ESPECIAL: três nomes irrefutáveis do techno falam sobre os rumos do gênero e da música
Vamos falar de techno. Três expoentes da raiz mais espessa do que chamamos de música eletrônica aportam esse mês no Brasil: Surgeon, Adam Beyer e Marco Carola. São velhos conhecidos do público brasileiro, e qualquer papo informal lembrando de seus sets vira discussão acalorada para escolher qual foi o mais marcante.
(Um registro aleatório nosso: Surgeon na Circuito de Natal em 2005, Adam Beyer na Circuito do Clube Nacional em 2003, e
no D-Edge com Richie Hawtin e Marco Carola em 2005. Carola é dono também de um memorável set no Lov.e em 2001)
São três músicos e nomões europeus das mixagens, que representam um bom panorama musical e geográfico do techno fora do atual epicentro germânico do 4x4 mais minimalista. O inglês Surgeon, o sueco Beyer e o italiano Carola vêm de núcleos, cenas e destaques distintos. Mas todos são bons produtores e performáticos do beat mais marcante da eletrônica, que se confunde com a história do gênero quase e de tudo que surgiu desde então, inclusive esse site que você lê agora.
Nessas
cinco perguntas especiais, questionamos os três a respeito dos rumos do techno e da música, além de tentar pontuar as ligações atuais do gênero com suas carreiras e evolução como músicos.
Não faz muito tempo um jovem rapaz, DJ de techno há alguns anos, veio e conversou comigo sobre como estava cansado de sua música, como estava exausto de viver numa cena que "parecia ter parado em 2000, 2001". Ele falou não estar mais interessado em gêneros, mas sim na versatilidade da música e como até as festas hypes de maximal e new ravers eram mais divertidas que uma festa de techno.
Adam Beyer

Grosso modo, ao menos aqui no Brasil, o techno continua forte, mas parece caminhar para o gueto. Vocês acreditam ser esse o caminho do techno?Surgeon: Não estou em posição de falar sobre a cena de techno no Brasil. Por tocar no Reino Unido e na Europa por mais de 15 anos, eu vi muitas mudanças, muitos estilos irem e voltarem. Já perdi as contas de quantas vezes já me disseram "
techno is dead". O techno é como um vírus, se transformando e sempre sobrevivendo de alguma forma.
As festas que eu participei no UK nos últimos anos foram as melhores em que eu já toquei, ainda mais quando se fala em qualidade e diversidade da música. As ovelhas sempre seguem o estilo hypado, e daí crescem e se cansam. O problema sempre foi - e sempre será - música chata, tocada por DJs chatos, para pessoas chatas.
Adam Beyer: Não mesmo! (O techno) tem sido a mais progressiva forma da dance music. Tendências e sons estão mudando quase de mês a mês, e ainda estou super-excitado mesmo após 19 anos tocando. Algumas pessoas que viveram no estilo de techno dos anos 90 talvez tiveram dificuldade em gostar da ênfase minimal que o techno ganhou, que é influência do começo da década passa.
Mas para mim foi um prazer, já que eu estava cansado de tanto
loop.
Marco Carola: Há muitas direções que o mesmo estilo de música pode tomar, dependendo do país. O techno minimal agora está ficando cada vez maior na Europa e em alguns outros países, mas não é o mesmo em todo lugar.
A música eletrônica, como você diz, pode ser versátil e tomar direções que eu mesmo não gosto, e às vezes as pessoas ficam confusas com o sentido do techno. No fim do dia quem decide para onde a música vai num país é a mídia e os promoters. Se algum deles confiam, gostam e apóiam novos sons, as pessoas acabarão ouvindo a mesma coisa e ficarão exaustas.
E as pessoas da indústria musical poderiam esquecer-se do dinheiro e tentar lidar com boa música underground.
Surgeon

