Produtor francês fala sobre sexo: transes eróticos, garotas de collant e broxadas musicadas
Na ocasião do lançamento do último álbum do produtor Dominik Eulberg,
Bionik,
contei aqui no
rraurl.com como foi a experiência de ouvir ao disco cercado pela flora e pela fauna em que o alemão diz se inspirar. Algum tempo depois,
descrevi o som do Cobblestone Jazz à luz da sonoridade do jazzista Thelonious Monk. Agora, às vésperas do lançamento oficial de
Sexuality, novo trabalho do francês Sébastien Tellier, a melhor maneira de compreender o disco talvez seja também através de uma experiência de imersão; mas nesse caso a meia-luz, ouvindo sussurros de prazer no lugar do assovio de pássaros
Tellier é obcecado por álbuns monotemáticos. Seu disco anterior,
Politics, saiu em 2005, pela Lucky Number, com músicas que passeavam por temas políticos. Daí saiu seu maior hit, "La Ritournelle", que mostrava a sua inclinação por composições extremamente melódicas e preciosistas. Já em
Sexuality, o francês deixou a política de lado para tocar em um tema que parece ter muito mais a ver com o tipo de música que ele produz - a sexualidade em seus vários planos, tanto no físico quanto no sentimental.

Sébastien é figura relevante na Europa porque amarra algumas pontas da cena francesa. Enquanto tem contato com as diversas facetas do rock de lá, via Record Makers - selo do Air que abriga artistas de soft-rock e neo-kraut -, ele também está envolvido com os principais produtores do novo electro do país. Já trabalhou com SebastiAn na trilha-sonora do filme
Steak, co-produziu "Stunt" com Mr. Oizo e é colega de gravadora de Kavinsky.
Como se não bastassem tantas boas conexões,
Sexuality foi co-parido por Guy Manuel de Homem-Christo, metade do duo Daft Punk. A mão do andróide aparece principalmente em "Elle", uma faixa sobre o pós-transa, quando "tudo está completamente perfeito e você não pensa em nada", na definição do próprio Sébastien. A maior parte do álbum é composta por synth-pop de cabaré, recheado por samples de gemidos femininos e uma latente aura de sensualidade.
GYM GIRLSA principal faixa do disco, "Sexual Sportswear", nasceu de uma tara de Tellier por meninas vestindo roupas de ginástica. Segundo o músico, é "sobre uma linda mulher em uma bela casa. Ela tem um personal trainer e, depois de alguns exercícios, o treinador a despe dos trajes esportivos". A música começa com um crescendo épico, ao qual se junta um melodioso sintetizador em arpejo. São mais de sete minutos de transe erótico marcado por um bumbo poderoso, sem nenhum vocal.
Vídeo de "Sexual Sportswear"A ótima "Kilometer" é composta com a voz de Sébastien se desenrolando sobre um vocoder robótico. O arranjo é minimalista e a levada envolvente, salpicada por samples de gemidos e por um baixo arredondado. Já "L'Amour Et La Violence" encerra o álbum com belos dedilhados de piano e uma melodia melancólica. Segundo Tellier, essa é sua "canção mais sincera. Ela revela ao ouvinte que eu não sou um rei do sexo, mas um cara normal com um belo sonho erótico".
Mas o clima de motel pode ficar sacal às vezes, como na morna "Une Heure" ou na devassa "Pomme". Apesar de apelar a gemidos femininos durante toda a faixa, o clima monótono fica mais para uma broxada resignada que para uma noite de amor caudaloso.
Parece que em seu esforço de tornar
Sexuality uma ode à lascívia (nem a excelente arte da capa foge ao tema), Tellier acabou reproduzindo também os aspectos capciosos do amor carnal. Talvez durante um porre etílico o disco atraia à primeira ouvida, sem preliminares e sem intimidade. Mas do contrário, para apreciar com gosto é preciso chegar com mais calma, ouvir sem pressa, e aí sim tirar do disco seu sumo de deleite espiritual.