Baixos BPMs, produtores e cases versáteis e espacialidade etérea na música atual trazem de volta a sonoridade de Ibiza
A marola atual de grooves cósmicos, disco-dub, nu-disco, fusões de pop/rock suave com batidas eletrônicas, entre centenas de lançamentos com bom espaço entre os BPMs, está reabilitando um veterano de primeira hora do
acid house. Estamos falando de "balearic", um termo antigo que está mostrando sua cara bronzeada de novo.
A Mountain of One

É o pop luminoso do
Tough Alliance, as levadas edificantes do
A Mountain Of One, o house lusco-fusco do
Aeroplane, as jornadas transcedentais do
Studio, os dedilhados sonhadores de Smith & Mudd, as produções-solo de
Al Usher (metade do Partial Arts com Ewan Pearson -
ouça abaixo), o suingue espraiado do
Mudd e os momentos mais contemplativos de sets de DJs de "space disco" como
Lindstrom, Prins Thomas e Todd Terje.
Balearic define uma porção de música leve, lânguida, com melodias pacificadoras, quase sempre de base eletrônica e suingada e que muitas vezes funde uma sensibilidade pop com tonalidades étnicas (folk, afro, dub, Oriente Médio, flamenco). É um som de bem com a vida. E está mais para "sun disco" do que "space disco". Timm Sure, DJ e produtor do projeto Coyote e dono do selo
Is It Balearic? definiu assim seu som: "Épicos dub-funk para espairecer na praia que fazem todo o sentido quando o sol está se pondo."
Flash Content
Al Usher - Her Today (mp3)
Al Usher - Here Today (mixed by Ewan Pearson)Flash Content
The Tough Alliance - Miami (mp3)
Tough Alliance - MiamiTudo a ver, afinal essa história toda nasceu nas quentes areias de Ibiza há 20 anos.
HISTÓRIATerry Farley desprezava os 'acid teds', fritos da época

O nome "balearic" vem das Ilhas Baleares, o conjunto composto por Majorca, Menorca e Ibiza. O termo surgiu com a turma original da acid house inglesa. São os DJs ingleses que foram para Ibiza em 1987 (Danny Rampling, Paul Oakenfold, Nicky Holloway e Johnnie Walker) e se encantaram com baladas movidas a ecstasy e a discotecagem eclética e ensolarada do DJ Alfredo, no clube Amnesia. O local era uma casa de fazenda cercada de bela paisagem, com a pista a céu aberto e as pessoas eram uma mistura de jet setters hedonistas, freaks da ilha, gurus indianos e aventureiros europeus de todas as partes.
Nas pick-ups do argentino Alfredo, rolavam coisas bem díspares, como o ambient de Manuel Gottsching em "E2-E4", Chicago house, euro-pop meio cafona tipo Pino D'Angio e Tulio Piscopo, rock suave como Fleetwood Mac e Chris Rea e indie rock como "Why, Why, Why", do Woodentops. Também podia rolar Sade, Art of Noise, Barry White, Carly Simon, America e Black Uhuru. Dançando descalços na areia, olhando para as estrelas no céu, os ingleses resolveram chamar esse mix paradisíaco de "balearic beat".

Com a piração da acid house escalando nos clubes ingleses, o "balearic" virou um contraponto balsâmico a esse frenesi, um refúgio onde os pioneiros da conexão Ibiza-Londres podiam evitar as novas hordas suadas de acessório fluor e camiseta smiley. O fanzine
Boys Own (foto), feito por uma turma que incluía os DJs Andrew Weatherall e Terry Farley (e que daria no selo
Junior Boys Own), desde o começo caía de pau nos "acid teds" (os sem-noção da cena acid house) e lamentava que a seleção musical ficava cada vez mais homogênea (os discos que "bombavam" - Percebe como esse tipo de cisão é antiiiiiga na cena eletrônica?)
Mas por mais que se pregasse o ecletismo na discotecagem, "balearic" tinha virado meio que um gênero quando os anos 90 chegaram. Batidas funkeadas mas não-agressivas, guitarras melodiosas, sintetizadores gostosos, percussão fluída, uma pincelada ambient aqui, um retoque étnico ali. Eram discos como "Afro Dizzi Act", do Cry Sisco, "Cascades", do Sheer Taft, "Barefoot in the Head", do A Man Called Adam, "Sueño Latino", do Sueño Latino, "Flotation", do The Grid e "Snappiness", do BBG. Nos anos 90, essa estética acabou se diluindo e se perdeu no imenso guarda-chuva da música de chill out, das coletâneas de Cafe Del Mar e "lounge music".
BALEARIC X NU-DISCOO ressurgimento atual do balearic como proposta e gênero só podia ter rolado através da cena (?) que é hoje a mais solta em termos musicais: a nu-disco ou space disco ou... sinceramente, quanto mais ouço sets e produções desse universo tenho problemas em aplicar um rótulo restritivo para tudo que rola. Talvez seja por isso que "balearic" faça tanto sentido nesse contexto.
Prins Thomas toca de tudo