Ainda sobre o techno: vocês acham que seria bom se esta música se tornasse um pouco mais valorizada, mais "hype" mesmo, como forma de revitalização? O que tem de bom e de ruim no techno hoje?Surgeon: Hype = mais ovelhas. É isso.
Adam Beyer: Todos os novos discos do
Drumcode!!!! Haha, não, mas sério, há um monte de novas coisas e eu estou muito feliz de ver o Drumcode se fortalecer de novo. Estou muito orgulhoso do material que eu recebi dos meus artistas.
Marco Carola: Eu acho que a coisa ruim do techno é ser um tipo de música sem um apelo fácil - você provavelmente não irá entender a primeira vez que ouve. Mas ao mesmo tempo é uma grande satisfação quando você tem um público de techno apropriado.
Com outros estilos de música é mais fácil ter gente nos clubes que não sabem nem porque estão lá, isso não é nenhuma satisfação do ponto de vista do artista.
A música eletrônica perde um pouco de sua identidade ao se fundir cada vez mais com outros gêneros, inclusive pop e rock?Surgeon: Isso é uma afirmação estúpida. É como me perguntar "o vermelho tem ficado mais vermelho?"
Adam Beyer: Não, sempre há música eletrônica inovadora por aí, quando uma cena cresce em idade é sempre normal acontecer fusões com outras coisas, mas isso não significa que não possa ser excitante e fresco, você só tem que achar a coisa certa.
Marco Carola: Isso é algo que mostra quão diferente a música eletrônica pode ser. Meu estilo não tem nada a ver com pop ou rock. Algumas pessoas até misturam música pop com sons eletrônicos, não é meu estilo mas eu não tenho nada contra se não for ruim ou soar muito comercial.
Derrick May disse, em seu blog: "Que tempo chato para ser um DJ, sem mais lojas de discos. Ficar online ouvindo downloads é a coisa mais irritante que eu tive que fazer em muito tempo (HORRÍVEL É A PALAVRA). A pior coisa é baixar uma faixa achando que vai ser legal tocar e daí é uma merda. Não dá também para você ouvir uma faixa no computador com pressa.
Esse não é o futuro que eu e Juan Atkins deslumbramos, mas é o que é. Eu vou continuar detonando com vinis até não poder mais, de CDs eu não quero nem saber e downloads, "i ain't down for the load".
Essa é uma velha discussão já - antiga porque a tecnologia na dance music é uma realidade mainstream. Deixando de lado qualquer nostalgia, vocês sentem o mesmo que Derrick, de alguma forma?Surgeon: Derrick May deveria fazer novas músicas e parar de reclamar.
Adam Beyer: Bem, eu lembro dos velhos tempos e existem várias boas memórias, mas você fica velho demais nessa cena se começa a ser sentimental sobre tudo.
Eu tento estar nas fronteiras do que é novo, das novas tecnologias e mudanças. Ficar sentado desdenhando dos outros e do status corrente da cena não me levaria a lugar algum.
Marco Carola: Eu acho que isso é um homem velho falando! Eu estou com a tecnologia e apoio a tecnologia! Existem várias razões para se alegrar com isso, do meio-ambiente à disponibilidade da música, estou feliz em promover a indústria de downloads com algumas faixas que fiz apenas em MP3 ou WAV.
Marco Carola

Outra importante razão porque eu apoio a tecnologia de download é que a música pode ir para todos os lugares, sem as restrições apenas para países onde se encontram os vinis. Eu não gosto de tocar com CDs, estou tocando com Final Scratch e com isso ainda tenho o toque do vinil. Realmente não sinto falta de nada de antes.
Como você assimila o termo TECHNO na sua carreira?Surgeon: Techno é uma definição muito pessoal. Para mim sobrepõe estilos e subgêneros que outras pessoas chamam de electro, dubstep, grime, electronica, industrial, etc.
Adam Beyer: Bem, para mim é mais de metade de uma vida de dedicação, e ainda toma 80% da minha vida dia a dia.
Marco Carola: Para mim techno representa o estilo de música que é parte da nossa geração, todo mundo da minha idade que vive num mundo civilizado cresceu com computadores e sons eletrônicos, e todo o estilo de vida ficou mais rápido e repetitivo. O techno representa tudo isso, sem limites.
PROJETOS RECENTESNos últimos meses Surgeon remixou "
The Clock" (Thom Yorke - XL Recordings), lançou o EP
WhWhose Bad Hands Are These? (Dynamic Tension) e o CD mix
This is For Your Shits (Warp Records). O inglês toca dia 14/03 na festa Circuito, do clube Clash.
Adam Beyer intensifica no momento seu trabalho com o Drumcode, com a meta de 20 lançamentos para esse ano e mais uma série de festas do selo pelo planeta. Ele ainda toca bastante em clubes grandes, raves e festivais, mas disse ter vontade de sets maiores em lugares pequenos, com sets mais experimentais, "para encontrar mais energia e continuar a fazer o que faço". Ele toca sexta, dia 07/03, na festa Circuito, do clube Clash (SP).
Marco Carola ficou de quarentena no estúdio durante janeiro para lançar em breve um projeto duplo de vinil pela Plus8. Depois, de volta à estrada para tocar na SAMC, Winter Music Conference, nos festivais Timewarp e Detroit Electronic Music, fora o verão em Ibiza. Ele tocou nessa última quarta, 05/03, na festa CIO do clube paulistano D-Edge.
mandaram muito
obrigado jade!
obrigado surgeon!
obrigado beyer!
obrigado carola!
Abraços,