5ª compilação do selo francês se divide entre emos e conhecidos produtores da eletrônica
Começa o ano e, deixada a poeira de 2007 pra trás, é hora de vida nova. Vem a calhar então o lançamento no começo de fevereiro da quinta compilação do selo/loja francês Kitsuné Music, já consagrado celeiro de esquisitices e boas novas da tríade - ou híbrido - da eletrônica, do rock e do pop.
Numa sinopse prévia,
Kitsuné Maison Compilation 5 vale alguma nota pelas poucas faixas excelentes criadas por gente experiente (Fischerspooner, Alan Braxe, Digitalism) e outras (mais poucas ainda) novidades curiosas (David E. Sugar, AutoKratz).
Não tem a aura de novidade dos tempos de big-bang new rave da Kitsuné Maison 3 (2006, com Klaxons, SMD, Boys Noize, Gossip); nem tem a baciada de deliciosas novidades da quarta edição da coletânea, lançada ano passado e que trouxe ao mundo gente como Crystal Castles, The Whip, Foals, Dragonette, Hadouken e outros.
A VOLTA DOS QUE NÃO FORAMFischerspooner, 2008

Mais do que às raves dos anos 90, todo esse neo-electro deve muito ao electroclash, que permitiu experimentações e exageros pop em tempos que a linearidade, o BPM e o loop eram dogmas na eletrônica. Lembra do Fischerspooner? Hits bobinhos e hedonistas, afetação e performance? Legal, mas tudo fadado à datação e a um marasmo próximo.
Eis que eles voltam com glórias nessa
Kitsuné 5. "The Best Revenge" é pop classudo, não tem cancro oitentista synth-pop e mostra um Casey Spooner em forma: do bom jogo entre vocais/backing-vocals e nos blips duelando com trompetes, é um ressurgimento bom de se ver do grupo nova-iorquino.
O produtor Alan Braxe está desde os tempos de primórdios Daft Punk na ativa, numa carreira discreta e prolífica, que tem hits pontuais ("Rubicon") e remix históricos com seu parceiro Fred Falke (Goldfrapp, Kelis). Para a Kitsuné, Monsieur Braxe brinca de Timbaland tranceiro com a rasgada "Addicted". Um tranceu bem europeu, alma hip hop cheia de gritos abafados e esparsos, numa levada black music eletrocutada que é só cantar qualquer letra do Justin por cima que encaixa.
E da vizinha Alemanha vem o Digitalism, que não passa despercebido na coletânea com a o techno-rock epopéico de "Pogo", remixado por eles mesmo na
uplifting versão "Digitalism's Robotic Remix".
REMIXES POR QUILOColetâneas às vezes pecam pela incoerência, com seus momentos discrepantes que assustam e não permitem que o álbum seja "redondo". A
Kitsuné 5 sofre um pouco desse mal, culpa de alguns remixes. Veja por exemplo a descabida versão hardcore de "XR2" (M.I.A.) e a questionável versão guitar-trance para "Homecoming", fofura indie dos Teenagers. Parece faixa mal-encomendada, acabou ficando um AbSuRdiNhO feita por gente desconhecida (Silverlink vs Kick Like a Mule; Gentleman Drivers), só para constar outros famosos na coletânea.
Desnecessário, assim como o remix lesbo-Nintendo-punk do Cansei de Ser Sexy para "Fuck Friend", dos franco-ingleses do
Bitchee Bitchee Ya Ya Ya. Nesse caso, prefira a original, rockzão feminino cru, rápido e rasteiro.
Em breve, numa pista próxima de você

FALANDO EM ROCK, O FATOR EMOft_emo_200.jpgAs guitarras passam meio batidas nessa coletânea comparada aos bons produtores, que acertaram a mão na fusão de diferentes estéticas eletrônicas (o electro-pop sabor caramelo de "To Yourself" de David E. Sugar; e "Circulate", que tem neo-trance chupinhado de "Go", do Moby, nas peripécias do sempre criativo francês Rex the Dog).
E deve-se atentar a um sinal dos tempos:os emos. Já se passam alguns poucos anos, tempo suficiente desde que jovens de olhos pintados e sexualidade duvidosa dançavam em 2006 ao som de "I Write Sins Not Tragedies", do Panic at The Disco. Alguns eminhos já fizeram 18, 19 anos, e agora dançam ao som das batidas - alguns já devem até ter tomado uma balinha. Então o electro-rock é uma saída viável para quem foi emo e agora se enxerga mais como roqueiro alternativóide, que "curte umas baladas". Sério, é um público a se atender num futuro bem próximo.
Pin Me Down

"Cryptic" é o exemplo máximo. Rockão da dupla
Pin Me Down, formada - veja só! - pelo guitarrista Russel Lissack (Bloc Party) e a vocalista Milena Mepris, tem
bass de New Order, gogó pop estriônico de Gwen Stephani e guitarrinhas acelaradas, raivosas..., emo!
No mais, a quinta compilação da Kitsuné vale pelos momentos de diversão e os poucos momentos de espanto musical. Do lado das guitarras, algo mais maduro e além da gritaria adolescente poderia ter sido elaborado (No Kitsuné 4 eles tiveram a decência de convocar o Whitey).
Talvez isso seja uma prova de que, nesse mundo new rave, o melhor mesmo sejam as fusões eletrônicas trabalhando a serviço do pop rock, e não guitarras de 20 e poucos anos querendo dominar por completo o lugar das batidas na pista. É um acordo justo, e se até o Fischerspooner conseguiu provar isso, acho que estamos combinados, meus caros emos.