando música nova na própria pista, espontaneamente.
Com cerca de dez anos de produção musical na bagagem, Schwarz assina uma linguagem única nos seus remixes. O estudioso, que não descarta uma jogação, capta o DNA de cada trilha das músicas originais para compor seu meticuloso re-work. Este perfeccionismo remete aos diálogos que rolam normalmente nas re-interpretações entre bandas. Os timbres mais limpinhos e sutis de "Live" estão no re-make de "Earth Beats", do japonês
Kuniyuki.
O também designer gráfico participou da criação da arte da capa, evidenciando a cor negra, e assim, suas maiores inspirações desde pirralho vêm à tona: jazz-funk-soul - confira seu mix
DJ Kicks, de 2007, em que a grande surpresa é o remix para "It's A Man World", de James Brown. Para dançar tocando air-piano. Como a maioria, o vocal também é valorizado, tendo boa projeção em meio às piras hipnóticas da mente
live de Henrik.
O FATOR DETROITEnraizado no passado, sem perder o viés modernoso, Henrik Schwarz ainda derruba (ou renova?) a estigma do clichê jazz-house "fino", graças aos seus pads delicados e viajandões
a la Detroit, rebuscado com efeitos bem menos previsíveis e aliado aos groovões houseiros de pista e percurssão afrobeat, casando house e techno. A progressão é constante na maior parte das canções de Schwarz, que começam bem calminhas e vão ganhando dimensões maiores gradativamente com a aparição de temas. É o que rola em "Karimba Dance", que dá uma boa virada com temperos latinos.
Este primo musical mais novo e branquelo de Carl Craig, em horas, cansa pela demora do ápice em músicas longas e atmosféricas demais, como no remix para "No Sun In The Sky", do
Kraak & Smaak, que vai exigir habilidade dos DJs para servir em seus sets. "Vuoi Vuoi Me", da contora norueguesa de world music
Mari Boine também era um downtempo, que no recorte de Schwarz não sugere muito balanço.
Henrik costuma mesmo esbarrar na complexidade de audições mais difíceis, já que leva a música a sério demais. Seu remix dark e dubby para "Vertigo", do Booka Shade, figura como uma espécie de ruptura na coletêna de cinco anos do Get Physical. Electro-houseiro nos últimos meses, o selo do DJ T caiu nas graças do deep house minimal pelo que se ouve nas recentes edições da famosa mix "Body Language", com Dixon e Chateau Flight. Dá até para enxergar um revival 90s reerguendo Detroit para além de seus ferrenhos seguidores.