Principal evento do Rio de Janeiro teve Anthony Rother e Oliver Huntemann como atrações
A Barra da Tijuca foi dormir mais tarde na noite do último sábado (01/mar). O Chemical Music Festival, maior evento de música eletrônica da capital fluminense, chegou à sua quarta edição com shows de Anthony Rother, Minilogue e Sebastian Ingrosso, numa estrutura que contou com palco principal e outros três menores. As 17 mil pessoas (segundo estimativa aproximada da organização) que estiveram na festa não foram suficientes para abarrotar os espaços, e havia lugar para dançar confortavelmente em todas as tendas, exceto durante o show das atrações de trance, que arrebanharam a maior parte do público e comprovaram qual é a preferência nacional.
Oliver Huntemann

O destaque foi a disposição da estrutura. Ao contrário de outros grandes festivais, as tendas ficavam separadas por uma curta distância, o que permitiu ao público circular com tranqüilidade entre elas sem ficar com os músculos distendidos ao final do evento. Apesar do som embolar em alguns momentos, era só ficar mais distante das laterais para escapar do problema. A chuva que caiu no começo da madrugada não atrapalhou, e o gramado extenso ajudou a evitar o lamaçal. Vale também uma menção honrosa para a vodca, que ao contrário de São Paulo, no Rio pode ser comercializada em grandes eventos.
Das atrações internacionais, os destaques foram as apresentações da tenda "Club Platina", onde tocaram Oliver Huntemann e seu conterrâneo, o alemão Antony Rother. Esse último colocou seu maquinário para funcionar por volta das sete horas da manhã, quando o sol já começava a rachar no Rio Centro. Seus quilos de teclados analógicos ficaram sob uma lona sobre o palco durante toda a madrugada, e descobertos enquanto Huntemann encerrava o set com seu explosivo remix para "Everything Counts" (Depeche Mode). Rother subiu à cena com cabelo estilo moicano e um cachecol meio deslocado para o calor carioca que já começava a estalar. Tocou electro da velha guarda, soltando sua voz monotônica - por vezes filtrada por vocoders - sobre batidas quebradas e sintetizadores inorgânicos.
Alien Project

FALTOU AR NO SOUNDSYSTEMO "Lounge Oxigênio", que tinha uma proposta de menor apelo com o grande público, teve problemas técnicos com o som. Dedicada ao minimal techno e à space disco, sua principal atração era a dupla sueca Minilogue, que entrou atrasada depois do set do DJ Maurício Lopes - que já teve que encarar o retorno de som problemático. Em seguida, Marcus Henriksson tirou o gorrinho que usava desde o vôo para o Rio de Janeiro e libertou sua portentosa franja. Subiu ao lado de Sebastian Mullaert e juntos apresentaram um sofisticado live de minimal techno mutante (com os timbres mudando repentinamente, ao sabor dos movimentos do duo), tanto em seu aspecto técnico como no musical. Quando foi a vez de Renato Ratier, a música parou de vez. Segundo a assessoria, o gerador de energia falhou e ocasionou o apagão temporário.
A "Arena Ouro" foi espaço para houseiros e
bis fervidas. Entre os DJs, a atração mais esperada era o sueco Sebastian Ingrosso, mas tocaram também os cariocas Marcelinho CIC e Leo Janeiro, além de um time composto por DJs do clube the Week. No meio da madrugada, musculosos descamisados subiram para dançar sobre plataformas levantadas no meio da pista. Ali, ouviu-se "Sweet Dreams" (Eurythmics), "Cream" em remix houseiro, entre outras faixas distantes do minimalismo das tendas vizinhas.
Um pouco mais distante, meio que num universo à parte dos outros três espaços (tanto fisicamente quanto conceitualmente), a maior parte do público do festival entrava num profundo estado de êxtase com o trance saído do palco Mercúrio, o maior do evento. Entre os momentos de maior agitação do público esteve a apresentação dos mascarados Krome Angels - trio formado por Dino Psaras, Shanti e Deedrah. Já o israelense Skazi, um dos destaques do lineup do palco, perdeu o vôo e não conseguiu se apresentar no festival.
Canta, Anthony!

Apesar da escalação extremamente variada ter causado arrepios em brios puristas, a disposição física das atrações garantiu uma convivência pacífica entre os diversos tipos que circularam pelo festival - de tranceiros playboys a modernos e suas camisetas da DFA. Diversidade a parte, o que pesou no line-up foi a falta de inovação, que trouxe nomes que há muito circulam por clubes e festivais brasileiros como Huntemann e o próprio Minilogue, dois dos headliners. Apesar de não arriscar e apostar apenas em nomes já consagrados pelas multidões, o Chemical Music mostra de que é possível fazer grandes festas no Brasil sem que o nome do evento esteja diretamente ligado a mega-corporações, o que já é um passo na direção oposta ao
statuo quo clubber tupiniquim.
Fotos: Renata Macedo
O repórter viajou a convite do evento.