Compilação reúne faixas de artistas como Gui Boratto, Booka Shade e dos veteranos Yello
Techno. Admitindo as diversas facetas do gênero, essa talvez seja a maneira mais acertada de definir a sonoridade que tem saído das compilações do selo londrino Fabric. Nomes estelares como Ricardo Villalobos, Ellen Allien e Steve Bug - só para citar alguns dos mais recentes - elevaram a série ao status de coqueluche da dance music, e a chegada de uma nova edição é aguardada por seus entusiastas como uma criança o faria por uma Caloi na noite de Natal.
Nessa esteira de ritmo fabril, que despeja a cada bimestre um novo mix nas lojas, a responsabilidade de assinar a edição de número 38 ficou a cargo da dupla alemã M.A.N.D.Y. Fundadores do bem-sucedido Get Physical, ao lado de Booka Shade e DJ T, Philipp Jung e Patrick Bodmer reuniram em um único disco 25 faixas de techno hipnótico, etéreo e sensual, dispostas em mixagem frenética e precisa.
Sem se ater apenas a novidades do gênero, o álbum compila novidades recém-lançadas e faixas empoeiradas, de nomes clássicos na cena. Exemplo é "Banana to the Beat", do grupo de proto-electro Yello - suíços responsáveis pela imortal "
Oh Yeah", da trilha sonora de
Ferris Bueller's Day Off, ou
Curtindo a Vida Adoidado. A música foi lançada originalmente em 1985 e funciona como um breve interlúdio pseudo-étnico antes da poderosa "Darkslide" (do holandês
Minz). É aqui, já na terceira faixa, que o mix engata a segunda marcha.
HIPNOSE DINÂMICAA partir desse ponto, a compilação segue com produções de nomes bem conhecidos do circuito de clubes e festivais. Mas ao contrário da simetria rigorosa de gravadoras como Mobilee e M_nus, o que se ouve em
Fabric 38 são músicas que levam ao estado de hipnose por um caminho mais orgânico. A monotonia da bateria 4x4 é rompida por lampejos de sintetizador e timbres efêmeros, que desaparecem poucos momentos após despontarem no arranjo.
In the mix

A efemeridade está também na velocidade das mixagens, que dificilmente utilizam mais de dois minutos de cada faixa. Ao contrário das longas digressões de Villalobos, o M.A.N.D.Y. utiliza excertos muito curtos para contar a história de
Fabric 38, o que torna a compilação uma miscelânea de timbres e paisagens díspares. A beleza não está nas mudanças mirabolantes de uma música para outra, mas na unidade alcançada pela mistura.
MISCELÂNEA CLICKYHá lançamentos da Cocoon e Pokerflat, mas a gravadora que emplaca a sonoridade majoritária do disco é, obviamente, a Get Physical. Das fileiras do selo foram escaladas produções de DJ T ("The Dawn") e Lopazz ("2 Fast 4 U") além do recém-regimentado
Raz Ohara, cuja "Kisses" foi remixada pela dupla Kabuto & Koji Carnea. Na nova versão, os vocais de Raz flutuam como espectros sobre uma base grave e borbulhante, ecoando em direção ao vazio.
Apesar de não se pretender um panorama completo do lado mais orgânico e hipnótico do techno contemporâneo, o
Fabric 38 dá algumas dicas do rumo que o rótulo tomou na última década. Artistas-chave do gênero nos dias atuais, como o brasileiro Gui Boratto (que aparece com "Tipologia") e o pseudônimo Audion de Matthew Dear, fazem da compilação uma boa companhia para aqueles que estiverem cansados de loops simétricos e repetições exaustivas.