Todd Terje fazendo edit de "
Club Tropicana" do Wham! (que teve clipe filmado em Ibiza, aliás -
ouça abaixo), a faixa "The Contemporary Fix" (Lindstrom -
ouça abaixo) e Prins Thomas tocando Ed Motta no D-Edge são apeans três exemplos de como a trinca de ouro da "space disco" é, acima de tudo, super "balearic". Prins Thomas, por exemplo, aparece como amigo no
MySpace de quase todo o pessoal do novo "balearic".
Faz todo sentido já que, no tempo da disco original, nos anos 70, os sets eram ecléticos (pense especialmente nas misturebas de Larry Levan no Paradise Garage ou na cena "afro-cosmic" italiana, de Daniele Baldelli).
Flash Content
- (mp3)
Wham! - Club Tropicana (Todd Terje edit)Flash Content
Lindstrøm - The Contemporary Fix (mp3)
Lindstrom - The Contemporary FixAs distinções entre space/nu disco e balearic, portanto, estão bem borradas. No site da loja
Plastic Fantastic, por exemplo, a seção de "balearic" é agregada a de "nu disco". Enzo Amico, metade dos Balearic Brothers, que faz festas em Brighton, e sócio da loja Plastic Fantastic tentar cercar o bicho: "No sentido mais puro balearic diz respeito a música que te faz sentir bem, te faz sorrir e não tem pretensões de ser algo mais que isso," contou ele para o site do jornal inglês
Guardian.
NEW BALEARIC
"Can't Be Serious" (A Mountain of One)
"Shulme" (Smith & Mudd)
"Caramellas" (Aeroplane)
"A Contemporary Fix" Lindstrom)
"Path" (Citizen Kane)
"Here Today" (Al Usher)
"Miami" Tough Alliance)
"Life's A Beach" (Studio)
"Running Up That Hill" (Ashley Beedle edit) Kate Bush)
"Yellow Fever" (Reverso 68 remix) (Bakazou)
BALEARIC CLÁSSICO
"Cascades" (Sheer Taft)
"Flotation" (The Grid)
"Barefoot In the Head" (A Man Called Adam)
"Natural Thing" (Innocence)
"City Lights" (William Pitt)
"Snappiness" (BBG)"
"Why?" (Carly Simon)
"La Passionara" (Blow Monkeys)
"Afro Dizzi Act" (Cry Sisco)
"Josephine" (Chris Rea)
Apesar de certos parâmetros definirem um som como "balearic", todos os envolvidos na cena insistem que ele não é um gênero e sim uma atitude musical eclética, que não se prende a rótulos ou dogmas, ou seja "balearic" segundo o espírito original dos sets de Alfredo no Amensia. "O que é balearic é a pergunta mais difícil de todas! Era qualquer coisa que Alfredo tocava no Amensia de Ibiza entre 86 e 89", diz Phil Mison, veterano envolvido nos grupos Reverso 68 e Cantoma e ex-residente do Cafe Del Mar. A entrevista era para o site
Cool In The Pool, que traz diversos sets da turma baleárica.
CABE DE TUDOEssa essência eclética do balearic significa que ninguém deve levar o rótulo muito ao pé da letra. Um set de balearic acomodaria muito bem faixas como "Golden Skans", do Klaxons, "In White Rooms", do Booka Shade, "Umbabarauma", do Jorge Ben, "I Want Your Love", do Chic, "Lovefood", do Michael Mayer, "Come Together", do Primal Scream, "Keep On Movin'", do Soul II Soul, "The Man With the Red Face", de Laurent Garnier, "Lullaby", do The Cure, ou ainda muita coisa do catálogo da Sonar Kollektiv.
Vale a pena checar as seções de "New Balearics" e "Balearic Classics" da loja inglesa
Pure Pleasure Music e ver o tamanho da variedade musical. Outra loja bem servida de balearic é a
Piccadilly Records, de Manchester. Além dos nomes já mencionados, vasculhe produtores/projetos como Visti & Meyland, Krisnadanoff, Phoreski, Citizen Kane e Williams e DJs como Moonboots, Harvey, Mudd, Sell By Dave e Balearic Mike.
Ah sim, e não esqueça do protetor solar e do repelente!
Além de uma simpatia, conhece muito de música.
E não posso esquecer do Metro Area, classico eterno.
O Monkey Show vive disso.
E Viva o Alfredo!
Mudam-se as referências, mudam-se as "tags", mas o bom e velho "leftfield" sempre esteve aí pra quem quisesse, visto programas de rádio que nunca deixaram de divulgar tais produções desde a queda do termo "Chill Out/ Lounge Music".
Fico muito feliz de ler textos sobre essa área tão rica da música eletrônica que foi tão prejudicada pelo "mercado do luxo" (hotéis/lojinhasdesign/bares europeus e seus cds malditos!).
Boas melodias sempre terão espaço, seja no meio da house, no minimal, etc etc e até mesmo disfarçado em meio a bases complexas e perturbadoras em alguns idms.