O termo
disco possui uma estranha força de atração. A ele, já se colaram termos como "funky", "punk" e "space", além de uma longa lista de outras denominações que podem não ser um primor de criatividade, mas ajudaram a refrescar a música eletrônica em algum momento de sua história. Nesse começo de ano, as guitarras ligeiras e os baixos geométricos que incendiaram clubes na década de 70 estão voltando à voga, e a dupla Padded Cell está entre os artistas que navegam ao sabor dessa onda.
O duo se formou em Londres, em 2002, pelos produtores Richard Sem e Neil Beatnik. Eles fazem parte da turma da DC Recordings - celeiro londrino da neo-disco e casa de artistas como
The Emperor Machine. Richard e Neil são pais de uma disco de alma dark graças às atmosferas densas de suas faixas, misturando os instrumentos tocados ao vivo samples recicladas de disco em suas composições.
Padded em ação!

O Padded Cell se apresenta amanhã (15/2) no clube paulistano D-Edge, e sábado nas Casas Franklin (16/2), Rio de Janeiro, como convidados da penúltima festa do projeto FASE. Aproveitando a passagem dos londrinos pelo Brasil, o
rraurl.com os convidou para falar sobre linhas de baixo, influências e claro, disco music.
Em sua biografia oficial diz que o projeto apareceu como "uma resposta ao conservadorismo da dance music no começo do milênio". O que isso quer dizer?Boa parte da dance music estava sendo feita com os mesmos softwares [de produção], então soava tudo igual. Mais gente está fazendo música, então é mais difícil encontrar faixas boas. Há alguns sons incríveis saindo agora, mas 80% do que circula é pura porcaria preguiçosa. Com o Padded Cell, nós tentamos fazer um som único que reflita os nossos arredores.
"Konkorde Lafayette", "Moon Menace", "Faces of The Forest"; suas faixas parecem ser bem teatrais, até dramáticas. Como vocês criam suas músicas e qual o papel das batidas e do BPM nisso? Quão orgânicos e quão eletrônicos são os loops e instrumentos?Nós começamos com samples e breaks de disco, improvisando a partir daí e adicionando nossos próprios sons. Então chamamos alguns amigos para tocar instrumentos, fazer improvisações sobre nossos grooves. Misturamos a parte orgânica e a eletrônica.
Quais são suas influências? Funky-disco ou electro trevoso dos anos 80? A música de vocês parece estar situada numa linha tênue entre amantes de disco e roqueiros negros que queimaram esses álbuns no fim dos anos 70...Todos que você citou! Nós dois temos uma grande variedade de influências e gostos musicais. Para o Padded Cell, começa com disco, mas vai ganhando elementos mais obscuros que vão de trilhas-sonoras de horror a electro e new wave.
O baixo parece soa bem destacado e importante na música de vocês. Como vocês o criam? Quais são suas linhas de baixo favoritas?O baixo é muito importante - bateria e baixo são os elementos-chave para fazer dançar! Para essas linhas, menos é mais - quanto mais simples, melhor. Nós ouvimos muitas linhas de disco antiga, obviamente Chic. Faixas como "Good Times" ou "Another One Bits the Dust", onde o Queen paga tributo ao Chic, são realmente incríveis. E um exemplo mais recente é a "He Not In", do Chicken Lips - é tão simples, mas efetiva. Nós chamamos amigos para tocar baixo ao vivo às vezes, mas também usamos linhas feitas com sintetizadores.
Você acha que a música dos anos 2000 se trata apenas de reciclar influências e antigos gêneros? Onde você se situa, quando está criando música, em uma cena musical como essa?Toda a cena techno, electro e minimal está criando músicas e sons que nunca haviam sido ouvidos antes, e a produção pode ser bem futurista e inovadora. Novamente, tanta música é feita que fica difícil encontrar coisas boas, você tem que procurar pelos 20% que são ótimos. O que pessoas como nós e
Emperor Machine fazem é pegar influências passadas, mas usá-las em produções modernas. Não há sentido em ser completamente retrô e copiar o que já foi feito, mas também não é bom quando a tecnologia e a superprodução substituem o aspecto mais importante [de compor], que é ser criativo.